Tudo é uma questão de ponto de vista. Uma frase bem New Age, ele sabe. Mas Jonas não consegue deixar de pensar assim. Talvez tenha sido um excesso de meditação mal feita, leituras de artigos sobre a lei da atrção ou escutar Enigma demais, mas uma coisa é certa: Jonas se tornou um otimista. A frase colocada no início do conto tem sido a base da sua existência, sem exagero. Pelo menos achava-se.
Enquanto toma banho, se preparando para ir ao trabalho, Jonas dá risada vendo mais uma vez a confirmação da sua máxima. Na noite anterior, ele esteve sem nenhum sono e acontece que lá pelas duas ou três da manhã é que conseguiu dormir. Tendo que acordar às cinco e meia, meia hora mais cedo do que o usual, Jonas tinha tanto sono que quase não levantou. E estava no seu banho, tentando despertar, quando lhe ocorreu o pensamento: “o sono tão esperado às onze horas da noite é muito inconveniente às cinco da manhã”. E ainda segundo ele: “é tudo uma questão de ponto de vista”.
Devo ter esquecido de falar, mas tudo bem, não tem problema: o motivo de Jonas acordar mais cedo é que hoje ele vai pra trabalho de ônibus. Seu carro está quebrado, arrumando ou sei lá o quê: as vezes que Jonas fica sem seu carro já são corriqueiras. Mas hoje é diferente e ao contrário das outras vezes, ele vai ter que trabalhar sem carro.
Convém falar sobre a relação que Jonas tem com seu carro. Aquele seu golzinho, velhinho, velhinho, é o grande companheiro de Jonas desde a sua compra, anos antes. Mas isso não significa que o carro é bem tratado, longe disso. Na verdade, o modo que Jonas lida com o carro mostra muito da sua personalidade: Ele nutre grande afeto pelas coisas, mas nem por isso as trata bem. Foi assim com seu cachorro, com suas ex-namoradas, com vários dos seus amigos e é assim com seu carro.
Depois de se arrumar, Jonas coloca os fones de ouvido do seu tocador de mp3 e sai de casa. Chuva.
Nada que desanime o nosso amigo otimista, que vê na chuva a chance de relembrar sua infância. “Qual foi a ultima vez que eu tomei chuva? Ele tenta achar na sua mente, mas não se lembra. E dá risada quando pensa na resposta: “Hoje”. Que grande homem, não!?
Como o ponto é longe de sua casa e a lotação de bairro que o levaria até mais perto já passou ele decide ir a pé, na chuva. Mas não desanima, uma boa andada sempre que faz bem, ele tem sido muito sedentário essas épocas, sabe!?
Depois de uns quinze minutos andando, chega ao ponto de ônibus finalmente. E se surpreende. São tantas as pessoas no ponto de ônibus que, de longe, ele tinha achado que rolava uma passeata. Mas não, eram todos usuários de ônibus, um com mais mau-humor que o outro, um tipo de mau humor que não parece ser exceção e sim regra em todos os dias.
“Quanta cara feia! Que pessoas mais pessimistas e negativas” Jonas pensa, enquanto procura um lugar no ponto de ônibus. Acaba ficando bem longe do ponto efetivo, aquele lugar coberto com as cadeirinhas, logo é mais chuva na sua cabeça. As pessoas do ponto podem ser pessimistas e negativas, mas de certo modo, isso as fazem serem mais prevenidas e a situação de Jonas fica pior por ser um dos únicos sem guarda-chuva, o que faz grande parte dos respingos de chuva caírem nele. E só nele.
Acostumado a andar de carro, Jonas estranha a demora pra que o ônibus passe. Mas acaba lembrando que ansiedade é um dos grandes problemas psicológicos da modernidade. Aprender a esperar pode salvá-lo de uma futura síncope e ele já ouviu falar que a melhor forma de aprender é na prática. E fica poético, fazendo joguinhos em sua mente com a palavra “esperar' e outras como “esperança”, “esperançoso” e “esperado”. Um otimista poético, quem diria!?
Quando o ônibus finalmente chega, Jonas se surpreende por não conseguir ver qualquer espaço em seu interior que não estivesse preenchido com algum ser humano. Gente sentada, por cima dos bancos, nos corredores, gente pendurada na porta e até mesmo sentada no vão entre bancos que fica em cima das rodas.
