segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A Nossa Casa

Não vou mentir: dói demais falar sobre a nossa antiga casa.  Também pudera, um lugar como aquele, que despertava tanta inveja dos vizinhos, haveria também de despertar algum sentimento muito intenso só por ser lembrado. Engraçado que embora de simplicidade em sua descrição, um sobrado na rua Catarina, com dois andares e um modesto quintal, a casa tinha algo de encantado, sempre admirada por quem a via ou visitava, elogiosos do seu ambiente aconchegante, do seu clima bucólico ou do seu charme .


Não a conheci, porém, na sua época áurea. Meu pai sempre dizia que, em um primeiro momento, quando não tinham filhos e haviam acabado de terminar a construção, ele e mamãe tiveram momentos incríveis naquele lugar.  O relato dele também sempre possuía certo tom de mágica e nostalgia. Meu pai tinha algum dom com as palavras e nunca me cansei de ouvi-lo descrever como naquela casa, ele e mamãe a sós, experimentavam o tempo correr de forma diferente, numa espécie de relatividade mística, onde tudo era possível e tudo acontecia. Meu pai me poupava de maiores detalhes, mas acho que ele e mamãe viviam agarrados em cada canto daquele lugar, numa eterna dança que é própria deles, afinal os dois realmente possuíam uma sincronia surpreendente, como mais tarde tive a oportunidade de contemplar e até hoje me impressiono.

Mesmo assim, em uma época de crise, os dois foram obrigados a se separarem e tomaram caminhos diferentes. Papai perdera o emprego, teve que trabalhar em outra cidade, e mamãe, jovem ainda, decidiu voltar pra casa de seus pais. Ouvi muito do meu pai sobre o quanto doeu ter que deixar minha mãe e nossa antiga casa.  Minha mãe também sempre demonstrou que foi um período difícil pra ela. Pra casa também não foi diferente: a crise que tirou o emprego de papai também atingira o mercado imobiliário, e o sobrado não foi vendido à época. Ficou, assim, às traças, abandonado, num quadro que me faz, mesmo nem nascida até então, ficar consternada. O que eles estavam pensando?  Como abandonar aquela casa tão querida assim? Será que outra solução não era possível?

O fato é que mesmo abandonada, a casa nunca foi esquecida.  Tanto que anos depois, quando meus pais se reaproximaram e decidiram tentar novamente, o lugar pra ambos não poderia ser outro que não o sobrado da rua Catarina.  A vida tem algumas surpresas sabe?  Ainda que o imóvel tenha permanecido fechado durante anos, não tendo sido visitado por nenhum dos dois - ambos confessaram que a simples lembrança que a casa existia e estava abandonada era, em sua maneira, devastadora, o que impossibilitou visitas durante esse tempo - poucos danos, além de infestações de cupins e algumas goteiras, haviam aparecido. Meu pai disse ter se surpreendido quando descobriu que, durante todos esses anos distantes minha mãe, secretamente, continuava pagando os impostos do imóvel, na esperança de vê-los juntos novamente.  O fato é que, por sorte minha, num ato de coragem de ambos, eles reataram e voltaram a morar na nossa casa, o que a essa altura do meu relato você já deva ter deduzido, significou minha chance de existir.

Foi nesse lar que vivi minha infância.  Em que pesem as resilientes goteiras, vivemos em um grande lar e fomos uma família muito feliz.  Tinha algo de muito mágico naquele lugar, sim, e agora não falo pelo relato de meu pai, mas pelo que vi e vivi. O seus tons em mogno e lilás.  Sua sala grande e espaçosa. O quarto dos meus pais e sua grande cama, no qual eu era terminantemente proibida de entrar sem aviso prévio.  Tudo nela tinha mágica e beleza. 

Já prevejo você pensando que é minha percepção da infância que romantiza tudo e todos, não sendo diferente com a casa em que vivi. Dessa acusação não me defenderei, no entanto, peço que me ouça: as coisas são mais do que só percepção, caro amigo, e existe, sim, uma verdade a ser encontrada. E a verdade da Casa da rua Catarina é uma só: mágica.

Você pode imaginar o quão terrível foi quando aquela grande tempestade veio. Ninguém soube até hoje me explicar os motivos daquela chuva gigante ter tomado conta do nosso canto da cidade. E mais: parecer ter escolhido a nossa casa pra desaguar quase que inteira. É claro que a chuva causou danos a toda uma série de imóveis da vizinhança, mas ela foi – será que por culpa de algum de nós? - especialmente destruidora com nossa casa.

Arruinada a casa, dessa vez não por abandono, mas por uma ação externa, meus pais se viram no dilema sobre reconstruir tudo ou vendê-la naquele estado, pra demolição.  Por falta de recursos, vi mamãe tentar convencer meu pai pra que ambos se afastassem, de forma parecida com aquela do passado, e reconstruíssem tudo, pouco a pouco, à medida que algum dinheiro voltasse a entrar.  E como se fosse ontem, lembro-me da negativa de papai, declarando que o tempo no qual a casa esteve abandonada fora o bastante, e que, pra ele, o sobrado precisava ir.

Foi o momento mais dramático da minha vida, a proposta de papai foi vencedora e de forma urgente  e repentina chegou a hora de dar o mais difícil adeus.

Hoje, acho que consigo entender papai.  Acredito que os anos em que esteve longe de mamãe e de nossa casa foram particularmente difíceis pra ele.  Ele nunca me falou abertamente sobre o que o levou àquela decisão tão drástica e terrível quanto à demolição que presenciamos.  Mas ele teve seus motivos, sem dúvida. O fato é que, com a casa vendida, meus pais se divorciaram de vez.  Fiquei com meu pai na separação, o que se mostrou uma decisão acertada: permitiu que minha mãe fosse viver sua sonhada vida na Itália, enquanto eu pude cuidar de meu pai por aqui mesmo.  Foi a grana da venda da casa que permitiu a realização do sonho de mamãe e isso foi bom.

Meu pai comprou uma casa menor, com sua metade, na qual viveu até o fim da vida comigo, minha madrasta e meu meio irmão. E seu sonho de ter um filho pôde ser realizado com a queda da casa da Rua Catarina.

Talvez fosse realmente hora da demolição. E nesse ato final, no ato de sua morte, a casa presenteou minha família com a realização, dolorosíssima, dos sonhos dos meus pais. 


Ainda assim, de vez em quando me pego pensando sobre tudo, e num misto de melancolia e resignação, semelhantes ao presente nas cartas de minha mãe ou no olhar distante de meu pai, me pergunto: como tudo teria sido se aquela casa, tão mágica, possuísse fundações mais firmes?