quarta-feira, 31 de março de 2010

Otimista

Tudo é uma questão de ponto de vista. Uma frase bem New Age, ele sabe. Mas Jonas não consegue deixar de pensar assim. Talvez tenha sido um excesso de meditação mal feita, leituras de artigos sobre a lei da atrção ou escutar Enigma demais, mas uma coisa é certa: Jonas se tornou um otimista. A frase colocada no início do conto tem sido a base da sua existência, sem exagero. Pelo menos achava-se.

Enquanto toma banho, se preparando para ir ao trabalho, Jonas dá risada vendo mais uma vez a confirmação da sua máxima. Na noite anterior, ele esteve sem nenhum sono e acontece que lá pelas duas ou três da manhã é que conseguiu dormir. Tendo que acordar às cinco e meia, meia hora mais cedo do que o usual, Jonas tinha tanto sono que quase não levantou. E estava no seu banho, tentando despertar, quando lhe ocorreu o pensamento: “o sono tão esperado às onze horas da noite é muito inconveniente às cinco da manhã”. E ainda segundo ele: “é tudo uma questão de ponto de vista”.

Devo ter esquecido de falar, mas tudo bem, não tem problema: o motivo de Jonas acordar mais cedo é que hoje ele vai pra trabalho de ônibus. Seu carro está quebrado, arrumando ou sei lá o quê: as vezes que Jonas fica sem seu carro já são corriqueiras. Mas hoje é diferente e ao contrário das outras vezes, ele vai ter que trabalhar sem carro.

Convém falar sobre a relação que Jonas tem com seu carro. Aquele seu golzinho, velhinho, velhinho, é o grande companheiro de Jonas desde a sua compra, anos antes. Mas isso não significa que o carro é bem tratado, longe disso. Na verdade, o modo que Jonas lida com o carro mostra muito da sua personalidade: Ele nutre grande afeto pelas coisas, mas nem por isso as trata bem. Foi assim com seu cachorro, com suas ex-namoradas, com vários dos seus amigos e é assim com seu carro.

Depois de se arrumar, Jonas coloca os fones de ouvido do seu tocador de mp3 e sai de casa. Chuva.

Nada que desanime o nosso amigo otimista, que vê na chuva a chance de relembrar sua infância. “Qual foi a ultima vez que eu tomei chuva? Ele tenta achar na sua mente, mas não se lembra. E dá risada quando pensa na resposta: “Hoje”. Que grande homem, não!?

Como o ponto é longe de sua casa e a lotação de bairro que o levaria até mais perto já passou ele decide ir a pé, na chuva. Mas não desanima, uma boa andada sempre que faz bem, ele tem sido muito sedentário essas épocas, sabe!?

Depois de uns quinze minutos andando, chega ao ponto de ônibus finalmente. E se surpreende. São tantas as pessoas no ponto de ônibus que, de longe, ele tinha achado que rolava uma passeata. Mas não, eram todos usuários de ônibus, um com mais mau-humor que o outro, um tipo de mau humor que não parece ser exceção e sim regra em todos os dias.

“Quanta cara feia! Que pessoas mais pessimistas e negativas” Jonas pensa, enquanto procura um lugar no ponto de ônibus. Acaba ficando bem longe do ponto efetivo, aquele lugar coberto com as cadeirinhas, logo é mais chuva na sua cabeça. As pessoas do ponto podem ser pessimistas e negativas, mas de certo modo, isso as fazem serem mais prevenidas e a situação de Jonas fica pior por ser um dos únicos sem guarda-chuva, o que faz grande parte dos respingos de chuva caírem nele. E só nele.

Acostumado a andar de carro, Jonas estranha a demora pra que o ônibus passe. Mas acaba lembrando que ansiedade é um dos grandes problemas psicológicos da modernidade. Aprender a esperar pode salvá-lo de uma futura síncope e ele já ouviu falar que a melhor forma de aprender é na prática. E fica poético, fazendo joguinhos em sua mente com a palavra “esperar' e outras como “esperança”, “esperançoso” e “esperado”. Um otimista poético, quem diria!?

Quando o ônibus finalmente chega, Jonas se surpreende por não conseguir ver qualquer espaço em seu interior que não estivesse preenchido com algum ser humano. Gente sentada, por cima dos bancos, nos corredores, gente pendurada na porta e até mesmo sentada no vão entre bancos que fica em cima das rodas.

