terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Opressores

Baseado em fatos quase reais.

 Uma ambulante entra na repartição pública, com uma cesta com embrulhos coloridos nas mãos.
    -Vamos comprar uma trufa hoje? É só dois reais.
O funcionário atarefado olha para o lado e vê a moça em sua porta. Pensa na proposta da moça, que parece humilde e que provavelmente sobrevive da renda gerada pela venda das trufas. Por outro lado, pensa na dieta, mas enfim, ele merece um agrado dado a si mesmo, afinal vive sendo explorado por seu chefe. Analisa a situação, aproveita que é dia de pagamento e decide comprar uma trufa da moça:
    -Vê uma pra mim, por favor...
A ambulante entra em sua sala e vem até a sua mesa, sem desviar o olhar do nosso funcionário.
    -Nossa moço... quanto papel nessa sala – diz a ambulante, ainda sem tirar os olhos do funcionário.
O funcionário, imaginando que a moça quer puxar assunto, responde, pegando a carteira:
    -É, muito trabalho acumulado, acabei de voltar de férias. É assim mesmo.

    -Eu bem sei como é – a moça responde ainda sem piscar- É que eu sou atormentada por espíritos opressores e malignos o dia todo. O tempo todo ouço vozes, que me mandam fazer coisas, matar pessoas, mas eu não obedeço não.

Nos instantes de silêncio que se seguem, o funcionário cogita a possibilidade da moça ser, ela própria, um espírito opressor materializado, provavelmente de alguma funcionária que morreu na repartição. Pensa também que talvez seja uma pegadinha de algum colega. Faz sentido: nosso funcionário está ainda um pouco confuso com a montanha de papéis que recebeu do chefe quando voltou de férias, fato que um colega poderia usar como vantagem. Ou até mesmo uma pegadinha do próprio chefe, aquele canalha.

Por fim, pondera que talvez esteja exagerando, que a moça seja apenas esquizofrênica e que não havia motivo pra pânico. Pega a trufa, paga e se despede agradecido da moça, que sai da repartição com o mesmo andar levemente corcunda e claramente perturbado.

O funcionário ri da situação e volta a trabalhar. Mas a dieta se mantém e a trufa, cuja procedência e composição é desconhecida e oculta, é colocada na mesa do chefe, como presente. Afinal, algo lhe diz que o fogo amigo não atinge apenas aliados em uma guerra, podendo também atingir a opressores, de qualquer natureza, em tempos de paz.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O Flagra

“O telefone encontra-se indisponível, deixe sua mensagem após o sinal”. Era a trigésima vez que ela ouvia aquela mesma mensagem, ligando pro mesmo número nos últimos 20 minutos. Ela está claramente nervosa, grita impropérios olhando para o telefone entre uma ligação e outra, até que decide sair e ir até o trabalho do namorado pessoalmente. É sexta-feira, por volta das seis, e minutos antes havia recebido uma mensagem em que seu namorado dizia não poder encontra-la pois trabalharia até tarde, marcando um horário para pegá-la em sua casa no dia seguinte. Data, horário e mensagem suspeita, o que ensejou uma ligação não atendida, que aumentou a desconfiança, dando início a um círculo vicioso cujo placar já contava com trinta ligações, quatro mensagens de texto e dois recados na caixa postal, nada educados.

Enquanto entrava no carro, ela pensava sobre como não seria passada mais uma vez pra trás. Não, ao contrário do que ocorrera em outros namoros, dessa vez ela constataria a mentira de seu namorado pessoalmente, primeiro sobre o trabalho, e, com sorte, descobrindo pra onde ele havia ido e dar o flagra. Como descobriria o seu paradeiro pareceu-lhe uma questão a ser trabalhada mais tarde, improvisada, afinal a vontade de dar um flagrante naquele canalha traidor era mais forte que qualquer obstáculo. No mesmo espírito, ignorou o fato de que uma tempestade se aproximava e que sua habilidade para dirigir à noite e com mau tempo não era das melhores.


No caminho, nossa amiga furou dois sinais vermelhos, sabendo que devia ser rápida, tendo de chegar antes do namorado ligar o celular e ouvir as suas mensagens, a última mensagem em especial, revelava o plano de desmascará-lo. Quando a chuva torrencial começou, ela ignorou a recomendação de diminuir a velocidade, mantendo-se firme ao seu objetivo. Minutos depois, desviando de um carro que vinha no cruzamento, acabou perdendo o controle, que derrapando e subindo na calçada. Pequeno acidente, ninguém se machucou, a não ser três dos pneus do seu carro e as respectivas rodas. Ficou claro que ela não poderia seguir viagem e, resignada, ligou para o seguro.

Nas três horas em que aguardou o guincho chegar, chorou um choro raivoso, chegou a planejar a morte de seu namorado, mas voltou atrás, percebeu que estava sendo irracional e que deveria ter frieza. Concluiu que embora não tivesse dado o flagrante, deveria agir de forma calculada pra desmascarar aquele canalha. Durante toda noite, passada em claro, arquitetou uma série confusa de vinganças “sutis”, que incluía provocações passivo-agressivas e flertes com desconhecidos. Terminaria com uma conversa cheia do falso espírito de perdão, onde com uma fala mansa, baixa, quase hipnótica, ela prometeria que o perdoaria se ele fosse sincero quanto ao que havia feito. Depois da confissão, aí sim, partiria pra ignorância.

