quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Mea culpa

Bem pessoal, esse blog foi criado pra publicar textos meus, que como pode-se deduzir vendo-se a minha descrição, não sou uma pessoa lá muito regular. Por isso, tenho me policiado para publicar um texto ao menos uma vez por semana, nos dias de quarta-feira. Tudo por questões místicas e cabalisticas, embora eu não saiba apontar nenhuma.
Além disso, o texto que publiquei hoje é um conto, pelo menos acho eu acho que podemos chamá-lo disso. Tenho grande dificuldade em escrever esse tipo de texto. Por isso, peço um desconto e quero que saibam que pelo menos em um aspecto eu sou igual ao Luis Fernando Veríssimo: eu li na Capricho dessa semana que nós dois temos 85 kg, ou seja o mesmo peso!
Sobre bons contos, gostaria de recomendar um blog de um grande amigo meu, que é cinza, mas também revela algumas cores belas como azul-turquesa ou amarelo-canário: http://bluesliterario.wordpress.com/
E por último e muito mais importante, gostaria de agradecer a todos que lêem as eloucubrações desse blog! E deixar claro que se as vezes não retribuo a altura e sou relapso é que em certa medida eu sou parecido com o Einstein: ele é gênio e eu não, mas nascemos no mesmo dia do ano!
Grande abraços a todos!

Herman

Trata-se do IV Congresso de Ciência de Borda. Por definição, essa é uma área das ciências que estuda aquilo que ao mesmo tempo é mais esdrúxulo e moderno. Combinando diversas áreas, desde a Metafísica à Sociologia, essa área das ciências é tida como o grande ninho para cientistas malucos e geniais, idéias esquisitas e originais, usuários de drogas sintéticas ou nerds. Talvez por isso, esses congressos sempre despertaram a curiosidade de Jonas. Ele, talvez por possuir algumas idéias malucas e secretas, acabou por ir escondido nesse congresso. Seria motivo de chacota se algum amigo seu viesse a saber de seu interesse, por isso com bastante discrição ele sentou-se na primeira fileira, bem no canto, como se quisesse estabelecer uma rota segura de fuga, coisa tão necessária para tantas coisas na vida.

Mesmo sendo um congresso para poucos, o auditório encontra-se razoavelmente cheio, muito pela figura da próxima explanação, um tal Dr. Herman, também conhecido pela alcunha de Dr. Cuco por suas idéias estranhas e insanas. Trata-se de um congresso para loucos, em grande maioria são eles que povoam o auditório, mas mesmo assim o Dr. Cuco é uma figura considerada "acima da média". Suas idéias têm pouca ou quase nenhuma aceitação, e segundo os fofoqueiros ao lado de Jonas, essa situação só tem piorado, quiçá por uma demência adquirida pelo Dr. Herman ao longo do tempo. Sabe-se de seu passado brilhante, mas esse aspecto perde importância quando o desejo de um grupo, o das aproximadamente de quarenta pessoas que se esparramam pelo auditório, é simplesmente criticar e tirar sarro de alguém, no caso o Dr. Herman, ou Dr. Cuco, como preferem.

Jonas sente-se um pouco nervoso pois está sentado ao lado de dois senhores falantes, que se divertem infantilmente com o apelido do Dr. Herman, seus trejeitos, seu atual descrédito, etc. Pessoas entranhas, pensa Jonas, talvez não tenha sido uma boa idéia ter vindo. Mas Jonas está acuado, sua rota de fuga foi tomada por um cientista obeso com cara de boçal, tornando complicada a sua eventual passagem pelo estreito corredor entre as cadeiras. Jonas começa a pensar sobre outro rota de fuga auxiliar, mas é tarde. Entra no auditório o Dr. Herman.

Dr. Herman é uma figura sui generis. Com um cabelo desgrenhado, um rosto germânico fino, um pequeno bigode, um porte físico magro e um jaleco branco que vai quase até os seus pés, ele parece fazer jus ao apelido que lhe deram. A platéia já contribui com vários sussurros e risos baixos, sem mesmo o doutor dizer uma palavra. Ele chega ao púlpito com vários livros, os coloca em cima do balcão de forma desengonçada e arrumando seus óculos, fala de forma rápida, baixa e sem pausas:

- Bem, hoje eu estou aqui para apresentar minha nova teoria. Nos últimos anos, tenho dedicado meus estudos às questões medicas e metafísicas. Em meio as minhas pesquisas, que se concentraram sobre a questão dos pontos vitais de um ser vivo, pude chegar à conclusão de que os pontos vitais de um ser humano estão concentrados em grande parte nos membros, nas extremidades do corpo. Consegui identificar ao todo sete pontos, tendo sido dois deles no tórax e outros cinco nos membros e na cabeça.