Quando ia começar a pensar uma saída poética pra situação, Jonas é tragado pela multidão, que numa especie de arrastão disputa um lugar no coletivo. Jonas não controla suas pernas, deixa a onda humanóide o levar e acaba ficando de frente à porta. Agora é inevitável, mesmo que aquele não fosse o seu ônibus, ele teria que entrar. Mas por sorte, era exatamente o que ele esperava.

“E não é que deixando a situação me levar e consegui entrar no meu ônibus” Ele pensa.

Seu pensamento otimista, no entanto, é interrompido pela dor. Jonas leva uma cotovelada de uma passageira que quase o nocauteia. Nada de propósito, ela até pediu desculpas. Jonas até riria e pensaria algo positivo, mas a dor era grande. Não podendo ser otimista, escolheu então ser poético, lembrando de uma letra de uma música: “Na noite de frio é melhor nem nascer/ nas de calor se escolhe, é matar ou morrer”.

Jonas sentiu vontade de ouvir Cazuza, até colocaria se conseguisse mexer as mãos, colocá-la no bolso e escolher a música em seu mp3. Mas não, ele está imóvel, indefeso, a mercê de qualquer eventual cotovelada, chute e brecada brusca.

Momentos depois, Jonas percebe um odor desagradável que antes, pela recente cotovelada no nariz, não tinha percebido. Um cheiro de cachorro molhado, mas diferente... Como se ao invés de cachorros tivéssemos pessoas molhadas e suadas...

Durante a viagem de aproximadamente quarenta minutos com o trânsito incluso, o ônibus esvaziou é bem verdade. A ponto de Jonas inclusive conseguir colocar suas duas pernas no chão, fato que já não foi recebido com todo o otimismo devido ou, pelo menos, esperado. Jonas não tem mais aquele sorriso no rosto.

A situação piora quando ele percebe que o ônibus não faz o caminho esperado, o que no mínimo vai significar mais vinte minutos a pé. Isso se ele conseguir descer agora. Enquanto empurra as pessoas no corredor, Jonas pensa como nesses seus anos sem pegar ônibus, alguns trajetos deveriam realmente ter mudado. E que era pouco inteligente da sua parte não ter pensado nisso.

Não foi o único pensamento negativo que ele teve até chegar ao seu trabalho. O trajeto a pé foi uma constante acusação, lamentação e, por que não, choramento mental. Tanto que ao chegar na empresa, Jonas encontra com a recepcionista, moça bonita, que solta um belo bom dia, abrindo um lindo sorriso. Jonas responde por educação e com um sorriso cínico diz “bom dia” à moça.

É no elevador, porém, o que acontece de mais interessante. Sozinho, molhado, com o nariz doendo, Jonas subia para o décimo segundo andar. Pensa consigo em tudo o que ocorreu em seu trajeto. Mas aquém da chuva, da cotovelada ou do mal cheiro, uma coisa realmente irrita nosso amigo: o sorriso, possivelmente sincero, possivelmente dissimulado, dado pela recepcionista.

E conclui que não há motivos para ser otimista em um dia chuvoso, com trânsito recorde, tendo o seu carro quebrado, por exemplo. E mais: é extremamente irritante ver alguém otimista, sorrindo, em uma situação dessa. Segundo ele “comendo merda e dando risada”.

Como é possível ser pessimista e poético ele conclui que ao contrário de qualquer ditado popular há males que vem para o mal mesmo.

domingo, 21 de março de 2010

Entendimento

E mais uma vez Jonas sai de sua casa para uma cidade da Grande São Paulo. Ele é acostumado a andar grandes distâncias por uma mulher. Ainda mais quando é bonita, ele nem liga. E esta é. Definitivamente, ela está no seu Top Five, lista que não significa muita coisa, ele bem sabe. Mas Patrícia é uma gata, acreditem!

E lá vai o Jonas. Chega na casa da moça, espera uma eternidade, mas quando ela chega abre o sorriso como se nada tivesse acontecido. Ela pede desculpas pela demora. Típica coisa de segundo encontro, onde os dois envolvidos ainda mascaram muito do que sentem. Nesse caso, a raiva por ter esperado, no caso dele, e a completa falta de preocupação com a espera, no caso dela.

