Trata-se do IV Congresso de Ciência de Borda. Por definição, essa é uma área das ciências que estuda aquilo que ao mesmo tempo é mais esdrúxulo e moderno. Combinando diversas áreas, desde a Metafísica à Sociologia, essa área das ciências é tida como o grande ninho para cientistas malucos e geniais, idéias esquisitas e originais, usuários de drogas sintéticas ou nerds. Talvez por isso, esses congressos sempre despertaram a curiosidade de Jonas. Ele, talvez por possuir algumas idéias malucas e secretas, acabou por ir escondido nesse congresso. Seria motivo de chacota se algum amigo seu viesse a saber de seu interesse, por isso com bastante discrição ele sentou-se na primeira fileira, bem no canto, como se quisesse estabelecer uma rota segura de fuga, coisa tão necessária para tantas coisas na vida.
Mesmo sendo um congresso para poucos, o auditório encontra-se razoavelmente cheio, muito pela figura da próxima explanação, um tal Dr. Herman, também conhecido pela alcunha de Dr. Cuco por suas idéias estranhas e insanas. Trata-se de um congresso para loucos, em grande maioria são eles que povoam o auditório, mas mesmo assim o Dr. Cuco é uma figura considerada "acima da média". Suas idéias têm pouca ou quase nenhuma aceitação, e segundo os fofoqueiros ao lado de Jonas, essa situação só tem piorado, quiçá por uma demência adquirida pelo Dr. Herman ao longo do tempo. Sabe-se de seu passado brilhante, mas esse aspecto perde importância quando o desejo de um grupo, o das aproximadamente de quarenta pessoas que se esparramam pelo auditório, é simplesmente criticar e tirar sarro de alguém, no caso o Dr. Herman, ou Dr. Cuco, como preferem.
Jonas sente-se um pouco nervoso pois está sentado ao lado de dois senhores falantes, que se divertem infantilmente com o apelido do Dr. Herman, seus trejeitos, seu atual descrédito, etc. Pessoas entranhas, pensa Jonas, talvez não tenha sido uma boa idéia ter vindo. Mas Jonas está acuado, sua rota de fuga foi tomada por um cientista obeso com cara de boçal, tornando complicada a sua eventual passagem pelo estreito corredor entre as cadeiras. Jonas começa a pensar sobre outro rota de fuga auxiliar, mas é tarde. Entra no auditório o Dr. Herman.
Dr. Herman é uma figura sui generis. Com um cabelo desgrenhado, um rosto germânico fino, um pequeno bigode, um porte físico magro e um jaleco branco que vai quase até os seus pés, ele parece fazer jus ao apelido que lhe deram. A platéia já contribui com vários sussurros e risos baixos, sem mesmo o doutor dizer uma palavra. Ele chega ao púlpito com vários livros, os coloca em cima do balcão de forma desengonçada e arrumando seus óculos, fala de forma rápida, baixa e sem pausas:
- Bem, hoje eu estou aqui para apresentar minha nova teoria. Nos últimos anos, tenho dedicado meus estudos às questões medicas e metafísicas. Em meio as minhas pesquisas, que se concentraram sobre a questão dos pontos vitais de um ser vivo, pude chegar à conclusão de que os pontos vitais de um ser humano estão concentrados em grande parte nos membros, nas extremidades do corpo. Consegui identificar ao todo sete pontos, tendo sido dois deles no tórax e outros cinco nos membros e na cabeça.
Os “doutores” ao lado de Jonas vão ao delírio com a explanação. Não tentam mais esconder os risos, chegando inclusive a falar em voz alta que o Dr. Cuco havia enlouquecido de vez. A platéia como um todo tem reação parecida, algumas pessoas menos discretas que as outras. Jonas sente-se desconfortável com a situação e se irrita com a falta de respeito para com o palestrante. No entanto, prefere ficar quieto, talvez prestando atenção na explanação do Dr. Herman, os outros se toquem e sigam seu exemplo.
- Os resultados a que cheguei são baseados em grande parte a teorias orientais, onde a questão dos pontos vitais encontra maior importância, como no caso da Acupuntura, por exemplo. Em todo caso, minha pesquisa prenuncia a possível descoberta dos motivos da eventual morte por ferimento à bala em determinada parte do membro, frente à vida em casos de ferimento à bala em membro igual, em local distinto.