Os “doutores” ao lado de Jonas vão ao delírio com a explanação. Não tentam mais esconder os risos, chegando inclusive a falar em voz alta que o Dr. Cuco havia enlouquecido de vez. A platéia como um todo tem reação parecida, algumas pessoas menos discretas que as outras. Jonas sente-se desconfortável com a situação e se irrita com a falta de respeito para com o palestrante. No entanto, prefere ficar quieto, talvez prestando atenção na explanação do Dr. Herman, os outros se toquem e sigam seu exemplo.

- Os resultados a que cheguei são baseados em grande parte a teorias orientais, onde a questão dos pontos vitais encontra maior importância, como no caso da Acupuntura, por exemplo. Em todo caso, minha pesquisa prenuncia a possível descoberta dos motivos da eventual morte por ferimento à bala em determinada parte do membro, frente à vida em casos de ferimento à bala em membro igual, em local distinto.

A platéia foi à loucura. A questão do exemplo que Jonas queria dar não funcionou. Pelo contrário. Os presentes já não prestam mais atenção na palestra, como se protestassem contra tamanho impropério falado pelo Dr. Herman. Intocável, assim como uma pessoa com problemas psiquiátricos, o Dr. Cuco permanece igual e continua mono tônico e sem pausas:

- O que nos leva a concluir que os pontos vitais localizados nas extremidades têm maior importância do que os localizados no centro. Aquilo que se encontra na ponta, nas extremidades, nos cantos, quase é aquilo que carrega a essência, em termos filosóficos, metafísicos, ocultos e, agora, científicos.

Jonas tem um insight com a ultima frase do Dr. Herman. Lembra-se da noite passada, aquele sábado, em que encontrou com a moça que se encontra apaixonado. Mariana é o seu nome, sendo que as circunstâncias do encontro não eram ideais: foi em meio a uma festa, com música alta, pouca iluminação, homens a azarando e mulheres tirando Jonas pra dançar. Em todo caso, enquanto estava na festa, pouco Jonas conseguiu retirar de Mariana. Apenas os sorrisos de sempre, muitas vezes um pouco amarelos talvez porque a moça não entendia grande coisa que ele falava, em grande parte pelo som alto, em menor parte pelos outros que se intrometiam o tempo todo nos assuntos. Mas uma coisa em particular fez com que Jonas tivesse a certeza das intenções da garota. Foi em meio a uma dança de Jonas com outra garota, coisa de milésimos de segundo: um olhar, de canto de olho, demonstrando que toda afeição e consideração que Jonas nutria pela moça eram recíprocas. Um daqueles olhares que duram pouco, não deve ser percebido, mas quando é acaba por entregar em um segundo o que vêm se escondendo há tempos.

Foi a lembrança desse olhar “de canto de olho” que o fez sorrir de alegria, não no meio dos flashs da festa, mas na sua cama, em sua casa, mais precisamente no canto de seu quarto.

Ele passa a pensar nos sinais do canto, enferrujados, que existiam em sua vida, sempre preteridos frente aqueles sinais em néon, do tipo, “compre”, “case-se”, “viaje”, “corra”, "faça". Refletindo sobre os erros advindos das infinitas vezes que seguiu os tais sinais brilhantes, Jonas começa a pensar sobre os eventuais destinos que os sinais enferrujados, tais como as placas que indicam as direções em uma rodovia, podiam levar. Será que se ele tivesse seguido a placa escondida do "perdõe", ao invés da rosa púrpura "brigue" ele teria se afastado de tantos amigos? Ou mesmo, a placa do "pense" ao invés do "compre" provavelmente o faria ter espaço em seu quarto, tomado por bugigangas que ele nunca usou ou usará.

Na parapsicologia, não é a visão periférica a responsável por captar toda uma série de fenômenos, como as aparições de fantasmas? Ou em meio aos ruídos da estática televisiva o contato com os mortos?