Saem os dois no carro, conversando sobre amenidades quando algo de mais grave ocorre. Patrícia, que se auto definiu como confusa desde sempre, diz para Jonas que os dois precisam conversar. E o frio corre pela espinha de Jonas. Ele temia esse momento, embora já o esperasse. Tinha percebido, sem qualquer auto definição da moça, que Patrícia era confusa, mas achava que o inevitável “pé-na-bunda” ocorreria depois de mais alguns encontros. No segundo encontro, ele pensa, é muito azar.

E Patrícia se põe a falar e falar. Fala que não é acostumada a sair com pessoas como o Jonas, que parecia ser muito apressado. Fala também que tem medo de se machucar. Disse também que tem medo de Jonas se machucar o que deveria ser evitado a qualquer custo. Mas também que Jonas lembra um ex-namorado dela, triste coincidência. Ela ainda diz que gosta de Jonas, não tanto quanto daquele ex-namorado, mas lembra que o Jonas é uma pessoa muito legal. Na verdade, ela se recorda que nem gosta tanto desse ex-namorado, apenas se sentia confortável com ele, coisa de acomodação, entende!? Pensando bem, a pressa do Jonas era coisa boa, se você pensar bem. Mas a pressa poderia atrapalhar, afinal ela pensa de novo e conclui que nem gosta tanto assim do nosso amigo. Gosta mesmo do Ex. Ela diz que tá confusa, tem medo de se machucar, definitivamente.

-Você entende, Jonas?

Jonas que havia ficado hipnotizado na primeira jogada de cabelo e se perdido na primeira contradição de Patrícia, se vê num impasse. O que falar? Ele não entendeu bulhufas do falado, mas decide que diante de tudo, o melhor era fingir que entendia. E diz:

-Eu te entendo sim, perfeitamente.

-Como você pode entender se nem eu entendo – ela respondeu.

E pra desespero de Jonas, covardemente emendou:

-O que eu disse então?

E a batatinha quente voltou pra mão de Jonas. “Fodeu de vez” ele pensa. Após um breve momento calculando e calculando ele decide jogar a toalha, desiste de vez. Alegria de pobre dura pouco, ele sabia que cedo ou tarde a Patrícia ia ficar confusa se queria sair com ele. Ele enche o peito e diz:

-Pelo que eu entendi você não quer mais sair comigo, certo!? - Ele fala em tom de choro.

-Não é nada disso, acho que é justamente o contrário. Eu acho que to gostando de você...

A conversa continua. Mas Jonas ficou com o pé atrás, sua intuição dizia o contrário, ele bem sabe. Mas ser elogiado pela Patrícia era bom demais pra ser verdade, ele pensa. “Porque não aproveitar!?”

E o que se seguiu, parafraseando Machado de Assis, foi o “eterno” diálogo de Adão e Eva.

Acontece que na ocasião do terceiro encontro, Jonas já se preparava pra sair de casa quando recebeu uma mensagem de Patrícia. A confusa mensagem, em meio a frases dispersas tinha um recado quase claro: ela não queria mais sair com ele.

“Eu estava certo desde o início!” Ele pensou.

Mesmo assim, como todo homem bobo que se preza pensou duas vezes, talvez pudesse ter feito algo de errado. Quando se preparava para ligar pra Patrícia, um rompante de lucidez e auto-estima bateu em si. Talvez fosse a intuição, talvez fosse a racionalidade. Na verdade, talvez tenha sido qualquer coisa que faz alguém pensar melhor. Mas uma coisa era clara para Jonas:

Os dois não se entendiam muito bem. Definitivamente.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Na cara, não!

Bem é chegado o Carnaval e pra não passa-lo em branco decidi viajar pra qualquer cidade do interior. Acabei escolhendo a cidade de Itu, que por incrível que pareça não tem um carnaval tão gigante assim. Mas a cidade é bonitinha, tem um centrinho histórico divertido, um trio elétrico de responsa, mulheres bonitas, cerveja Nova Schin barata, etc. No carnaval de rua só faltou uma coisa: banheiros. Não havia sequer um banheiro público, gigante ou não, para ser usado.


