terça-feira, 29 de setembro de 2009

Deja Vu

Ultimamente tenho me sentido um pouco estranho. Algumas voltas na vida, alguns breves momentos de incerteza e as grandes dúvidas sobre o futuro, fiéis atormentadoras, reaparecem. Não que se trata de um momento pessimista: trata-se de uma constatação pessimista. Isto porque, depois de ver as várias situações em que a gente se coloca, cheguei a uma conclusão: o índice de depreciação da vida humana é muito alto.

Por depreciação, eu entendo aquele lance que faz o valor das mercadorias caírem á medida que a sua data de fabricação de torna mais distante. Esse processo tem uma evolução de certa forma linear, sendo no entanto acelerado por descontos no IPI ou crises internacionais.

Até aí, tudo bem. Mas o complicado é que, ao meu ver, ela também existe nos seres humanos. A medida que o tempo passa as responsabilidades são maiores, o que acaba fazendo as opções menores.

Quando falo de responsabilidade, não falo só daquela responsabilidade objetiva, como pagar contas, prover a casa, criar filhos, etc. Falo também das respostas que temos que dar a nós mesmos que com o passar do tempo ficamos muito mais críticos e chatos. Existe uma idade que os porres deixam de ser engraçados e começam a ser coisa feia, idade esta que espero não ter alcançado ainda. Ou mesmo, aquele emprego que te dava uma grana boa até dois anos atrás, hoje já não é tudo aquilo. Os foras são mais doloridos, a recuperação mais difícil, as brigas são mais banais e ao mesmo tempo mais intensas. Tudo ganha um ar de mais grave, a ponto que uma viagem deve ser totalmente preparada. Parece que até os dias passam mais rápido depois que se passa dos 20 anos.

Analisando a expressão “homem de meia idade” que seria alguém com 50 anos aproximadamente, me pergunto: será que aos 50 estamos na “meia idade”? Sei não, viu!? Não só porque não acho que viverei 50 anos. Pensando na vida como uma parábola, tô começando a achar que o ápice está bem ali na casa dos 20 anos. O resto é só uma lenta e dolorosa descida. Exemplo: quando mais jovem, há longínquos 6 anos, a gente praticava esporte a qualquer hora, com qualquer traje, etc. E ainda tirava o sarro dos idosos de trinta anos, que dias após a prática esportiva ainda sentiam na pele (e nos músculos) as consequências atléticas. Hoje, considero que a prática de esportes deva ser banida da humanidade e não jogo nem palitinho sem aquecimento.

O verdadeiro rito de passagem provavelmente seja a compra de um colchão inflável. para acampar. A partir do momento que se assume ter dor nas costas, chegamos a vida adulta e ao início da decadência.

Que fique claro que tudo isso possa ser só pessimismo passageiro, causado por uma combinação explosiva de várias drogas, entre elas cerveja, pinga e músicas do Lulu Santos. Ou mesmo, talvez a depreciação venha desde o nascimento, por existis em várias outras situações. Mas é que chego a lembrar saudosamente de uma época da juventude onde qualquer R$ 100,00 era motivo de viagens aos finais de semana para vários locais paradisíacos como as praias de Ocian, Boqueirão ou Aviação. Lembro que sempre começávamos a viagem tomando Smirnoff e Sprite, ouvindo Zeca Baleiro, rindo de situações corriqueiras e dormindo em colchões ortopédicos. Mas como o dinheiro era curto e a loucura grande, dias depois, com o indice de depreciação na carteira, estávamos tomando Dolly Limão com Vodca Balalaika ouvindo Bruno e Marrone, chorando nossas amarguras e dormindo na privada.

E lembrando de tudo isso, ainda acho que aquele tempo era melhor que hoje.

Uma vez recebi um email que falava sobre como até na música, tudo tinha uma tendência pra piorar. Não era bem esse o tema, era mais sobre como pra cada acidente, morte e desgraça que ocorre com algum artista de qualidade (por exemplo, Herbert Vianna, Chico Science, Renato Russo) uma infinidade de coisas boas acontecem aos pagodeiros e outros “músicos” (Belo escolhendo entre a Gracianne Barbosa e Viviane Araujo, Daniel fazendo novela e por aí vai). Até os Los Hermanos estão de férias indeterminadas hoje em dia.