A platéia foi à loucura. A questão do exemplo que Jonas queria dar não funcionou. Pelo contrário. Os presentes já não prestam mais atenção na palestra, como se protestassem contra tamanho impropério falado pelo Dr. Herman. Intocável, assim como uma pessoa com problemas psiquiátricos, o Dr. Cuco permanece igual e continua mono tônico e sem pausas:
- O que nos leva a concluir que os pontos vitais localizados nas extremidades têm maior importância do que os localizados no centro. Aquilo que se encontra na ponta, nas extremidades, nos cantos, quase é aquilo que carrega a essência, em termos filosóficos, metafísicos, ocultos e, agora, científicos.
Jonas tem um insight com a ultima frase do Dr. Herman. Lembra-se da noite passada, aquele sábado, em que encontrou com a moça que se encontra apaixonado. Mariana é o seu nome, sendo que as circunstâncias do encontro não eram ideais: foi em meio a uma festa, com música alta, pouca iluminação, homens a azarando e mulheres tirando Jonas pra dançar. Em todo caso, enquanto estava na festa, pouco Jonas conseguiu retirar de Mariana. Apenas os sorrisos de sempre, muitas vezes um pouco amarelos talvez porque a moça não entendia grande coisa que ele falava, em grande parte pelo som alto, em menor parte pelos outros que se intrometiam o tempo todo nos assuntos. Mas uma coisa em particular fez com que Jonas tivesse a certeza das intenções da garota. Foi em meio a uma dança de Jonas com outra garota, coisa de milésimos de segundo: um olhar, de canto de olho, demonstrando que toda afeição e consideração que Jonas nutria pela moça eram recíprocas. Um daqueles olhares que duram pouco, não deve ser percebido, mas quando é acaba por entregar em um segundo o que vêm se escondendo há tempos.
Foi a lembrança desse olhar “de canto de olho” que o fez sorrir de alegria, não no meio dos flashs da festa, mas na sua cama, em sua casa, mais precisamente no canto de seu quarto.
Ele passa a pensar nos sinais do canto, enferrujados, que existiam em sua vida, sempre preteridos frente aqueles sinais em néon, do tipo, “compre”, “case-se”, “viaje”, “corra”, "faça". Refletindo sobre os erros advindos das infinitas vezes que seguiu os tais sinais brilhantes, Jonas começa a pensar sobre os eventuais destinos que os sinais enferrujados, tais como as placas que indicam as direções em uma rodovia, podiam levar. Será que se ele tivesse seguido a placa escondida do "perdõe", ao invés da rosa púrpura "brigue" ele teria se afastado de tantos amigos? Ou mesmo, a placa do "pense" ao invés do "compre" provavelmente o faria ter espaço em seu quarto, tomado por bugigangas que ele nunca usou ou usará.
Na parapsicologia, não é a visão periférica a responsável por captar toda uma série de fenômenos, como as aparições de fantasmas? Ou em meio aos ruídos da estática televisiva o contato com os mortos?
Jonas se lembra da sua sala de aula, quando uma parte dos alunos vivia buscando o holofote, enquanto outros preferiam o anonimato e sombra. Lembra de ter contabilizado e descoberto que a grande parte daquelas estrelas virou adultos fracassados, enquanto os que ficavam nos cantos, nas sombras, tiveram um fim diferente e mais feliz.
"Deus está nos detalhes", pensou Jonas, jurando ter lido essa frase em algum lugar.
Enquanto se perdia pensando sentado em sua cadeira, a palestra do Dr. Herman terminava. Os ouvintes aproveitaram para sarcasticamente bater palmas para Herman, gritando "Dr. Cuco gênio", na intenção de humilhá-lo. Claramente conseguiram. O esguio Herman prepara-se para sair do púlpito quando de repente, vira seu rosto para Jonas e com satisfação dá um leve sorriso. Jonas, da mesma forma instantânea olha para o Doutor e retribui o olhar, agradecidamente, revelando ter entendido o que o Doutor queria dizer. Ainda mais, mostrando com um breve olhar, quase de canto de olho por estar no final da primeira fila, que concorda e compactua com as idéias do Dr. Herman ou Dr. Cuco, que importa.
