terça-feira, 3 de março de 2015

Do perueiro escolar

Um incauto motorista que dirige nas ruas de seu bairro, próximo ao horário de entrada ou saída das escolas, inequivocamente, acaba por encontrar uma infinidade de espécimes de uma figura sui generis da fauna paulistana: o perueiro escolar. Em seu veículo com faixas amarelas e pretas, de zumbido característico, a imagem de um enxame de abelhas poderia facilmente ser evocada. Mas não se engane: nesse cenário, não há doce, não há néctar, não há mel.  

Antes de tudo, ponho-me a tratar sobre a difícil caracterização desse personagem,  começando pelo seu próprio meio de locomoção. O veículo de transporte de estudantes não pode ser chamado, em si, de um micro-ônibus ou ônibus escolar.  Embora por vezes o tamanho do carro possa confundir, sua incipiente regulamentação acaba por afastar a possibilidade enquadrá-lo como algum tipo de ônibus, ao menos algum oriundo de alguma viação devidamente organizada. O transporte escolar é, em essência, autônomo, irregular, aventureiro. Tampouco podemos chamá-lo de lotação escolar, justamente por ainda contar com uma pequena dose de regulamentação e por não haver, até a data desse escrito, qualquer comprovação de ligação de perueiros escolares com o crime organizado. Na dura vida dos veículos de faixa amarela na lateral, a prática de crimes, em geral, dá lugar ao constante e deliberado cometimento de inúmeras contravenções e infrações de trânsito.

Assim, mesmo em tempos de gourmetização da vida e de descontinuidade da produção da VW/Kombi, não existe definição com maior precisão do que a da “perua escolar”, inclusive pela própria ambiguidade do termo.  A perua escolar, no trânsito e na vida, é aquela que congrega as características de uma inofensiva madame semibrega com as características de um veículo automotor que, a exemplo da lenda urbana, se contasse com um palhaço ou bailarina em seu interior, poderia virar uma central itinerante do mercado negro de órgãos.

Elemento de suma importância na caracterização do indivíduo perueiro escolar é a sua voluntariedade em ser chamado “Tio”, condição esta ostensivamente demonstrada em adesivos colados na porta de seu veículo. "Tio Ivan", nome que segundo o IBGE pouco mais de 90% dos perueiros escolares receberam no batismo, é o que você lê quando recebe uma fechada de uma perua escolar, em meio aos gritos das crianças que se encontram em seu interior. A escolha pela figura do “tio” não é por acaso.  Toda família que se preza possui em seus quadros uma figura popularmente definida como "Tio tranqueira". De função importantíssima e indispensável, inclusive desempenhada por este autor no seu seio familiar, o tio tranqueira é um sujeito da borda, uma espécie de anti-herói familiar. É aquele que, vendo-se na ausência dos pais da criança, ensina lições de caráter duvidoso aos sobrinhos, mas de imensurável valor nas adversidades da vida: como revidar agressões injustas, como mascar chicletes de forma descolada, talvez até alguns palavrões, etc.

O tio perueiro, no âmbito interno de seu veículo, é também um educador, ainda que informal. Há entre esses profissionais aqueles que estabelecem uma rígida hierarquia, onde crianças mais velhas devem cuidar das menores, nomeando uma delas como responsável, inclusive, pela abertura e fechamento das portas do carro.  Assim, com mão e volante de ferro, o valor da disciplina e do trabalho é ensinado. Além disso, o perueiro escolar fornece uma enorme lição sobre adaptabilidade.  Quando se vê na ausência dos pais, o perueiro dirige imprudentemente e, em meio aos solavancos e saltos, ensina às crianças que a vida é, em realidade, dura e tormentosa. Por outro lado, na presença dos pais, ao entregar ou buscar as crianças, usa o freio de forma suave, usa linguagem polida e mostra que a vida também é feita de aparências: não basta (nem se deve, ao que parece) ser probo, deve-se parecer probo.