Mas a viagem foi ótima. Confesso que eu estava precisando de uma folga, um descanso, um lugar que pudesse me livrar das responsabilidades e problemas, pelo menos temporariamente.Talvez com isso, ficar mais firme na resolução daquilo que me aflige, sei lá.

Acho normal pensar assim, principalmente no Carnaval. Afinal, sabemos de certo modo que desde as festas do entrudo às fantasias de diabinhos, uma palavra de ordem permeia a festa mais popular do Brasil: liberar geral. O carnaval, historica, metafísica e, porque não, etílicamente é um momento de pausa nas regras, no superego da sociedade. Coincidindo com um momento de comemoração pagão, em cinco dias do ano Deus deixa de ver aquele pecado capital que você quer cometer. Não só Deus, seu chefe te dá folga, afinal ele precisa também de folga da função de chefe. Claro, ele também é filho de Deus, e também quer um passe livre pra desobedecer aos Céus, nem que seja só por alguns dias.

Nas cidades do interior, como acho que você leitor sabe, o poder de um policial é muito maior do que na capital ou na cidade grande. Deve ser um lance com o número reduzido de policiais, afinal a divisão de poder fica menor, mas é certo que um PM do interior equivale quase um delegado da capital. O delegado então que o diga. Acredito até que é interiorana a anedota de que a única diferença entre delegado e Deus é que Deus não se acha delegado.

Quanto ao problema do banheiro, em Itu, as esquinas se transformaram no maior banheiro a céu aberto, garantindo mais um título gigantesco à cidade.Como sou um meio intelectual, meio de esquerda, meio cristão e meio civilizado, decidi perguntar pra um dos policiais militares onde ficava o banheiro público mais próximo. A resposta foi emblemática. O policial me disse que eu deveria mijar em qualquer esquina, mas advertiu: "Só não vai me mijar na cara do PM!”.

Eu bem sei o que ele quis dizer. Lembro de uma vez que um cara chegou às duas da manhã na delegacia, dirigindo, bêbado querendo fazer um B.O. qualquer. Não sou fã da Lei Seca, mas ter o cara dirigindo bêbado na minha cara fez com que os rigores da lei fossem cumpridos.

Enquanto isso em Itu, procurei um lugar distante e fiz minhas necessidades fisiológicas. Mas toda a questão do carnaval, da autoridade e do “não mijar na cara do pm”, ficaram na minha cabeça, sem trocadilhos.

E comecei a perceber que a maioria dos caras que estavam com uma namorada bonitona, daquelas que não dá pra não olhar, pouco se importavam com os olhares dos marmanjos de plantão. Até a exibiam como troféu, desde que respeitadas as mínimas regras de convivência e que ninguém mexesse ou tocasse.

Interessante essa relação, tão brasileira com as transgressões. Parece que a gente nasce pra não ver algumas coisas a não ser que a situação seja gritante. E quem tem alguma autoridade ou poder não se envergonha em deixar de usá-la quando a desgraça é pouca. Nós adoramos o “deixa pra lá” em uma relação diretamente proporcional com o “agora isso já foi longe demais”. Será esse o motivo que faz a festa de libertação e liberação que é o Carnaval ser a maior em nosso país?

Admito, eu não sei. Mas sei do seguinte: quando voltava da grande Itu, acabei tendo que pegar ônibus, fiquei sem carona e tal. Em todo caso, quando estava na linha que cobre o trajeto até a minha casa, entraram alguns moradores de rua, sendo que a principal do grupo ficou contando toda a sua vida pro seu parceiro. E em alto e bom som, eu fui ouvindo as aventuras amorosas que ela teve sendo que todos seus parceiros eram moradores de rua ao que parece. Mas notei o seguinte: a todo momento era reiterado um ciúme doentio dos parceiros. Entre as histórias narradas a que me chamou a atenção foi a seguinte: a moça, moradora de rua, estava com um vestidinho preto, andando com seu ex-amasio pelas ruas de São Paulo, quando o amante se invocou com um individuo, transeunte, com residência fixa e tudo, que supostamente estava olhando pra bunda de sua parceira. E ao contrário daqueles que andavam com os mulherões em Itu, o nosso sacripanta fez com que a história tivesse um fim trágico: uma tijolada, sem mais nem menos, na cabeça do suposto voyeur adúltero, que foi parar no Hospital.