No dia seguinte, recebeu uma sms de um telefone desconhecido, assinada por seu namorado e que confirmava o horário do encontro. Pontualmente, ele chegou até o portão de sua casa e buzinou três vezes, como de costume. Quase que prontamente, ela saiu toda arrumada, entrou no carro, fechou a porta. Estava linda, disse ele, sendo respondido com uma explosão de xingamentos e com uma tentativa de tapa na cara. Para ela, o elogio vindo daquele cafajeste havia sido a gota d’agua, que, numa tempestade semelhante à da noite anterior, colocou todo o seu plano por água abaixo.

A princípio assustado, depois impassivo, ele ouviu todas as ofensas, ameaças, choros que partiram de sua namorada naquela meia hora seguinte. Perguntou se ela havia terminado, ao que ela consentiu de cabeça baixa. Sem dizer nada, ele saiu do carro, foi até o porta-malas, pegou um embrulho e, sentando novamente no banco do motorista, jogou no colo dela.

- Tá aqui o presente que eu fui comprar ontem pra você. Era uma surpresa, por isso menti quando falei que trabalharia até mais tarde. Inclusive, fui assaltado quando saí do shopping, levaram meu celular e por isso não vi nenhuma das suas ligações ou mensagens. Não iremos sair hoje, pode pegar seu presente e ir pra casa.

Ela não sabia o que fazer. Parou por quase um minuto, ensaiou um pedido de desculpas, mas foi logo interrompida por ele, que, ainda impassivo, disse firmemente pra que ela descesse do carro e que depois conversariam. Quando ela fechou a porta, ele saiu lentamente, provavelmente podendo ver o seu semblante desolado abrir o portão e entrar em casa.

No caminho, ele pensou sobre como pressentira que a noitada de bebedeira com os amigos não sairia impune. Tinha ficado bêbado o bastante, inclusive, para perder o celular no tortuoso e desconhecido caminho pra casa. Mas entre toda a sorte e proteção divina, agradeceu em especial por ter seguido o conselho de um colega, que também vivia esquecendo datas importantes, e de ter, meses antes, comprado um estoque de presentes e deixado no porta-malas do carro. 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sim, todo carnaval tem seu fim

Pra começar, eu sei que ao ler o título da minha carta, você pensará: "tanto clichê, deve não ser”. Eu sei, a temática do carnaval é complicada para um cara estranho como eu, que decidiu com seu sapato novo  passear sozinho, sem máscara negra pra se lembrar que era na verdade sentimental.

Veja bem meu bem, eu sei das suas lágrimas sofridas. Eu zanguei numa cisma, eu sei, quando disse precisar andar um caminho só. Eu, que gostava tanto do estrago, acabei por juntar duas palavras tão caras: adeus, você. Eu também me lembro de ter dito que iria pra não voltar, ainda mais se alguém numa curva me convidasse. Eu me entrego e não nego: quis dançar com outro par pra variar, amor.

Naquela época, querida, eu achava que estava sendo um cara valente, um vencedor, que controlaria o meu guidão. Eu não fecharia a mão pro que há de vir, então era hora de viver, ao menos um tempo, sem ter você. Eu não queria saber de cor, pelo contrário: feito passarinho, queria ver o vento me levar e ver horizonte distante. 

Mal sabia que ao sair para o lado oposto, eu me encontraria tão sem gosto de viver e o que era feito pra rir, mas me fez chorar. Quantas vezes ao longe eu via você e minha alma dizia: “ligue para mim e diga que me ama”. Mas minha decisão havia sido tomada, eu tinha aceitado a condição de te deixar. A vontade de voltar veio logo que eu saí mas, por aqui estar, tão longe de você pra te dizer, eu guardei pra mim e disse: deixa estar. O que me cabia agora era fingir na hora rir, acreditar que nada iria mudar entre nós e que você estaria a me esperar.

Acontece que não te dizer o que eu penso já é pensar em dizer e então, Aline, foi assim que hoje eu me atirei e vim te encontrar. Não quero mais ser no papel e não no viver. Cansei de viver tão sozinho e repito, meu carnaval teve um fim. Juro, tudo o que passei nesse tempo longe de ti pode ser resumido em: eu, aflito e só, confuso, sem você por aqui. Nesses onze dias, saiba que eu não manchei nós dois: não estive com outro alguém.

Em minha defesa, eu te lembro que é bom às vezes se perder, sem ter por quê, sem ter razão. Eu que pensei que seria coroado rei de mim, aprendi que não sei nem pra onde ir se você não aponta a direção. Os dias em que me vi só, foram dias em que me encontrei mais e neles eu descobri que não posso viver sem ti. Hoje prefiro levar a vida devagar, pois eu sei que meu coração só pensa em ti. Deixa ser como será, que tenho certeza que no nosso samba a dois está reservado todo amor do mundo. E pra quem disser que é tarde demais ou que é tão diferente assim, diz que a gente sempre foi um par. Afinal, quem é maior que o amor?