Do ponto de vista externo, o perueiro escolar é aquilo que se vê. Ou se sente. Em meio às fechadas e freadas bruscas, você pensa em chamá-lo de imprudente e até xingá-lo, mas se cala. Ele é titular de um jeito de dirigir muito próprio, quase que hipnótico e admirável. Não se porta como dono da rua, como o faz um taxista da Guarucoop ou um nefasto motorista da Jangada Transportes. Não. O perueiro escolar é antes de tudo uma espécie de possuidor legítimo do logradouro público, ao menos em horários claros e definidos dos seus períodos de posse. Talvez por ser ciente de sua limitação jurídica, o perueiro não aliena nem dispõe de seu espaço: briga por ele, repele invasores, usucape pra si as normas de trânsito e a segurança viária.


O perueiro escolar é, em definitivo, o mais informal dos transportadores regulamentados. É, como visto acima, ao mesmo tempo, tio, educador, contraventor, zangão e posseiro. Pra finalizar em termos escolares, o perueiro escolar demonstra que não só de pontos cardeais ou colaterais é que se faz uma Rosa dos Ventos. Percebendo que não tinha talento pra ser um Norte, tampouco um Noroeste, o perueiro escolar, dirigindo inadvertidamente, fez com que todos aprendessem e respeitassem o valor que um nor-noroeste possui e merece. Tanto faz, nesse caso, se o aluno esteja na 4ª série ou já tenha colado grau, esteja dentro da perua ou dirigindo no trânsito dos bairros de São Paulo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A Nossa Casa

Não vou mentir: dói demais falar sobre a nossa antiga casa.  Também pudera, um lugar como aquele, que despertava tanta inveja dos vizinhos, haveria também de despertar algum sentimento muito intenso só por ser lembrado. Engraçado que embora de simplicidade em sua descrição, um sobrado na rua Catarina, com dois andares e um modesto quintal, a casa tinha algo de encantado, sempre admirada por quem a via ou visitava, elogiosos do seu ambiente aconchegante, do seu clima bucólico ou do seu charme .


Não a conheci, porém, na sua época áurea. Meu pai sempre dizia que, em um primeiro momento, quando não tinham filhos e haviam acabado de terminar a construção, ele e mamãe tiveram momentos incríveis naquele lugar.  O relato dele também sempre possuía certo tom de mágica e nostalgia. Meu pai tinha algum dom com as palavras e nunca me cansei de ouvi-lo descrever como naquela casa, ele e mamãe a sós, experimentavam o tempo correr de forma diferente, numa espécie de relatividade mística, onde tudo era possível e tudo acontecia. Meu pai me poupava de maiores detalhes, mas acho que ele e mamãe viviam agarrados em cada canto daquele lugar, numa eterna dança que é própria deles, afinal os dois realmente possuíam uma sincronia surpreendente, como mais tarde tive a oportunidade de contemplar e até hoje me impressiono.

Mesmo assim, em uma época de crise, os dois foram obrigados a se separarem e tomaram caminhos diferentes. Papai perdera o emprego, teve que trabalhar em outra cidade, e mamãe, jovem ainda, decidiu voltar pra casa de seus pais. Ouvi muito do meu pai sobre o quanto doeu ter que deixar minha mãe e nossa antiga casa.  Minha mãe também sempre demonstrou que foi um período difícil pra ela. Pra casa também não foi diferente: a crise que tirou o emprego de papai também atingira o mercado imobiliário, e o sobrado não foi vendido à época. Ficou, assim, às traças, abandonado, num quadro que me faz, mesmo nem nascida até então, ficar consternada. O que eles estavam pensando?  Como abandonar aquela casa tão querida assim? Será que outra solução não era possível?

