O mundo de hoje é controlado por método, um pensamento científico. Desde meados do séc. XVII, talvez, a humanidade passou a mensurar, controlar, subjugar, normatizar qualquer tipo de movimento, objeto, ser ou outra coisa abaixo ou acima do Sol. Tudo que é sólido desmancha no ar, tudo pode e deve entrar na dança das infinitas pesquisas, leis e experimentações.
Então, pouco a pouco, ao passo que essa visão do mundo se proliferava, os jargões do tipo “não temos elemento para concluir positivamente sobre a existência disso ou daquilo", ou então “as probabilidades de tal coisa ocorrer são grandes” ou mesmo, “com base nisso, podemos inferir que” também eram usados por mais e mais pessoas.
A pouco, eu caí nas garras do método científico. Depois de sofrer uma queda, acabei fraturando minha fíbula (um osso que eu orgulhosamente desconhecia a existência). Assim, tive que recorrer a uma profissão mestra do método científicos, na qual a truculência e a frieza características, só podem ser comparadas a de economistas em tempos de inflação, políticos em eleição ou patrões em tempos de recessão. Os médicos, ao analizar a fratura chegaram ao diagnóstico cirúrgico pois “as probabilidades de sequelas eram consideráveis” e “não havia elementos que pudessem impedir que um jovem de 24 anos fizesse uma dessas cirurgias”.
O discurso foi comprado. E andando eu cheguei ao Hospital para ser internado. Por alguns dias eu fiquei num regime de enclausuramento, com várias formas de tortura, que não deve nada à uma prisão. A própria prisão é outro local claramente criado pelo método científico, pois é preciso evitar que algum criminoso, indivíduo com fortes indícios de peversão moral, possa cometer mais crimes se solto.
Ao retornar,eu tinha alguns quilos a menos, dois pinos colocados em ossos diferentes, uma terrível dor nas costas com um hematoma causado pela anestesia e, mais importante,um pé cortado em três lugares, dolorido, dilacerado e não-funcional. É engraçado o fato de se chegar ao Hospital andando e sair com muletas e cadeira de rodas, ainda mais pensando que a cirurgia foi um sucesso. O interessante é que essa dor que sentirei nos próximos meses, somada ao fato de ter de ficar de molho em casa, afastado do trabalho, dos amigos, das namoradas, da faculdade e da vida, tudo isso, diante das probabilidades da sequela posterior deve ser minimizados.Os médicos “fizeram aquilo que devia ser feito”, máxima do método científico e de políticos tucanos.
Mas ponho-me a pensar: as probabilidades são tão poderosas assim? Quanto que havia de probabilidade, de início, que eu pudesse cair e quebrar a perna? Um por cento, dois? E ainda assim, eu caí, não?
Acho que o que mais me dói hoje não foi o que o método científico fez com meu pé. Não, cedo ou tarde eu melhoro, não há indícios que isso não ocorra. O que foi bem pior, foi o corte feito na minha alma, na minha visão de mundo. Isto porque eu acabei por ver um mundo pelas probabilidades também.
Há pouco tempo, ao aconselhar um amigo que terminou o namoro, eu usei os jargões, afinal ele “vai ficar um pouco mal agora, mas diante das pequenas possibilidades de que sua namorada mude, no futuro vai ser melhor”. É fato que as possibilidades são pequenas de alguém mudar, mas tal qual as possibilidades que existiam da minha queda, ela não pode se realizar!?
Eu tenho procurado indícios pra tudo, eu tenho calculado grande parte das minhas ações, votando os prós e contras de qualquer atitude... Eu virei um médico, um político, um economista, um engenheiro, um diretor de presídio. Mas, caros amigos, existem fortes indícios que milagres médicos acontecem, as estatísticas de intenção de voto se enganam, economias se recuperam sem aumento da taxa de juros, pontes e viadutos caem e pessoas se arrependem de seus crimes. O que fazer, então? Simples. É só ignorar aquilo que não encaixa no meu modelo de pensamento. Posso até chamar estes indícios contrários de “fatos residuais”.
Embora tenha nascido depois que o método científico já tomou conta do mundo, eu tenho saudade daquilo que não vi: um mundo onde tudo podia acontecer. O amor acontecia, as pessoas podiam mudar, Deus controlava aquilo que Lhe é de direito, a cada esquina um milagre ou uma desgraça podia acontecer. Concordo que “o céu de Icaro tem mais poesia que o de Galileu” . E neste mundo, nesse passado distante e idílico, eu estaria com minha perna inteira, claro! Pois onde tudo pode acontecer, “provavelmente haveriam mais chances” de eu ser um pessoa cautelosa.
E os acontecimentos excepcionais, pouco prováveis, ou sei lá o quê, na vida de alguém que gosta de escrever "geralmente" ensejam ótimos textos.
ResponderExcluirQuebrar a fíbula pode até ser considerado improvável, mas há casos em que o acidentado não colabora com a improbabilidade: vc não conhece ninguém que quebrou a fíbula ao cair de uma pedra às 2 da manhã, num estado de embriaguez incalculável? hehe!
Se pensarmos que um mal desses ajudou a construir um texto tão bom, ele perde força (bom, isso pra mim, que não senti as torturas todas! rs)
Abraços desejosos de uma boa recuperação, Fábio!
Minhas cicatrizes (que não são poucas) me ajudam a contar grandes histórias...
ResponderExcluirSomos marcados o tempo todos por todos os lados... É só mais uma pra coleção!
Ficar inativos nos leva a refletir mais... A valorizar a vida de outra forma.
O Fato é que todos fazemos parte das estatisticas de "pessoas normais que se acidentam as vezes"...
Vai ficar tudo bem!!!
Melhoras!
Bjao