E enquanto isso, nas paradas de sucesso de todo o Brasil estão várias músicas da grande banda Deja vu. Essa banda, com seu estilo inigualável e sua vocalista de voz excêntrica, conquistou o coração de todos aqueles que alguma vez já frequentou algum bordel, foi ao Patativa, Centro de Tradições Nordestinas, etc. E se você não fez nada disso mas já dormiu na rua, assistiu pornanchanchada ou já sentiu uma pulsação estranha em dias de lua cheia, esse também é o seu som.

Lembro-me que jurei nunca ir a um dos lugares que tocavam e nunca dançar ao som dessas músicas demoníacas.

E acho interessante como as pessoas são parecidas. Na última festa que fui, escutei um garoto de uns 15 anos dizer a mesma coisa, jurar do mesmo modo que jurei a anos atrás. Foi quase um Deja Vu!

Mas a bem da verdade é que era Deja Vu mesmo, rolando a toda altura, enquanto eu me engalfinhava como uma dona chamando-a de “princesa” e “coração”. Eu tinha me embebedado com cerveja Bavaria quente, sabe como é né... Resultado: dormi na rua.

Decadência, decadência...

Obs.: este é um texto fictício, qualquer semelhança com qualquer coisa que o autor tenha feito é mera coincidência. Ou seja, eu não dormi na rua...Nem tomei Bavaria... ainda.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Timing

Luiz chega a sua casa depois da bebedeira. É sábado à noite. É uma da madrugada. Temendo a ressaca iminente toma um Engov e o gosto amargo do santo remédio o faz ter vontade de vomitar. Seus vômitos são experiências transcendentais, ele bem sabe. Por várias vezes, só continuou vivo porque ele seguiu conselhos e não correu para a luz. Voltou para a escuridão nas experiências quase morte, continuou vivo em seu banheiro, mas acredita que só está ainda nesse mundo porque tinha alguém pra segurar sua cabeça. Ah! Esqueci de mencionar, Luiz está sozinho. Mais do que sozinho momentaneamente, Luiz se sente sozinho em toda a sua existência, estado piorado pelo alto teor de álcool em seu sangue. Decide dormir, afinal não tinha mais o que fazer, sem contar que a bebedeira o fará dormir tranquilamente, sem ficar revirando-se na cama como têm feito nas noites passadas.


Enquanto se aconchega no seu colchão ralo, tentando uma posição que no eventual vômito involuntário não provoque um sufocamento, Luiz recebe uma ligação. A música ridícula de seu telefone chama sua atenção para o visor, que brilha no quarto escuro, e que indica que Cássia, um antigo rolo queria falar com ele. Ele atende o telefone, com voz enrolada e pastosa:


-Alô, Cássia?


-Oi Gatinho! Onde você ta? – Luiz estranha a voz enrolada e pastosa de Cássia, mas acredita que talvez sua audição é que tenha ficado cremosa demais, talvez por um cérebro derretido com o Etanol.


- Oi, estou em casa. Como você tá? Tudo bem?


- Tudo bem sim. Mas você sabe como eu realmente estou? Estou nua, doidinha pra te ver, gostoso. Vem aqui em casa, que eu to louca de tesão por você!


Luiz sente como se tivessem injetado glicose em seu sangue. Como um milagre, levanta-se da cama, sentando em sua beirada e após duas gaguejadas, responde com uma voz firme e interrogativa:


-O quê que deu em você? Ficou com vontade de me ver do nada?


-Não interessa. Eu quero te ver! Vai me deixar aqui desse jeito, seu cachorro – Ela fala com voz extremamente sensual.


Luiz pensa como a sorte lhe sorriu. Mas estava bêbado de mais para dirigir até a casa de Cássia, podia também acabar ser pego pela PM. Ele diz no telefone:


-Claro que eu vou te ver, mas hoje não dá. Mas amanhã sem falta eu vou te ver. Pode ser?


- Tá bom, você vai me deixar sozinha hoje, mas amanhã você vai ser meu.


A conversa se desenvolve um pouco mais, até que desligam. Luiz está agora um bêbado radiante.


No dia seguinte, porém, ao chegar na casa de Cássia, a moça parece nem lembrar do que havia sido combinado na noite passada. Encontra Luiz de pijamas em plena 20h00 e após ser cientificada do que trazia Luiz até sua casa, ela responde sem graça:


- Vixe, ontem eu estava muito bêbada. Deixa isso pra lá.


Embora Luiz insista, Cássia é irredutível e não sai com ele.


Após culpar até Deus pela situação inusitada, Luiz decide ir pra casa e aproveitar seu ralo, porém confiável, colchão.