Sei não merecer a mão que um dia deste pra mim. Talvez você não queira mais, queira paz e sei ser um direito seu não aceitar minha flor. Entendo que nem tudo vai permanecer igual, afinal, e mesmo assim te peço: pense bem ou não pense assim. Nessa minha volta, vai ver o acaso entregou um novo ou velho amor, que só representa o começo do fim das nossas vidas.

Ainda assim, pode ser que você não responda a minha carta, que a maré não vire e que a gente já não saiba mais rir um do outro, meu bem. O seu silêncio falará alto no meu peito e entenderei que aquilo que eu temia aconteceu. Se assim for, estou ciente  de que isso é coisa pouca perto do que você passou e, sem ressentimentos, te aconselho: procure dividir-se em alguém e seja capaz de se entregar. A vida é curta pra ver por si só, por isso aprenda comigo: não fique achando que sofrer é amar demais.

Diante de tudo que ocorreu, fica bem que eu sofra um pouco mais. Sofrerei, sei que na esquina me matarei a beber pra esquecer, afinal o que me resta é chorar e só em um bar acharei quem entenda meu penar.

Nesse processo, que eu possa ser confortado, deixando tudo assim como está, sereno. Não fique recordando do tempo em que tinha algum amor, em que era bem melhor e perceba que a estrada vai além do que se vê. E que essa saudade que levo, morena, não se aloje no meu peito devagar.

Ao menos isto você me deu: hoje poderei responder que sei o que é ter e perder alguém.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

À mais doce das interioranas paulistas

Oh doce e querida interiorana! Sua beleza e simplicidade não cabem em uma só cidade e se espalham por todo o estado.

Meu primeiro contato contigo não foi direto. Acabei te conhecendo por meio de amigos em comum, uns que apenas te conheciam, outros que estavam contigo. Tínhamos, você, eu e nossos amigos, tanto em comum, querida interiorana, que talvez tenha sido assim que surgiu a primeira chama do que hoje posso chamar, sem exagero, de amor. Tão bem acompanhada, tão bem recomendada, você só poderia ser mesmo muito legal. Curioso, acabei te vendo retratada em fotos e te achei bonitinha, com ares de rústica, comedida, tímida... Mas no princípio foi só isso: uma admiração...

Foi meio ás provas que você me fez passar que passou a surgir algo mais profundo. Talvez tenha sido no seu português, tão hermético e bem elaborado que fez qualquer metido a besta, como eu, suspirar. Ou suas geográficas preocupações ambientalistas, tão descaradas e moderadas, que me fez te ver como uma combinação celestial e perfeita entre alguém ousado e, ao mesmo tempo, razoável. Ou na sua histórica exibição da Iracema: naquele dia, percebi que você era muito mais bela que a nossa heroína indígena.

Quando acabou a última de suas provas, tive a confirmação: eu te desejava. Você me fez retornar pra casa tendo que dividir minha atenção entre o trânsito dessa capital caótica e os sonhos da nossa vida interiorana. Nessa vida, ficaríamos juntos pela eternidade ou até que o jubilamento nos separasse. Ainda que o prazo expirasse, a verdadeira felicidade já estaria em nossos corações: estivemos juntos por no mínimo 8 anos. Por você eu enfrentaria a lenda urbana de que os jubilados transformam-se em cachorros, saiba sempre disso. 

Mas não podemos ficar juntos, você sabe e eu sei. Ainda que em meio a suas listas você tenha dito que me quer, que eu sou especial, não vai dar. Sou um homem de pouca coragem e fé, vivendo na capital e compromissado com uma família numerosa e amigos valiosos. Pior ainda: confesso o pecado de estar flertando com duas iguais a você, mas que não chegam aos seus pés. Talvez eu tenha diminuído meus padrões, talvez você o tenha aumentado. É com vergonha que admito minha fraqueza. Em minha defesa eu invocaria até o art. V da Constituição, mas em nome da cidade que eu nunca ocuparei contigo, serei franco, ainda que soe como cafajeste: as duas estavam tão perto e você tão longe. 

Se tu soubesses o quanto de amor e carinho tenho por ti, se instalaria inteiramente na minha cidade. 

Mas sei que a sabedoria bíblica é a que melhor se aplica neste caso. Foi dito que os covardes não herdarão o reino dos céus e que os de pouca fé não fazem montanhas se jogarem ao mar. Pra tirar alguém que tem a envergadura do interior é necessária muita fé, e admito: sou fraco. Mas aceito a condição e espero que você seja bem feliz junto de seu novo rapaz, com classificação menor que a minha, mas com coragem muito maior.

Nosso destino, distante, decepcionante, deprimente e desgostoso já está decidido. Prometo, porém, nunca esquecê-la, assim como nunca esquecerei a linda, decidida e doce moça que conheci em meio à estrada, e que o simples ato de ouvir o seu nome me evoca as mais profundas reminiscências. É em nome delas, afinal não são poucas as mulheres lindas e doces que deixamos no caminho, que eu te escrevo e declaro o meu amor, querida Unesp.