Quando ia começar a pensar uma saída poética pra situação, Jonas é tragado pela multidão, que numa especie de arrastão disputa um lugar no coletivo. Jonas não controla suas pernas, deixa a onda humanóide o levar e acaba ficando de frente à porta. Agora é inevitável, mesmo que aquele não fosse o seu ônibus, ele teria que entrar. Mas por sorte, era exatamente o que ele esperava.
“E não é que deixando a situação me levar e consegui entrar no meu ônibus” Ele pensa.
Seu pensamento otimista, no entanto, é interrompido pela dor. Jonas leva uma cotovelada de uma passageira que quase o nocauteia. Nada de propósito, ela até pediu desculpas. Jonas até riria e pensaria algo positivo, mas a dor era grande. Não podendo ser otimista, escolheu então ser poético, lembrando de uma letra de uma música: “Na noite de frio é melhor nem nascer/ nas de calor se escolhe, é matar ou morrer”.
Jonas sentiu vontade de ouvir Cazuza, até colocaria se conseguisse mexer as mãos, colocá-la no bolso e escolher a música em seu mp3. Mas não, ele está imóvel, indefeso, a mercê de qualquer eventual cotovelada, chute e brecada brusca.
Momentos depois, Jonas percebe um odor desagradável que antes, pela recente cotovelada no nariz, não tinha percebido. Um cheiro de cachorro molhado, mas diferente... Como se ao invés de cachorros tivéssemos pessoas molhadas e suadas...
Durante a viagem de aproximadamente quarenta minutos com o trânsito incluso, o ônibus esvaziou é bem verdade. A ponto de Jonas inclusive conseguir colocar suas duas pernas no chão, fato que já não foi recebido com todo o otimismo devido ou, pelo menos, esperado. Jonas não tem mais aquele sorriso no rosto.
A situação piora quando ele percebe que o ônibus não faz o caminho esperado, o que no mínimo vai significar mais vinte minutos a pé. Isso se ele conseguir descer agora. Enquanto empurra as pessoas no corredor, Jonas pensa como nesses seus anos sem pegar ônibus, alguns trajetos deveriam realmente ter mudado. E que era pouco inteligente da sua parte não ter pensado nisso.
Não foi o único pensamento negativo que ele teve até chegar ao seu trabalho. O trajeto a pé foi uma constante acusação, lamentação e, por que não, choramento mental. Tanto que ao chegar na empresa, Jonas encontra com a recepcionista, moça bonita, que solta um belo bom dia, abrindo um lindo sorriso. Jonas responde por educação e com um sorriso cínico diz “bom dia” à moça.
É no elevador, porém, o que acontece de mais interessante. Sozinho, molhado, com o nariz doendo, Jonas subia para o décimo segundo andar. Pensa consigo em tudo o que ocorreu em seu trajeto. Mas aquém da chuva, da cotovelada ou do mal cheiro, uma coisa realmente irrita nosso amigo: o sorriso, possivelmente sincero, possivelmente dissimulado, dado pela recepcionista.
E conclui que não há motivos para ser otimista em um dia chuvoso, com trânsito recorde, tendo o seu carro quebrado, por exemplo. E mais: é extremamente irritante ver alguém otimista, sorrindo, em uma situação dessa. Segundo ele “comendo merda e dando risada”.
Como é possível ser pessimista e poético ele conclui que ao contrário de qualquer ditado popular há males que vem para o mal mesmo.
Oras Jonas! O que é isso? Conto-confissão-mea-culpa?
ResponderExcluirPois é, ser Polyanna aos olhos dos outros é refresco.
A vida fica muito mais colorida e poética com mais de 3 salários mínimos mensais, automóvel e casa própria.
É mesmo triste olhar para os próprios pés calçados com meias furadas e ver que não há rimas para o dedo congelado.
Sempre há curativo: galocha, táxi e gelol (esse para o nariz contundido). Mas não é, nem de longe, a mesma coisa.
Há males que vem pra estapear, chacoalhar e mostrar que nem sempre podemos seguir na trilha do coelho branco.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
Os olhos aprendem a ficar sisudos e não perguntar nada. Não poetisar. E não responder, nem ao bom dia.
Bjs de cânfora e esperança =)
"Era o rodo cotidiano..." Lembrei dessa música do Rappa.
ResponderExcluirÉ, tem dias que não tem como ser otimista mesmo...