Doutor Herman saiu do auditório com sorriso no canto da boca, com grande satisfação. Nunca foi sua intenção fazer com que todos da palestra entendessem o que ele propunha e teorizava. Talvez, todos estavam centrais demais, tendo reações pouco pessoais quando o holofote está em cima de si. Não, Dr. Herman sabia que o seu trabalho não seria compreendido por todos. Mas ficou feliz em saber que ao menos uma pessoa, aquela que estava no canto e prestou atenção no que ele disse e achou tudo interessante.
"Deus está nos detalhes", pensou Doutor Herman.
Mesmo sendo um congresso para poucos, o auditório encontra-se razoavelmente cheio, muito pela figura da próxima explanação, um tal Dr. Herman, também conhecido pela alcunha de Dr. Cuco por suas idéias estranhas e insanas. Trata-se de um congresso para loucos, em grande maioria são eles que povoam o auditório, mas mesmo assim o Dr. Cuco é uma figura considerada "acima da média". Suas idéias têm pouca ou quase nenhuma aceitação, e segundo os fofoqueiros ao lado de Jonas, essa situação só tem piorado, quiçá por uma demência adquirida pelo Dr. Herman ao longo do tempo. Sabe-se de seu passado brilhante, mas esse aspecto perde importância quando o desejo de um grupo, o das aproximadamente de quarenta pessoas que se esparramam pelo auditório, é simplesmente criticar e tirar sarro de alguém, no caso o Dr. Herman, ou Dr. Cuco, como preferem.
Jonas sente-se um pouco nervoso pois está sentado ao lado de dois senhores falantes, que se divertem infantilmente com o apelido do Dr. Herman, seus trejeitos, seu atual descrédito, etc. Pessoas entranhas, pensa Jonas, talvez não tenha sido uma boa idéia ter vindo. Mas Jonas está acuado, sua rota de fuga foi tomada por um cientista obeso com cara de boçal, tornando complicada a sua eventual passagem pelo estreito corredor entre as cadeiras. Jonas começa a pensar sobre outro rota de fuga auxiliar, mas é tarde. Entra no auditório o Dr. Herman.
Dr. Herman é uma figura sui generis. Com um cabelo desgrenhado, um rosto germânico fino, um pequeno bigode, um porte físico magro e um jaleco branco que vai quase até os seus pés, ele parece fazer jus ao apelido que lhe deram. A platéia já contribui com vários sussurros e risos baixos, sem mesmo o doutor dizer uma palavra. Ele chega ao púlpito com vários livros, os coloca em cima do balcão de forma desengonçada e arrumando seus óculos, fala de forma rápida, baixa e sem pausas:
- Bem, hoje eu estou aqui para apresentar minha nova teoria. Nos últimos anos, tenho dedicado meus estudos às questões medicas e metafísicas. Em meio as minhas pesquisas, que se concentraram sobre a questão dos pontos vitais de um ser vivo, pude chegar à conclusão de que os pontos vitais de um ser humano estão concentrados em grande parte nos membros, nas extremidades do corpo. Consegui identificar ao todo sete pontos, tendo sido dois deles no tórax e outros cinco nos membros e na cabeça.
Os “doutores” ao lado de Jonas vão ao delírio com a explanação. Não tentam mais esconder os risos, chegando inclusive a falar em voz alta que o Dr. Cuco havia enlouquecido de vez. A platéia como um todo tem reação parecida, algumas pessoas menos discretas que as outras. Jonas sente-se desconfortável com a situação e se irrita com a falta de respeito para com o palestrante. No entanto, prefere ficar quieto, talvez prestando atenção na explanação do Dr. Herman, os outros se toquem e sigam seu exemplo.
- Os resultados a que cheguei são baseados em grande parte a teorias orientais, onde a questão dos pontos vitais encontra maior importância, como no caso da Acupuntura, por exemplo. Em todo caso, minha pesquisa prenuncia a possível descoberta dos motivos da eventual morte por ferimento à bala em determinada parte do membro, frente à vida em casos de ferimento à bala em membro igual, em local distinto.
A platéia foi à loucura. A questão do exemplo que Jonas queria dar não funcionou. Pelo contrário. Os presentes já não prestam mais atenção na palestra, como se protestassem contra tamanho impropério falado pelo Dr. Herman. Intocável, assim como uma pessoa com problemas psiquiátricos, o Dr. Cuco permanece igual e continua mono tônico e sem pausas:
- O que nos leva a concluir que os pontos vitais localizados nas extremidades têm maior importância do que os localizados no centro. Aquilo que se encontra na ponta, nas extremidades, nos cantos, quase é aquilo que carrega a essência, em termos filosóficos, metafísicos, ocultos e, agora, científicos.