Uma semana depois, sem estar bêbado dessa vez, Luiz recebe outra ligação de Cássia,também em horário bandeira 2. Cássia, mais uma vez levemente embriagada, tenta convencer Luiz a ir até sua casa na hora. Mas o carro de Luiz está no conserto e ele argumenta com Cássia sobre sua ida de ônibus, num primeiro horário no dia seguinte. Também afirma que a mesma deveria anotar tudo que estava dizendo, pra não esquecer na primeira ressaca. Cássia concorda com todas as claúsulas.


Mais uma vez, no dia seguinte, agora às 15h00, Cássia afirma não se lembrar de nada. E adverte:


- A partir de hoje não leve mais a sério o que eu falo bêbada. São pensamentos e vontades efêmeros, que passam na primeira visão de sobriedade.


O que Luiz aprendeu nessa questão? Mais ainda, o que essa história tem a ver com você, Leitor(a) que me acompanhou até agora. Na verdade, pouco ou nada. Mas uma coisa ela tem de importante: Tudo tem alguma duração.


Como a inscrição para uma prova, um curso ou qualquer outra coisa, vários aspectos da vida têm prazo certo. Uma vez que você não exerceu seu direito no tempo estipulado desista. Não tem mais jeito.


O Direito Penal tem uma categoria especial que demonstra esta teoria: o prazo decadencial. O lance é mais ou menos o seguinte: alguns crimes por sua natureza transitória são condicionados à representação (o processo só corre pela vontade da vítima), que por sua vez tem um prazo de 6 meses para ser exercida. Decorrido o prazo, adeus processo. Por isso, para não tornar esse exemplo no mais inútil do mundo, caso você seja barraqueiro o bastante e planeje processar alguém por ameaça, lesão corporal, injúria, calunia, preste atenção nos prazos.


O lance dos prazos também está presente em outras questões das relações humanas. É como um namoro que terminou que aproximadamente tem dois meses para ser reatado. Passado este tempo, provavelmente a coisa esfriou e o reatar pode significar danos irreversíveis de alguma das partes. Mesmo a ligação que se faz bêbado ao término de qualquer relacionamento tem um mês contado para ocorrer. Se este prazo se esgotar, o “volta pra mim” ganha conotações tão humilhantes e pedantes, que nunca vai ser respondido com um “sim”, mesmo que as partes sejam almas gêmeas.


Um feliz aniversário atrasado só até uma semana depois da data correta, por favor!


Pra quem depende de transporte público: existem vários aspectos importantes da Filosofia e Psicologia levantados quando se corre atrás do ônibus! Afinal, perder o seu horário de passar é perder qualquer chance de pegá-lo. O que nos resta, pobres envoltos no Rodo Cotidiano: praguejar e reclamar, sem nenhum alvo especifico.


Por isso, nada como o Timing perfeito. Fazer aquilo que deve ser feito, no momento certo e do jeito certo. A exemplo de Luiz, meu amigo imaginário, que nesta noite abasteceu seu carro, tomou banho, colocou sua melhor roupa, calçou um sapato, se perfumou, etc. Não, ele não vai sair. Vai dormir. É que ele não quer perder mais nenhuma chance e afinal ligações tardias e os desejos são quase sempre imprevisíveis.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Contatos mediados e imediatos

Ana está entediada, jogando paciência em seu computador enquanto suas unhas dos pés secam após ter passado um novo esmalte rosa. Pensa sobre amenidades e sobre coisas importantíssimas, simultaneamente, tendo para cada início de pensamento um desfecho melodramático e depressivo. Pensa no seu ex, no teto de seu quarto que está mofando, na sua carreira como aeromoça, se deveria jantar agora ou mais tarde... Definitivamente, a única conclusão a que ela chega é que está entediada. A sua meditação só é interrompida por uma mensagem recebida no celular, onde o remetente, um número estranho com prefixo 86, afirma ser do SBT e que Ana tinha sido contemplada com um prêmio. Após ligar para o número que solicitaram, Ana vem a saber que havia ganhado uma casa e um carro 0 km, os quais receberia tão logo fizesse a compra de alguns cartões de recarga para celular e passasse esses números ao atendente.
Ana não pode esconder a empolgação, tanto que se esquece de suas unhas pintadas, coloca um tênis e corre para a lotérica mais próxima. No caminho, pensa como dessa vez ela faz parte de algo, como talvez toda a tristeza que sentia tenha sido um crédito com Deus, que agora lhe dera uma casa. Ela sente algo que não sentia há tempos, essa mistura de felicidade e excitação que acredita ter havido no início do namoro com o “Ex”, mas que tinha se perdido no meio do caminho. Talvez agora com essa casa e esse carro ela seja capaz de superar o que ocorrera e partir pra outra. Quiçá tripudiar de seu “ex” passando em frente à sua casa com seu novo carro e um novo paquera. Ana se sente excitada.
Acontece que após passar os números de recarga Ana descobre que tudo se tratava de um golpe e o atendente e o remetente da mensagem estava baseado em algum presídio Piauiense.

