sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Timing

Luiz chega a sua casa depois da bebedeira. É sábado à noite. É uma da madrugada. Temendo a ressaca iminente toma um Engov e o gosto amargo do santo remédio o faz ter vontade de vomitar. Seus vômitos são experiências transcendentais, ele bem sabe. Por várias vezes, só continuou vivo porque ele seguiu conselhos e não correu para a luz. Voltou para a escuridão nas experiências quase morte, continuou vivo em seu banheiro, mas acredita que só está ainda nesse mundo porque tinha alguém pra segurar sua cabeça. Ah! Esqueci de mencionar, Luiz está sozinho. Mais do que sozinho momentaneamente, Luiz se sente sozinho em toda a sua existência, estado piorado pelo alto teor de álcool em seu sangue. Decide dormir, afinal não tinha mais o que fazer, sem contar que a bebedeira o fará dormir tranquilamente, sem ficar revirando-se na cama como têm feito nas noites passadas.


Enquanto se aconchega no seu colchão ralo, tentando uma posição que no eventual vômito involuntário não provoque um sufocamento, Luiz recebe uma ligação. A música ridícula de seu telefone chama sua atenção para o visor, que brilha no quarto escuro, e que indica que Cássia, um antigo rolo queria falar com ele. Ele atende o telefone, com voz enrolada e pastosa:


-Alô, Cássia?


-Oi Gatinho! Onde você ta? – Luiz estranha a voz enrolada e pastosa de Cássia, mas acredita que talvez sua audição é que tenha ficado cremosa demais, talvez por um cérebro derretido com o Etanol.


- Oi, estou em casa. Como você tá? Tudo bem?


- Tudo bem sim. Mas você sabe como eu realmente estou? Estou nua, doidinha pra te ver, gostoso. Vem aqui em casa, que eu to louca de tesão por você!


Luiz sente como se tivessem injetado glicose em seu sangue. Como um milagre, levanta-se da cama, sentando em sua beirada e após duas gaguejadas, responde com uma voz firme e interrogativa:


-O quê que deu em você? Ficou com vontade de me ver do nada?


-Não interessa. Eu quero te ver! Vai me deixar aqui desse jeito, seu cachorro – Ela fala com voz extremamente sensual.


Luiz pensa como a sorte lhe sorriu. Mas estava bêbado de mais para dirigir até a casa de Cássia, podia também acabar ser pego pela PM. Ele diz no telefone:


-Claro que eu vou te ver, mas hoje não dá. Mas amanhã sem falta eu vou te ver. Pode ser?


- Tá bom, você vai me deixar sozinha hoje, mas amanhã você vai ser meu.


A conversa se desenvolve um pouco mais, até que desligam. Luiz está agora um bêbado radiante.


No dia seguinte, porém, ao chegar na casa de Cássia, a moça parece nem lembrar do que havia sido combinado na noite passada. Encontra Luiz de pijamas em plena 20h00 e após ser cientificada do que trazia Luiz até sua casa, ela responde sem graça:


- Vixe, ontem eu estava muito bêbada. Deixa isso pra lá.


Embora Luiz insista, Cássia é irredutível e não sai com ele.


Após culpar até Deus pela situação inusitada, Luiz decide ir pra casa e aproveitar seu ralo, porém confiável, colchão.


Uma semana depois, sem estar bêbado dessa vez, Luiz recebe outra ligação de Cássia,também em horário bandeira 2. Cássia, mais uma vez levemente embriagada, tenta convencer Luiz a ir até sua casa na hora. Mas o carro de Luiz está no conserto e ele argumenta com Cássia sobre sua ida de ônibus, num primeiro horário no dia seguinte. Também afirma que a mesma deveria anotar tudo que estava dizendo, pra não esquecer na primeira ressaca. Cássia concorda com todas as claúsulas.


Mais uma vez, no dia seguinte, agora às 15h00, Cássia afirma não se lembrar de nada. E adverte:


- A partir de hoje não leve mais a sério o que eu falo bêbada. São pensamentos e vontades efêmeros, que passam na primeira visão de sobriedade.


O que Luiz aprendeu nessa questão? Mais ainda, o que essa história tem a ver com você, Leitor(a) que me acompanhou até agora. Na verdade, pouco ou nada. Mas uma coisa ela tem de importante: Tudo tem alguma duração.


Como a inscrição para uma prova, um curso ou qualquer outra coisa, vários aspectos da vida têm prazo certo. Uma vez que você não exerceu seu direito no tempo estipulado desista. Não tem mais jeito.


O Direito Penal tem uma categoria especial que demonstra esta teoria: o prazo decadencial. O lance é mais ou menos o seguinte: alguns crimes por sua natureza transitória são condicionados à representação (o processo só corre pela vontade da vítima), que por sua vez tem um prazo de 6 meses para ser exercida. Decorrido o prazo, adeus processo. Por isso, para não tornar esse exemplo no mais inútil do mundo, caso você seja barraqueiro o bastante e planeje processar alguém por ameaça, lesão corporal, injúria, calunia, preste atenção nos prazos.


O lance dos prazos também está presente em outras questões das relações humanas. É como um namoro que terminou que aproximadamente tem dois meses para ser reatado. Passado este tempo, provavelmente a coisa esfriou e o reatar pode significar danos irreversíveis de alguma das partes. Mesmo a ligação que se faz bêbado ao término de qualquer relacionamento tem um mês contado para ocorrer. Se este prazo se esgotar, o “volta pra mim” ganha conotações tão humilhantes e pedantes, que nunca vai ser respondido com um “sim”, mesmo que as partes sejam almas gêmeas.


Um feliz aniversário atrasado só até uma semana depois da data correta, por favor!


Pra quem depende de transporte público: existem vários aspectos importantes da Filosofia e Psicologia levantados quando se corre atrás do ônibus! Afinal, perder o seu horário de passar é perder qualquer chance de pegá-lo. O que nos resta, pobres envoltos no Rodo Cotidiano: praguejar e reclamar, sem nenhum alvo especifico.


Por isso, nada como o Timing perfeito. Fazer aquilo que deve ser feito, no momento certo e do jeito certo. A exemplo de Luiz, meu amigo imaginário, que nesta noite abasteceu seu carro, tomou banho, colocou sua melhor roupa, calçou um sapato, se perfumou, etc. Não, ele não vai sair. Vai dormir. É que ele não quer perder mais nenhuma chance e afinal ligações tardias e os desejos são quase sempre imprevisíveis.

3 comentários:

  1. otimo !!! engraçado me identifiquei muito com esse tal luis rsrrsrsrs

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  2. Também desejo aproveitar as oportunidades no tempo certo...

    Só não sei ao certo onde elas realmente estão, rs

    Adorei!

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