terça-feira, 1 de setembro de 2009

Contatos mediados e imediatos

Ana está entediada, jogando paciência em seu computador enquanto suas unhas dos pés secam após ter passado um novo esmalte rosa. Pensa sobre amenidades e sobre coisas importantíssimas, simultaneamente, tendo para cada início de pensamento um desfecho melodramático e depressivo. Pensa no seu ex, no teto de seu quarto que está mofando, na sua carreira como aeromoça, se deveria jantar agora ou mais tarde... Definitivamente, a única conclusão a que ela chega é que está entediada. A sua meditação só é interrompida por uma mensagem recebida no celular, onde o remetente, um número estranho com prefixo 86, afirma ser do SBT e que Ana tinha sido contemplada com um prêmio. Após ligar para o número que solicitaram, Ana vem a saber que havia ganhado uma casa e um carro 0 km, os quais receberia tão logo fizesse a compra de alguns cartões de recarga para celular e passasse esses números ao atendente.
Ana não pode esconder a empolgação, tanto que se esquece de suas unhas pintadas, coloca um tênis e corre para a lotérica mais próxima. No caminho, pensa como dessa vez ela faz parte de algo, como talvez toda a tristeza que sentia tenha sido um crédito com Deus, que agora lhe dera uma casa. Ela sente algo que não sentia há tempos, essa mistura de felicidade e excitação que acredita ter havido no início do namoro com o “Ex”, mas que tinha se perdido no meio do caminho. Talvez agora com essa casa e esse carro ela seja capaz de superar o que ocorrera e partir pra outra. Quiçá tripudiar de seu “ex” passando em frente à sua casa com seu novo carro e um novo paquera. Ana se sente excitada.
Acontece que após passar os números de recarga Ana descobre que tudo se tratava de um golpe e o atendente e o remetente da mensagem estava baseado em algum presídio Piauiense.

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César está carente, assistindo Zorra Total no sábado à noite, após ter comido pizza em excesso com seus pais. Fica sentado, esparramado, com o controle-remoto nas mãos, pensando sobre como precisa assinar uma TV a cabo ou arrumar uma namorada. Pensa, como sempre, em uma gatinha que tem paquerado mas que parece não querê-lo. Será que valeria a pena ligar pra ela? Ou é melhor se fingir forte e resistir? Definitivamente, a única coisa que ele sabe é estar carente. Sua auto-lamentação é interrompida com a vibração do celular. Uma mensagem! César sente um aperto no coração que se torna mais forte quando vê o remetente: é ela! Põe-se a ler a mensagem, que em tons libidinosos revela aquilo que César sonhava: ela o quer. Ela o quer maliciosamente.
César estranha levemente o conteúdo da mensagem, mas sente um misto de espanto e felicidade. Uma combinação de sentimentos que o remete a um episódio de sua infância, quando ganhou uma bicicleta nova de seu pai sem mais nem menos, um presente fora de época. É essa alegria que sente agora, decidindo levantar-se daquele sofá e caçar o que fazer. Não responderá nenhuma mensagem hoje, promete a si mesmo, e por isso decidi ir estudar pro concurso que vai prestar em breve. É hora de pensar no futuro, diz ele. Acaba estudando por duas horas e logo depois vai dormir, com um sorriso no rosto. César se sente completo.
No dia seguinte, responde a mensagem recebendo em seguida a resposta, onde a moça pedia desculpas pelo escrito no dia anterior, foi tudo uma questão de erro na escolha do destinatário. Era tudo um engano.

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Carlos está triste, navegando em páginas da internet enquanto faz seu login no MSN. Seu time perde há cinco rodadas, sua mulher o deixou e seu emprego cobra muito e paga pouco. Enquanto procura algo para distraí-lo, espera ansiosamente encontrar alguém on-line para desabafar. Não encontra ninguém, o que aumenta a sua amargura.
Carlos se lamenta, praguejando contra a vida e Deus, quando se surpreende com uma mensagem instantânea de Lucas, seu amigo, mandando-o clicar em um link para ver algumas fotos. Carlos recusa-se a clicar no link, dizendo que na verdade precisava desabafar, passando a escrever desenfreadamente sobre suas situações complicadas na vida financeira, esportiva e, principalmente, amorosa. Toda a conversa se assemelha a um monólogo, que acaba minutos depois, quando Carlos já se sente bem o bastante para agradecer Lucas por tê-lo ouvido e ir embora. Decide que não vale a pena sentir pena de si mesmo. Despede-se de Lucas, fecha seu MSN, e se põe a pensar em coisas boas que tem em sua vida, como sua saúde, família e amigos, que como Lucas, podia contar sempre. Carlos se sente feliz.
Uma coisa que Carlos não sabe é que Lucas não estava no MSN naquela noite. Encontrava-se a dezenas de metros de um computador, em uma piscina, numa festa temática havaiana. A mensagem on-line mandada a Carlos não passava de um vírus, o qual ele não clicou por achar-se depressivo demais para ver fotos de mulheres nuas.

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Três histórias fictícias? Ou não? Até que ponto somos já fomos um pouco Ana, César ou Carlos e ficamos esperando sinais pra mudar a nossa vida como sabemos que precisamos.?Será que realmente tem algo a ver ganhar uma casa pra superar aquele fim de relacionamento? Ou supostamente ganhar uma gatinha e estudar praquele concurso? Ainda, uma vez que tudo pode ser ilusão e pulsos eletrônicos traduzidos em palavras podem revelar mensagens tão ocas e falsas é mesmo de bom grado basear decisões importantes nessas coisas?
Muitas vezes os sinais só revelam aquilo que já sabemos e talvez, sem eles, saibamos que seja hora de superar aquele término, estudar para aquele concurso ou ter um pouco de auto-estima. Mas se ainda assim precisarmos de algum empurrão ou sinal, uma boa olhada no espelho pode ser mais eficaz que uma bela mensagem de amor.

4 comentários:

  1. Bastante forte e, depois,eu que sou marrom heheheheh!!!

    Um grande Abraço,

    Caio!

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  2. Ótimo conto! Parabéns!
    Bjs

    "Toda escolha implica
    Em perder ou ganhar
    Toda estrada a gente pega
    E nunca sabe onde vai dar..."

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  3. Eu e o espelho não somos muito amigos...
    Procuro olhar para o alto e para dentro!

    "Não olhe para tras, não olhe para frente, olhe para o alto!"
    Sta Paulina

    Muitos bjos

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