O fato é que mesmo abandonada, a casa nunca foi esquecida.  Tanto que anos depois, quando meus pais se reaproximaram e decidiram tentar novamente, o lugar pra ambos não poderia ser outro que não o sobrado da rua Catarina.  A vida tem algumas surpresas sabe?  Ainda que o imóvel tenha permanecido fechado durante anos, não tendo sido visitado por nenhum dos dois - ambos confessaram que a simples lembrança que a casa existia e estava abandonada era, em sua maneira, devastadora, o que impossibilitou visitas durante esse tempo - poucos danos, além de infestações de cupins e algumas goteiras, haviam aparecido. Meu pai disse ter se surpreendido quando descobriu que, durante todos esses anos distantes minha mãe, secretamente, continuava pagando os impostos do imóvel, na esperança de vê-los juntos novamente.  O fato é que, por sorte minha, num ato de coragem de ambos, eles reataram e voltaram a morar na nossa casa, o que a essa altura do meu relato você já deva ter deduzido, significou minha chance de existir.

Foi nesse lar que vivi minha infância.  Em que pesem as resilientes goteiras, vivemos em um grande lar e fomos uma família muito feliz.  Tinha algo de muito mágico naquele lugar, sim, e agora não falo pelo relato de meu pai, mas pelo que vi e vivi. O seus tons em mogno e lilás.  Sua sala grande e espaçosa. O quarto dos meus pais e sua grande cama, no qual eu era terminantemente proibida de entrar sem aviso prévio.  Tudo nela tinha mágica e beleza. 

Já prevejo você pensando que é minha percepção da infância que romantiza tudo e todos, não sendo diferente com a casa em que vivi. Dessa acusação não me defenderei, no entanto, peço que me ouça: as coisas são mais do que só percepção, caro amigo, e existe, sim, uma verdade a ser encontrada. E a verdade da Casa da rua Catarina é uma só: mágica.

Você pode imaginar o quão terrível foi quando aquela grande tempestade veio. Ninguém soube até hoje me explicar os motivos daquela chuva gigante ter tomado conta do nosso canto da cidade. E mais: parecer ter escolhido a nossa casa pra desaguar quase que inteira. É claro que a chuva causou danos a toda uma série de imóveis da vizinhança, mas ela foi – será que por culpa de algum de nós? - especialmente destruidora com nossa casa.

Arruinada a casa, dessa vez não por abandono, mas por uma ação externa, meus pais se viram no dilema sobre reconstruir tudo ou vendê-la naquele estado, pra demolição.  Por falta de recursos, vi mamãe tentar convencer meu pai pra que ambos se afastassem, de forma parecida com aquela do passado, e reconstruíssem tudo, pouco a pouco, à medida que algum dinheiro voltasse a entrar.  E como se fosse ontem, lembro-me da negativa de papai, declarando que o tempo no qual a casa esteve abandonada fora o bastante, e que, pra ele, o sobrado precisava ir.

Foi o momento mais dramático da minha vida, a proposta de papai foi vencedora e de forma urgente  e repentina chegou a hora de dar o mais difícil adeus.

Hoje, acho que consigo entender papai.  Acredito que os anos em que esteve longe de mamãe e de nossa casa foram particularmente difíceis pra ele.  Ele nunca me falou abertamente sobre o que o levou àquela decisão tão drástica e terrível quanto à demolição que presenciamos.  Mas ele teve seus motivos, sem dúvida. O fato é que, com a casa vendida, meus pais se divorciaram de vez.  Fiquei com meu pai na separação, o que se mostrou uma decisão acertada: permitiu que minha mãe fosse viver sua sonhada vida na Itália, enquanto eu pude cuidar de meu pai por aqui mesmo.  Foi a grana da venda da casa que permitiu a realização do sonho de mamãe e isso foi bom.

Meu pai comprou uma casa menor, com sua metade, na qual viveu até o fim da vida comigo, minha madrasta e meu meio irmão. E seu sonho de ter um filho pôde ser realizado com a queda da casa da Rua Catarina.

Talvez fosse realmente hora da demolição. E nesse ato final, no ato de sua morte, a casa presenteou minha família com a realização, dolorosíssima, dos sonhos dos meus pais. 


Ainda assim, de vez em quando me pego pensando sobre tudo, e num misto de melancolia e resignação, semelhantes ao presente nas cartas de minha mãe ou no olhar distante de meu pai, me pergunto: como tudo teria sido se aquela casa, tão mágica, possuísse fundações mais firmes?