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César está carente, assistindo Zorra Total no sábado à noite, após ter comido pizza em excesso com seus pais. Fica sentado, esparramado, com o controle-remoto nas mãos, pensando sobre como precisa assinar uma TV a cabo ou arrumar uma namorada. Pensa, como sempre, em uma gatinha que tem paquerado mas que parece não querê-lo. Será que valeria a pena ligar pra ela? Ou é melhor se fingir forte e resistir? Definitivamente, a única coisa que ele sabe é estar carente. Sua auto-lamentação é interrompida com a vibração do celular. Uma mensagem! César sente um aperto no coração que se torna mais forte quando vê o remetente: é ela! Põe-se a ler a mensagem, que em tons libidinosos revela aquilo que César sonhava: ela o quer. Ela o quer maliciosamente.
César estranha levemente o conteúdo da mensagem, mas sente um misto de espanto e felicidade. Uma combinação de sentimentos que o remete a um episódio de sua infância, quando ganhou uma bicicleta nova de seu pai sem mais nem menos, um presente fora de época. É essa alegria que sente agora, decidindo levantar-se daquele sofá e caçar o que fazer. Não responderá nenhuma mensagem hoje, promete a si mesmo, e por isso decidi ir estudar pro concurso que vai prestar em breve. É hora de pensar no futuro, diz ele. Acaba estudando por duas horas e logo depois vai dormir, com um sorriso no rosto. César se sente completo.
No dia seguinte, responde a mensagem recebendo em seguida a resposta, onde a moça pedia desculpas pelo escrito no dia anterior, foi tudo uma questão de erro na escolha do destinatário. Era tudo um engano.

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Carlos está triste, navegando em páginas da internet enquanto faz seu login no MSN. Seu time perde há cinco rodadas, sua mulher o deixou e seu emprego cobra muito e paga pouco. Enquanto procura algo para distraí-lo, espera ansiosamente encontrar alguém on-line para desabafar. Não encontra ninguém, o que aumenta a sua amargura.
Carlos se lamenta, praguejando contra a vida e Deus, quando se surpreende com uma mensagem instantânea de Lucas, seu amigo, mandando-o clicar em um link para ver algumas fotos. Carlos recusa-se a clicar no link, dizendo que na verdade precisava desabafar, passando a escrever desenfreadamente sobre suas situações complicadas na vida financeira, esportiva e, principalmente, amorosa. Toda a conversa se assemelha a um monólogo, que acaba minutos depois, quando Carlos já se sente bem o bastante para agradecer Lucas por tê-lo ouvido e ir embora. Decide que não vale a pena sentir pena de si mesmo. Despede-se de Lucas, fecha seu MSN, e se põe a pensar em coisas boas que tem em sua vida, como sua saúde, família e amigos, que como Lucas, podia contar sempre. Carlos se sente feliz.
Uma coisa que Carlos não sabe é que Lucas não estava no MSN naquela noite. Encontrava-se a dezenas de metros de um computador, em uma piscina, numa festa temática havaiana. A mensagem on-line mandada a Carlos não passava de um vírus, o qual ele não clicou por achar-se depressivo demais para ver fotos de mulheres nuas.

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Três histórias fictícias? Ou não? Até que ponto somos já fomos um pouco Ana, César ou Carlos e ficamos esperando sinais pra mudar a nossa vida como sabemos que precisamos.?Será que realmente tem algo a ver ganhar uma casa pra superar aquele fim de relacionamento? Ou supostamente ganhar uma gatinha e estudar praquele concurso? Ainda, uma vez que tudo pode ser ilusão e pulsos eletrônicos traduzidos em palavras podem revelar mensagens tão ocas e falsas é mesmo de bom grado basear decisões importantes nessas coisas?
Muitas vezes os sinais só revelam aquilo que já sabemos e talvez, sem eles, saibamos que seja hora de superar aquele término, estudar para aquele concurso ou ter um pouco de auto-estima. Mas se ainda assim precisarmos de algum empurrão ou sinal, uma boa olhada no espelho pode ser mais eficaz que uma bela mensagem de amor.