quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Culpa o Carma?

Imagine-se como um chefe de uma seção qualquer, de uma empresa qualquer. Nesta pequena seção, você tem dois funcionários. Um deles, tem um grande apego ao seu trabalho, temente sobre as possíveis mudanças de mercado, sempre se esforça pra mostrar serviço, chegando no horário, fazendo horas extras, com uma atitude proativa e tudo mais.

Agora pense naquele outro funcionário, que nunca ligou pra qualquer projeção de futuro,não chega no horário, não faz horas extras, faz duas horas de almoço. Mas que consegue agradar a todos com seu jeito. Seu funcionário mesmo, acaba por se definir como um bom vivant.

Enquanto esta empresa encontra-se com um belo fluxo de caixa, tudo corria bem. Você até acha que os dois se contrabalançam, enquanto um trabalha, o outro canta.

E eis que no inverno, ops, na crise financeira, o que acontece? Você deve demitir um dos dois ou diminuir pela metade o salário de ambos. O que fazer, o que escolher: a cigarra, a formiga, ou as duas?

No fundo, no fundo, a gente não sabe como se portar. Pelo menos eu não sei. Ajudar a ambos, provavelmente demonstrando não ter nenhum problema de ter perdido parte do seu verão, ou melhor, lucro principalmente pela preguiça de um folgado inconsequente? Ou simplesmente virar a cara, escolher o bom funcionário, o que pode parecer justo, mas dói aos corações de qualquer ser humano com o mínimo de culpa ou teto de vidro?

Pra mim, ultimamente, tudo tem sido uma questão de ideologia. Ideologias, visões de mundo que ficam orbitando pelas duas possíveis formas de resolver a questão: A forma Católica e a forma Carmica.

( Mais uma teoria, ok!?)

Sobre a visão Católica, tenho que fazer um pequeno adendo: não é católica apenas, é uma visão de mundo da chamada culpa Católica. É que sempre fui criado em um mundo onde de tudo se tem pena, tudo se desculpa e no dos outros é sempre pior. É essa visão que me faz sempre achar estar errado, sempre tentar entender os motivos dos outros e sentir uma eterna dó de tudo que se move ou não.

E assim, como bom culpado, acho que despedir alguém dói demais, pobre do rapaz. E não para por aí, terminar com alguém, ser franco demais, devolver uma agressão justa, tudo, tem que ser pensado com base do seguinte preceito: “Ô, coitado...”

E cá entre nós, eu vivia bem com isso, até crescer um pouco e perceber que nem sempre há a segunda chance. Nem sempre a formiga dá comida à cigarra, nem sempre a dó surge no coração e a palavra de ordem muitas vezes é : “o que fizeste no verão? Cantaste? Então dance!”.

E como eu vi pessoas dançando, sendo presas no primeiro crime, apanhando na primeira folgada com alguém maior, sendo atropeladas na primeira desatenção no trânsito, morrendo na primeira troca de tiros como policial e por aí vai.

É aí que vem a visão Carmica, menos a derivada do hinduísmo e mais aquela do ditado: “aqui se faz aqui se paga”. Se há consequências por suas atitudes, não pense que você se livrará delas, é o que eu acabo ouvindo quase sempre. E ao invés das professoras condescendentes da escola, eu tenho as frias máquinas corretoras de vestibulares e concursos. Ao invés da minha mãe, que até quando me batia mantinha a cordialidade, o espírito maternal e, porque não, a camaradagem , eu agora tenho a polícia e a prisão aguardando qualquer deslize. É mais pesada a vida com o fardo de aguentar tanta responsabilidade.

O grande problema é que as duas visões de mundo são incompatíveis. É impossível ser Carmico se quando aquele amigo que te deixou de lado pela namorada te ligar você aceitá-lo de braços abertos. Assim como é difícil pra qualquer pessoa fazer com que alguém aprenda a pescar se todos os dias ele recebe os peixes de graça. “Ninguém compra a vaca se dão o leite de graça”, certo?

E hoje, confesso que tenho sido mais Carmico que Católico. Sem culpa, já devolvi algumas das coisas que me tacaram, com dor no coração, claro. E além de “rezar sobre a minha palavra para cumprí-la”, eu tento assumir responsabilidade pelo que faço. Mas é claro, às vezes tudo fica tão difícil, o fardo de ser responsável por si tão pesado que, confesso a todos, acabo procurando algum colo que ainda se ache responsável por afanar minha cabeça e dizer “tadinho...”.