terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Verdade?

Ando meio cabreiro com as dualidades do Universo. Tenho chamado essa dualidade de “sociologização” das minha elucubrações. Falo isso, principalmente quando percebo os títulos das últimas crônicas, que a exemplo das pesquisas acadêmicas sociológicas tem no título dois conceitos amplos, muitas vezes antitéticos e contraditórios.


A única diferença entre as crônicas das teses sociológicas era a falta de subtítulos que pipocam nas capas das pesquisas da última como por exemplo: “Industrialização e Socialismo: relações políticas e economicas na sociedade planificada”, “Religião, Meio Ambiente e Cinema: Um debate crítico”, ou mesmo “Música, Barulho, Cidadania e Urbanidade: possíveis aproximações” etc. etc.


E hoje, ainda dentro deste movimento, a elucubração mensal seria sobre os conceitos expostos no título “Verdade ou Mentira: O que preferimos?”. Assim, com direito a subtítulo mesmo.


Pode parecer uma viagem clichê demais, mas tenho percebido que a verdade nem sempre, ou mesmo quase nunca, é bem vinda. Pobre daquele que um dia achou que conquistaria o mundo sendo fiel a suas ideias e convicções, sendo franco e honesto em todas as ocasiões. Na primeira esquina, ele acaba encontrando algum pedinte, que pede dinheiro e estando aquele com o único dinheiro pra condução e se vê no dilema: mentir dizendo que não tem grana ou dá-la?


Mas isso é digressão, o que quero falar aqui é sobre a mentira associada à carência afetiva, à solidão. Porque é na música a “Dança da Solidão”, que eu acabei pensando o meu argumento principal: as pessoas em geral preferem a mentira à verdade, principalmente quando a primeira delas significa ter alguém pra massagear os pés de vez em quando.


Vamos a música: a letra vai fazendo mençao a solidão, a tristeza, até que irrompe o refrão: “desilusão/ desilusão/ danço eu dança você/ na dança da solidão”. Bem, é uma boa música. Mas o que me pega foi a semântica da palavra “desilusão”. Isto porque ilusão (engano dos sentidos ou pensamento, segundo um dicionário online qualquer) era a meu ver uma coisa ruim, negativa. Logo, ser desiludido seria uma coisa boa, voltar à realidade, encara a vida como ela é. Me parece que não é esse o sentido na música, onde a palavra é empregada de forma negativa e é ainda associada a “solidão”. Aquém de qualquer discussão aprofundada, ao menos a primeira impressão que a musica me passou foi a seguinte: talvez seja bem melhor continuar iludido, desde que não sozinho.


Bem, isso me levou a pensar sobre outras palavras, um exemplo a palavra “desenganar”. Ora, aprendi com minha mãe que enganar os outros era feio. Desenganar, logo é uma coisa boa. Mas uma pessoa desenganada por algum médico é uma pessoa que tá com seu pé na cova. Nessa situação, antes fosse provavelmente continuar enganado.


Ponho-me a pensar até que ponto as pessoas querem a verdade. Seja falar da dos problemas que atrapalham uma relação, seja contar que aquele fora que você deu em alguém é porque tem outra pessoa na jogada, etc. Quem já foi eleito o porta-voz da verdade sabe: as pessoas odeiam quem conta a dura verdade. E fazem biquinho, ficam bravinhos e ficam com os olhinhos lacrimejados, implorando por uma mentirinha branca.


Tudo bem, eu, você e todos gostamos de uma mentira... e?


O lance todo é que como todas as funções que existem debaixo do sol, houve uma profissionalização da mentira. Um exemplo de profissional, o estelionatário. Além de levar o dinheiro da vítima, usando truques como o golpe do bilhete premiado, da máquina de fazer nota, do empréstimo milionário no BNDES, o estelionatário leva sua honra, seu coração e sua alma. Isto porque ele faz da ambição da vítima a sua forma de barganha. Alguém que dá R$ 3.000,00 por uma máquina que produziria dinheiro falso tem alguma moral à delegacia reclamar? Ou aquele que tenta se aproveitar da ingenuidade de um interiorano com um bilhete da loteria premiado e perde a sua bolsa? É celebre a frase de um juiz que escreveu em uma sentença que não se deveria prender o estelionatário e sim o otário que caiu no golpe. O que, particularmente, me deixa intrigado é a perseverança do estelionatário pra conseguir o que quer. Ele mente, atua, vira seu amigo, toma chá na sua casa, tudo pra conseguir aquele dinheiro que você tem na bolsa ou no banco. O estelionatário é brasileiro e não desiste nunca! E acho que nós torcemos secretamente por ele.


E o já aclamado e adorado estelionatário social: o malandro. O malandro já virou símbolo do brasileiro. Ele supera as barreiras que sua condição de nascimento lhe impõe e usando toda a sorte de traquinagens, consegue freqüentar festas na alta sociedade, ser citado nos cd’s de artistas famosos, etc. Foi até tema de albuns do Chico Buarque, olha só! Todos nós queremos ter um pouco de malandragem a flor da pele.