Claro: fiquei barbarizado com a história. Mas convenhamos, em uma situação em que não se tem quase nada, o pouco que se perde é muito. Praquele cara, sem residência fixa, dinheiro ou qualquer noção, o olhar pra bunda de sua parceira é uma afronta direta àquele pouco que ele tem.

E realmente acho que existe uma relação inversamente proporcional entre o montante de poder e a vontade de usá-lo. Vejamos teologicamente: Deus é onipresente e onipotente, não? E não foi ele mesmo que deu o perdão de antemão pra todos os humanos? Ainda, desde que não fosse "na sua cara” (tá, eu gosto de frisar a frase!), a cidade de Itu era um grande banheiro com autorização dos Pm’s.

Grande poder, grande perdão. Nenhum poder, nenhum perdão. Talvez essa seja a chave da construção da autoridade.

E se alguma moral há nessa história é que benevolência é pra quem pode. Tema aquele que perdoa, assim como desdenhe quem lhe taque pedras. Ou mesmo, perdoe-os, afinal “eles não sabem o que fazem”. Em tempo, já que toda teoria tem sua aplicação: não mije na cara de um PM e sempre fuja de um mendigo com um tijolo.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Verdade ou Mentira: O que preferimos?


Comecemos com uma digressão. Já faz um tempo em que ando escrevendo e pensando sobre as mais diversas dualidades. A esse processo apelidei “sociologização” das minhas elucubrações. Isso porque, a exemplo das pesquisas acadêmicas sociológicas, os títulos das minhas últimas crônicas têm apresentado dois conceitos amplos, muitas vezes antitéticos e contraditórios. Pode checar: não é difícil encontrar na seção de sociologia de uma livraria ou sebo, títulos como “Industrialização e Socialismo”, “Religião, Meio Ambiente e Cinema”, ou mesmo “Música, Barulho, Cidadania e Urbanidade”. Com uma dose maior de fanfarronice e preguiça, títulos semelhantes são encontrados nas últimas crônicas desse blog, que definitivamente não busca a sua redenção hoje, com a presente crônica intitulada “Verdade ou Mentira: O que preferimos?”. Preguiçosa assim, com subtítulo mesmo.

Você, caro leitor, pode achar essa discussão clichê demais e tem grande razão. Mesmo assim, vou direto ao ponto: na experiência humana, a Verdade, grafada em maiúsculo, verdade verdadeira, nem sempre, ou quase nunca, é tida como bem-vinda. Pobre daquele que achou que conquistaria o mundo sendo fiel às suas ideias e convicções, sendo franco e honesto em todas as ocasiões. Na primeira esquina, ele acabou encontrando algum pedinte e estando ele com aquela última quantia pra condução e se viu no dilema: mentir dizendo que não tem a grana ou dá-la?

Indo além, o que quero falar aqui é sobre a mentira associada à carência afetiva, à solidão. Porque foi na música a “Dança da Solidão” que eu acabei pensando o meu argumento principal: as pessoas em geral preferem a mentira à verdade, principalmente quando a oposição versar sobre ter alguém pra massagear os próprios pés ou não.

Na música, a letra vai fazendo menção à solidão, à tristeza, até que se irrompe o refrão: “desilusão/ desilusão/ danço eu dança você/ na dança da solidão”. Bem, é uma boa música, isso é inegável. E a ouvindo, me pus a pensar sobre a semântica da palavra “desilusão”. Isso pois ilusão, engano dos sentidos ou pensamento, segundo um dicionário online qualquer, sempre foi pra mim uma coisa ruim, negativa. Logo, ser desiludido seria uma coisa boa, voltar à realidade, encara a vida como ela é. na música, porém, a palavra é empregada de forma negativa, associada a “dança da solidão”, pintura , convenhamos, tão deprimente que me evoca um xaxado dançado por um cangaceiro só . Ao menos a primeira impressão que a musica me passou foi a seguinte: talvez seja bem melhor continuar iludido pra evitar ser um solitário.

Outro exemplo, a palavra “desenganar”. Ora, sou daquele grupo seleto que aprendeu com a mãe que enganar os outros era feio. Logo, desenganar, seria uma coisa boa. Mas uma pessoa desenganada, ao menos na área médica, é uma pessoa que tá com seu pé na cova, o que nos leva a pensar que talvez, nessa situação, antes fosse melhor continuar enganado.

