Ultimamente tenho me sentido um pouco estranho. Algumas voltas na vida, alguns breves momentos de incerteza e as grandes dúvidas sobre o futuro, fiéis atormentadoras, reaparecem. Não que se trata de um momento pessimista: trata-se de uma constatação pessimista. Isto porque, depois de ver as várias situações em que a gente se coloca, cheguei a uma conclusão: o índice de depreciação da vida humana é muito alto.
Por depreciação, eu entendo aquele lance que faz o valor das mercadorias caírem á medida que a sua data de fabricação de torna mais distante. Esse processo tem uma evolução de certa forma linear, sendo no entanto acelerado por descontos no IPI ou crises internacionais.
Até aí, tudo bem. Mas o complicado é que, ao meu ver, ela também existe nos seres humanos. A medida que o tempo passa as responsabilidades são maiores, o que acaba fazendo as opções menores.
Quando falo de responsabilidade, não falo só daquela responsabilidade objetiva, como pagar contas, prover a casa, criar filhos, etc. Falo também das respostas que temos que dar a nós mesmos que com o passar do tempo ficamos muito mais críticos e chatos. Existe uma idade que os porres deixam de ser engraçados e começam a ser coisa feia, idade esta que espero não ter alcançado ainda. Ou mesmo, aquele emprego que te dava uma grana boa até dois anos atrás, hoje já não é tudo aquilo. Os foras são mais doloridos, a recuperação mais difícil, as brigas são mais banais e ao mesmo tempo mais intensas. Tudo ganha um ar de mais grave, a ponto que uma viagem deve ser totalmente preparada. Parece que até os dias passam mais rápido depois que se passa dos 20 anos.
Analisando a expressão “homem de meia idade” que seria alguém com 50 anos aproximadamente, me pergunto: será que aos 50 estamos na “meia idade”? Sei não, viu!? Não só porque não acho que viverei 50 anos. Pensando na vida como uma parábola, tô começando a achar que o ápice está bem ali na casa dos 20 anos. O resto é só uma lenta e dolorosa descida. Exemplo: quando mais jovem, há longínquos 6 anos, a gente praticava esporte a qualquer hora, com qualquer traje, etc. E ainda tirava o sarro dos idosos de trinta anos, que dias após a prática esportiva ainda sentiam na pele (e nos músculos) as consequências atléticas. Hoje, considero que a prática de esportes deva ser banida da humanidade e não jogo nem palitinho sem aquecimento.
O verdadeiro rito de passagem provavelmente seja a compra de um colchão inflável. para acampar. A partir do momento que se assume ter dor nas costas, chegamos a vida adulta e ao início da decadência.
Que fique claro que tudo isso possa ser só pessimismo passageiro, causado por uma combinação explosiva de várias drogas, entre elas cerveja, pinga e músicas do Lulu Santos. Ou mesmo, talvez a depreciação venha desde o nascimento, por existis em várias outras situações. Mas é que chego a lembrar saudosamente de uma época da juventude onde qualquer R$ 100,00 era motivo de viagens aos finais de semana para vários locais paradisíacos como as praias de Ocian, Boqueirão ou Aviação. Lembro que sempre começávamos a viagem tomando Smirnoff e Sprite, ouvindo Zeca Baleiro, rindo de situações corriqueiras e dormindo em colchões ortopédicos. Mas como o dinheiro era curto e a loucura grande, dias depois, com o indice de depreciação na carteira, estávamos tomando Dolly Limão com Vodca Balalaika ouvindo Bruno e Marrone, chorando nossas amarguras e dormindo na privada.
E lembrando de tudo isso, ainda acho que aquele tempo era melhor que hoje.
Uma vez recebi um email que falava sobre como até na música, tudo tinha uma tendência pra piorar. Não era bem esse o tema, era mais sobre como pra cada acidente, morte e desgraça que ocorre com algum artista de qualidade (por exemplo, Herbert Vianna, Chico Science, Renato Russo) uma infinidade de coisas boas acontecem aos pagodeiros e outros “músicos” (Belo escolhendo entre a Gracianne Barbosa e Viviane Araujo, Daniel fazendo novela e por aí vai). Até os Los Hermanos estão de férias indeterminadas hoje em dia.
E enquanto isso, nas paradas de sucesso de todo o Brasil estão várias músicas da grande banda Deja vu. Essa banda, com seu estilo inigualável e sua vocalista de voz excêntrica, conquistou o coração de todos aqueles que alguma vez já frequentou algum bordel, foi ao Patativa, Centro de Tradições Nordestinas, etc. E se você não fez nada disso mas já dormiu na rua, assistiu pornanchanchada ou já sentiu uma pulsação estranha em dias de lua cheia, esse também é o seu som.
Lembro-me que jurei nunca ir a um dos lugares que tocavam e nunca dançar ao som dessas músicas demoníacas.
E acho interessante como as pessoas são parecidas. Na última festa que fui, escutei um garoto de uns 15 anos dizer a mesma coisa, jurar do mesmo modo que jurei a anos atrás. Foi quase um Deja Vu!
Mas a bem da verdade é que era Deja Vu mesmo, rolando a toda altura, enquanto eu me engalfinhava como uma dona chamando-a de “princesa” e “coração”. Eu tinha me embebedado com cerveja Bavaria quente, sabe como é né... Resultado: dormi na rua.
Decadência, decadência...
Obs.: este é um texto fictício, qualquer semelhança com qualquer coisa que o autor tenha feito é mera coincidência. Ou seja, eu não dormi na rua...Nem tomei Bavaria... ainda.
Ao invés de uma nova trombada, uma marcha ré com dignidade? Ou ao invés de uma marcha ré com dignidade, uma nova trombada corajosa? Nunca se sabe... o importante, meu amigo, é nunca beber bavária!
ResponderExcluirLogo a roda da fortuna volta a sorrir! Espere e verá!
abraços!
Fábio Adorei!
ResponderExcluirEu estava fazendo essa reflexão esses dias!
Beijos