Mas acho que verdadeira paixão nacional é o estelionatário emocional, também conhecido como cafajeste, cafa ou José Mayer. Talvez uma mulher pudesse nos explicar melhor sobre o estranho fascínio que um cafajeste tem sobre o sexo feminino. Em todo caso, é um fato: a grande maioria das mulheres querem um cafajeste pra chamar de seu.


Ora, vivermos em uma sociedade em que cada vez as relações são mais escassas. O cafajeste tem um desejo muito grande por alguma mulher, tanto quanto o malandro tem de ascender socialmente e o estelionatário tem pelo seu dinheiro. E de tão grande o seu desejo, ele é capaz de jurar amor eterno, fazer vozinha de retardado ao telefone, mentir descaradamente sobre onde esteve na noite passada, etc. Acho que no fundo todos sabem que se tratam de mentiras, mas são as que atingem uma parte complicada da psiquê humana: o ego. Quem não quer se sentir desejado?


Imagino eu que pra uma mulher deva ser inconscientemente lisonjeiro imaginar que aquele cara é capaz de fazer para tê-la e afirmo: não são poucas as referencias que tenho pra afirmar isso. São inúmeras as vezes que já presenciei mulheres dizerem que não importava a fidelidade de seus homens, o que importava era a lealdade. Não deixa de ser lealdade sair com sua melhor amiga e mentir, negar até a morte que o fez.


Enquanto isso, como está quem fala a verdade ou pelo menos a quer? Está só, duro e sem prestígio social!? Não sei... mas talvez realmente “seja mais forte quem sabe mentir” e muitas das coisas terrenas estão reservadas pra aquele contador de histórias, xavequeiro e galanteador.


E agora, nunca por falta de criatividade e sim por um recurso técnico sociologizador, não haverá nenhuma lição de moral neste texto. Porque, convenhamos, falemos a verdade e deixemos de ilusão: as mentiras, como essa da criatividade, são as formadoras da realidade.

3 comentários:

  1. E caimos numa velha discussão nossa. Lembra aquela sobre o sujeito do Matrix que trai o grupo para poder voltar a viver na ilusão, já que a realidade era muito sombria e sem gosto para ele. Você mesmo me fez uma pergunta, a la Morpheu, " E dai que o gosto do salmão na realidade é ruim... vale a pena vencer a ilusão pela perspectiva do gosto ser melhor..."

    Isso faz um bom tempo, mas será que as coisas mudaram tanto assim?

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  2. Gostei bastante, mas bastante mesmo, desse texto. Principalmente por ter mexido comigo, e recordado algumas coisas bem importantes dentro daquilo que li poraí.
    Apesar do risco do pedantismo, vou indicar um outro texto:
    O modo como vc descreve a pré-disposição das mulheres (de todos nós?) pela atração da lisonja me lembrou muito um ensaio do M. de Assis (um texto que ele escreveu aos 21 anos, mas qe já é formidável). Achei na net: chama-se "Queda que as mulheres têm para os tolos", e está nesse link. http://machado.mec.gov.br/arquivos/html/miscelanea/mams02.htm
    Imagino que o cafajeste (José mayer foi ótimo!) não é bem o tolo, mas mesmo assim o texto tem a ver com o seu.
    Um abraço!

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  3. Permita-me dizer que ainda sou adepta a verdade (nada de ingenuidade, nem falsa modéstia! rs), até que o contrário se revele!
    Penso, que o rancor (tido por mim como o resquício da mentira) é passageiro, desde q não advindo de uma mentira "mal-dita" (no sentido amplo! rs), mas cabe aqui remediar o ato-falho (antes que ataque outras partes), regado a doses constantes de boa-intensão, (se esgotaram minhas dicas! rs), ressalto apenas a necessidade de permitir que o fato seja observado e se possível entendido do ponto de onde esta sua vista!

    Sobre: "ter um cafa só pra si" - Ter o domínio sobre a situação, é quase tão parecido com a sensação de se de "domar" um cafa! Desta forma, não se trata simplesmente de ser mulher e ter predileção por um cafa, mas de dominar a situação ... isso, só os dominadores ou postulantes a tal posição compreendem! ^^

    Ter consciência sobre a construção sem alicerces do dito "cafa", e ao final elevá-lo a um modelo a ser seguido (AAAH, calma, não se desespere! rs), é como dizer que para galgarmos algo, devemos nos igualar aos malandros e estelionatários de plantão, como se o que realmente importa fosse nossa ascensão individual e dependesse do famoso "jeitinho brasileiro". Ok, fugindo da utopia, sabemos que é o modo "mais fácil" (para quem já massageia a consciência!), mas faço-lhes um convite, sem promessas ou receitas prontas, ousemos provar outros sabores ... o da descoberta a passos largos, por caminhos nunca antes desbravados, longe dos atalhos que limitam nossas ações, outrora trilhados por tantos outros, que hão de nos manter sob custódia da sra ilusão, isso quando não nos depararmos com seu formato mais cruel, o que crescemos acreditando que fosse nossa saída!

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