Imagine a seguinte situação: um grupo de crianças é escolhido para um teste. Cada criança por sua vez, receberá um marshmellow e ficará na sala por 15 minutos. No início, um adulto responsável pelo teste propõe o seguinte trato: as crianças que não comerem o marshmellow naqueles 15 minutos, receberão outro. Aquelas que não se aguentarem, podem comer o marshmellow, mas será o único que receberão.
Bem, pode-se imaginar o que ocorreu: algumas crianças comeram o marshmellow na primeira chance, outras crianças não comeram e receberam o segundo, algumas apenas lamberam, afinal lamber não estava no trato, outras comeram o recheio e fecharam o marshmellow novamente, mostrando um brilhante futuro como falsários, etc. Aproximadamente 15 anos depois, as mesmas crianças do teste foram procuradas pelos pesquisadores demonstrando o seguinte diagnóstico: as crianças que não comeram o marshmellow acabaram por ter os melhores empregos e estudado nas melhores universidades, sendo então chamadas de “bem sucedidas” ao passo que as que comeram o doce acabaram por não obter tanto “sucesso” na vida.
A situação narrada faz parte de um vídeo motivacional usado em vários cursos empresariais. Segundo apurado, o que tentava-se demonstrar era o conceito de maturidade, que segundo alguma definição é a capacidade de abrir mão de um benefício imediato frente a um benefício maior posterior.
Até aí, sabemos como num ambiente empresarial a questão do abrir mão de um beneficio imediato tem bastante efeito, principalmente quando seu salário tá um droga, estão te fazendo trabalhar nos fins de semana, cobrando um curso de pós-graduação nas noites de sexta e um curso de inglês avançado no sabadão. É bastante claro que a retórica é muito útil para os patrões, principalmente nos momentos em que as contas mensais são tão avassaladoras que decide-se pedir ou cobrar um aumento já prometido.
O que me ponho a pensar é o quanto que abrir mão de algo no agora significa diretamente um benefício posterior. Será que esse futuro benefício é mensurável? Ou mesmo, se ele realmente ocorrer, até que ponto isso é interessante? Os marshmellows e as várias coisas que acabamos acumulando na vida tem valores intrínsecos? Na minha visão um marshmellow só tem valor uma vez que for comido e o dinheiro, geralmente o que as crianças crescidas escolheram para guardar, só tem valor quando gasto. Por isso me pergunto, até que ponto vale a pena a acumulação?
Não se trata aqui de propor uma visão de mundo epicurista, onde o prazer, em todas as suas conotações, deva ser perseguido o tempo todo. Sei como é importante ser previdente e que várias coisas importantes na vida são conseguidas com uma certa dose de abnegação. Acontece que até quando essa abnegação não vira uma obsessão pelo suposto prazer posterior, pelo bem vindouro, pela vida feliz que terá lugar no porvir? Quando foi que viver, já desde crianças, virou uma atividade de investimento?
Algo muito estranho está ocorrendo. Comer um doce, fazer amizades, estudar, namorar e se apaixonar viraram investimento, onde o que se coloca de si depende invariavelmente do risco e do retorno envolvido. Ao pensar em algo, nos perguntamos o quanto vale a pena. Tudo é contado e contabilizado, ao ponto de que não poucas vezes ouvi de algumas pessoas as previsões de se apaixonar e se casar em alguns anos sem mesmo ter um namorado ou namorada.
Será que essa mudança de perspectiva ajudou naquilo que todos humanos se assemelham, a busca pela felicidade?
Acredito que não. A geração das crianças marshmellows criou adultos bastante perturbados. Temos uma massa de jovens adultos, na casa dos seus 25 anos, com uma leve e crônica depressão, vivendo em meio a problemas familiares e desilusões amorosas. Mais especificamente, esperando viver. Isto porque são esses mesmos jovens, que em grande maioria são pós-graduados ou estão na sua segunda ou terceira graduação, que ocupam todo o seu tempo com a atividades supostamente benéficas para o futuro e para a vida vindoura. Pra essa geração, nossa geração, a vida é um lugar a se chegar, as custas do sacrifício no presente. A vida é um destino em uma viagem, assim como a Paságarda narrada pelo Manuel Bandeira.
A meu ver, esse tipo de atitude não deixa de ser uma forma de fuga. Uma fuga de si mesmo, onde é mais fácil ocupar-se o tempo todo do que encarar-se de frente e entender o que se é e onde se está. É justamente a negação de qualquer maturidade, onde a vida se torna um lugar a ser alcançado hipoteticamente porém nunca efetivamente.
Engraçado como o não-fruir o presente pode ser uma atitude ligada tanto com a afirmação da maturidade quanto com a sua negação. Contraditório, não!?
Em todo caso, penso que talvez viver não seja um destino. Talvez esteja muito mais pra uma jornada. Uma jornada que não tem tempo certo pra se comer ou guardar os marshmellows. Tampouco ficar com aquela pessoa que te desperta sentimentos bons, ou ler aquele livro que você tem vontade, fazer aquela viagem turística que se sonha. Uma jornada que no final representará uma soma de todas essas experiências, boas e ruins e não os lucros advindos do não-viver.
Por isso tudo, talvez não haja sentido em guardar os doces pra posteridade, afinal com o passar do tempo o sabor não fica igual. E se a questão for acumular, doce demais dá dor de barriga, como já dizia mamãe. Mas se guardar o doce pra depois é uma necessidade, por medo de descobrir seu gosto real ou das intempéries que a vida pode apresentar, desencane! E lembre-se que fugir pra frente pode não parecer, mas também é fuga.
He he primo!
ResponderExcluirDe todos esse foi simplesmente o que mais gostei... Muito bom velho!
E eu que pensei que estava conseguindo enganar a todos fugindo pra frente... fazer o que né?
Reforçando: Muito bom !
Às vezes nos preocupamos tanto no que vamos ser ou fazer no futuro que esquecemos de viver e criar a nossa estrada!
ResponderExcluirAdorei o texto!
Muito Bom!
muito interessante Sr. Leite C......
ResponderExcluirdado.
admirável como sempre!!!
ResponderExcluirEi Fabiolous!
ResponderExcluirQue texto pra lá de bom!Trata de uma carapuça costurada na minha cabeça, sob medida.
Concordo sobre a contabilização! Mesmo já tendo um namorado ou namorada, a gente pode se pegar pensando se vale a pena o “investimento” quando no horizonte desponta uma bifurcação: o desconhecido e o (já velho amigo) penar. A questão é: essas elucubrações acerca do futuro definitivamente turvam o agora.
“Pra essa geração, nossa geração, a vida é um lugar a se chegar.”
Precisão cirúrgica, caro doutor. Triste ver que somos pior que a Geração Coca-cola.
“Em todo caso, penso que talvez viver não seja um destino. Talvez esteja muito mais pra uma jornada.”
Essa parte ficou meio Paulo Coelho. Ainda assim, faz todo sentido.
“E lembre-se que fugir pra frente pode não parecer, mas também é fuga.”
E, muito melhor que marshmallows, a última frase é a cereja em cima do bolo!
Meus clap-claps pra vc!
Só mais duas coisas: adoro a psicodelia do layout e apoio um manifesto (caso ele seja lançado) a favor da intransitoriedade do verbo criar ;-)
Beijos!