Surge assim a pergunta: até que ponto as pessoas querem a verdade? Seja pra, numa tradicional DR, falar dos problemas que atrapalham uma relação, seja contar que aquele fora que você deu em alguém é porque tem outra pessoa na jogada, etc. Quem já foi eleito o porta-voz da verdade sabe: as pessoas odeiam quem conta a dura verdade. E culpam, sim, a mensagem, o mensageiro, implorando por uma mentirinha branca.

Tudo bem, concluamos preliminarmente que eu, você e todos gostamos de uma mentira... e?

O lance todo é que como todas as funções que existem debaixo do sol, houve uma profissionalização da mentira. Um exemplo mais emblemático é o do estelionatário. Além de levar o dinheiro da vítima, usando truques como o golpe do bilhete premiado, da máquina de fazer nota, do empréstimo milionário no BNDES, o estelionatário leva sua honra, seu coração e sua alma. Isto porque ele faz da ambição da vítima, a sua forma de barganha. Alguém que compra com as economias da vida uma máquina que produziria dinheiro falso tem alguma moral pra ir numa delegacia e reclamar? Ou que tal aquele que tenta se aproveitar da ingenuidade de um interiorano com um bilhete da loteria premiado e perde a sua bolsa? Ficou célebre uma sentença em que um juiz afirmou que naquele caso concreto, embora não fosse possível,  não se deveria prender o estelionatário e sim o otário que caiu no golpe.
O que, particularmente, intriga é a perseverança do estelionatário pra conseguir o que quer. Ele mente, atua, vira seu amigo, toma chá na sua casa, tudo pra conseguir aquele dinheiro que você tem na bolsa ou no banco. O estelionatário é brasileiro e não desiste nunca! E no fundo, talvez todos nós torçamos secretamente por ele.

Temos também o já aclamado e adorado estelionatário social: o malandro. O malandro já virou símbolo do brasileiro, que superando as barreiras que sua condição de nascimento lhe impõe, usa toda a sorte de traquinagens, consegue freqüentar festas na alta sociedade, ser citado nos cd’s de artistas famosos, etc. Foi até tema de álbuns do Chico Buarque, olha só! Todos nós queremos ter um pouco de malandragem a flor da pele, entoando a também célebre música da Cassia Eller.

Mas acho que verdadeira paixão nacional, literalemente, é o nosso estelionatário emocional, o cafajeste. Talvez uma mulher pudesse nos explicar melhor sobre o estranho fascínio que um cafajeste exerce sobre o sexo feminino, mas em todo caso, é um fato: a grande maioria das mulheres querem um cafajeste pra chamar de seu.

Ora, vivermos em uma sociedade em que cada vez as relações são mais escassas. O cafajeste tem um desejo muito grande por alguma mulher, tanto quanto o malandro tem de ascender socialmente e o estelionatário tem pelo seu dinheiro. E de tão grande esse seu desejo, ele é capaz de jurar amor eterno, fazer vozinha de retardado ao telefone, mentir descaradamente sobre onde esteve na noite passada, etc. Acho que no fundo todas sabem que se tratam de mentiras, mas são as que atingem uma parte complicada da psiquê humana: o ego. Quem não quer se sentir desejado?

Imagino eu que pra uma mulher deva ser inconscientemente lisonjeiro imaginar que aquele cara é capaz de fazer para tê-la e afirmo: não são poucas as referencias que tenho pra afirmar isso. São inúmeras as vezes que já presenciei amigas dizerem que não se importavam com a fidelidade de seus homens: o que importava era a lealdade. Não deixa de ser lealdade sair com sua melhor amiga e mentir, negar até a morte que o fez.

Enquanto isso, como está quem fala a verdade ou pelo menos quer? Está só, duro e sem prestígio social!? Não sei... mas talvez, real e infelizmente, “seja mais forte quem sabe mentir” e muitas das coisas terrenas estão reservadas pra aquele contador de histórias, xavequeiro e galanteador.

E agora, nunca por falta de criatividade e sim por um recurso técnico sociologizador, não haverá nenhuma lição de moral neste texto. Porque, convenhamos, falemos a verdade e deixemos de ilusão: as mentiras, como essa que nega a falta criatividade, são as grandes formadoras da realidade.