Jonas tem um insight com a ultima frase do Dr. Herman. Lembra-se da noite passada, aquele sábado, em que encontrou com a moça que se encontra apaixonado. Mariana é o seu nome, sendo que as circunstâncias do encontro não eram ideais: foi em meio a uma festa, com música alta, pouca iluminação, homens a azarando e mulheres tirando Jonas pra dançar. Em todo caso, enquanto estava na festa, pouco Jonas conseguiu retirar de Mariana. Apenas os sorrisos de sempre, muitas vezes um pouco amarelos talvez porque a moça não entendia grande coisa que ele falava, em grande parte pelo som alto, em menor parte pelos outros que se intrometiam o tempo todo nos assuntos. Mas uma coisa em particular fez com que Jonas tivesse a certeza das intenções da garota. Foi em meio a uma dança de Jonas com outra garota, coisa de milésimos de segundo: um olhar, de canto de olho, demonstrando que toda afeição e consideração que Jonas nutria pela moça eram recíprocas. Um daqueles olhares que duram pouco, não deve ser percebido, mas quando é acaba por entregar em um segundo o que vêm se escondendo há tempos.
Foi a lembrança desse olhar “de canto de olho” que o fez sorrir de alegria, não no meio dos flashs da festa, mas na sua cama, em sua casa, mais precisamente no canto de seu quarto.
Ele passa a pensar nos sinais do canto, enferrujados, que existiam em sua vida, sempre preteridos frente aqueles sinais em néon, do tipo, “compre”, “case-se”, “viaje”, “corra”, "faça". Refletindo sobre os erros advindos das infinitas vezes que seguiu os tais sinais brilhantes, Jonas começa a pensar sobre os eventuais destinos que os sinais enferrujados, tais como as placas que indicam as direções em uma rodovia, podiam levar. Será que se ele tivesse seguido a placa escondida do "perdõe", ao invés da rosa púrpura "brigue" ele teria se afastado de tantos amigos? Ou mesmo, a placa do "pense" ao invés do "compre" provavelmente o faria ter espaço em seu quarto, tomado por bugigangas que ele nunca usou ou usará.
Na parapsicologia, não é a visão periférica a responsável por captar toda uma série de fenômenos, como as aparições de fantasmas? Ou em meio aos ruídos da estática televisiva o contato com os mortos?
Jonas se lembra da sua sala de aula, quando uma parte dos alunos vivia buscando o holofote, enquanto outros preferiam o anonimato e sombra. Lembra de ter contabilizado e descoberto que a grande parte daquelas estrelas virou adultos fracassados, enquanto os que ficavam nos cantos, nas sombras, tiveram um fim diferente e mais feliz.
"Deus está nos detalhes", pensou Jonas, jurando ter lido essa frase em algum lugar.
Enquanto se perdia pensando sentado em sua cadeira, a palestra do Dr. Herman terminava. Os ouvintes aproveitaram para sarcasticamente bater palmas para Herman, gritando "Dr. Cuco gênio", na intenção de humilhá-lo. Claramente conseguiram. O esguio Herman prepara-se para sair do púlpito quando de repente, vira seu rosto para Jonas e com satisfação dá um leve sorriso. Jonas, da mesma forma instantânea olha para o Doutor e retribui o olhar, agradecidamente, revelando ter entendido o que o Doutor queria dizer. Ainda mais, mostrando com um breve olhar, quase de canto de olho por estar no final da primeira fila, que concorda e compactua com as idéias do Dr. Herman ou Dr. Cuco, que importa.
Doutor Herman saiu do auditório com sorriso no canto da boca, com grande satisfação. Nunca foi sua intenção fazer com que todos da palestra entendessem o que ele propunha e teorizava. Talvez, todos estavam centrais demais, tendo reações pouco pessoais quando o holofote está em cima de si. Não, Dr. Herman sabia que o seu trabalho não seria compreendido por todos. Mas ficou feliz em saber que ao menos uma pessoa, aquela que estava no canto e prestou atenção no que ele disse e achou tudo interessante.
"Deus está nos detalhes", pensou Doutor Herman.
"O essencial é invisível aos olhos" - Foi o que me veio em mente...
ResponderExcluirGoste do conto!
Bjs
;)