Jonas se lembra da sua sala de aula, quando uma parte dos alunos vivia buscando o holofote, enquanto outros preferiam o anonimato e sombra. Lembra de ter contabilizado e descoberto que a grande parte daquelas estrelas virou adultos fracassados, enquanto os que ficavam nos cantos, nas sombras, tiveram um fim diferente e mais feliz.

"Deus está nos detalhes", pensou Jonas, jurando ter lido essa frase em algum lugar.

Enquanto se perdia pensando sentado em sua cadeira, a palestra do Dr. Herman terminava. Os ouvintes aproveitaram para sarcasticamente bater palmas para Herman, gritando "Dr. Cuco gênio", na intenção de humilhá-lo. Claramente conseguiram. O esguio Herman prepara-se para sair do púlpito quando de repente, vira seu rosto para Jonas e com satisfação dá um leve sorriso. Jonas, da mesma forma instantânea olha para o Doutor e retribui o olhar, agradecidamente, revelando ter entendido o que o Doutor queria dizer. Ainda mais, mostrando com um breve olhar, quase de canto de olho por estar no final da primeira fila, que concorda e compactua com as idéias do Dr. Herman ou Dr. Cuco, que importa.

Doutor Herman saiu do auditório com sorriso no canto da boca, com grande satisfação. Nunca foi sua intenção fazer com que todos da palestra entendessem o que ele propunha e teorizava. Talvez, todos estavam centrais demais, tendo reações pouco pessoais quando o holofote está em cima de si. Não, Dr. Herman sabia que o seu trabalho não seria compreendido por todos. Mas ficou feliz em saber que ao menos uma pessoa, aquela que estava no canto e prestou atenção no que ele disse e achou tudo interessante.

"Deus está nos detalhes", pensou Doutor Herman.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Os sinais

Como bom individuo meio intelectual, meio de esquerda e meio cachaceiro, grande parte da minha reputação é baseada em frases de efeito, faladas em meio às elucubrações etílicas. Essa realidade têm se agravado, agora nesta presente também no meio virtual, onde ao invés de álcool é o sono que causa o entorpecimento. E que fique claro que já fui chamado de “Schopenhauer versão leite C” por um amigo e de “babaca idiota” por um familiar, basicamente, as duas únicas pessoas contidas no seleto grupo que acompanha esse blog. Mas a coisa tá crescendo! Nasce um burburinho na rua sobre os fantásticos dizeres que há nessas crônicas e contos. E quando eu digo rua, minha rua mesmo, mas especificamente um vizinho meu que comprou um computador do Milhão e com sua internet discada só conseguiu ver o meu blog até hoje.

Essa enorme digressão e confissão pouco ou nada têm a ver com essa crônica, talvez apenas pela parte que toca sobre frases de efeito. Hoje, nesse escrito, a frase de efeito é a historiográfica e semiológica “o mundo é governado pelas imagens”. É caro leitor, imagine o que é dito por mim para os co-bebedores embriagados.

Em todo caso, o lance é o seguinte: o mundo é governado por imagens, por sinais. Saber identificá-las garante sucesso, não saber o fracasso.

Os sinais estão em toda a parte, por vezes sua batata está assando no trabalho, sua namorada (o) está te traindo, aquela zoação não está caindo bem, aquela roupa te faz parecer um idiota ou uma piranha, etc. Alguns são fáceis de identificar ficam na cara. Pra ilustrar, no caso dos exemplos acima, respectivamente: você recebe uma carta de demissão; você chega mais cedo em casa e vê um homem nu saindo pela janela; você recebe um soco na cara daquele que você zoava; você tem a mão passada na bunda por um bêbado.

O problema é que os sinais nem sempre estão claros e são os detalhes que podem revelar o que ocorre por baixos dos panos. Uma ligação que seu amásio não atende, umas férias que seu chefe te dá sem você pedir, um sorriso amarelo no rosto daquele que você está tirando sarro, etc. Por serem menores são mais difíceis de perceber, mas quando percebidos podem representar a possibilidade de evitar-se o mal iminente, como já dizia Maquiavel há séculos atrás.

E o pior, muitas vezes os sinais são antitéticos, contraditórios. Exemplo, muitas vezes se você está para ser demitido ou traído, seu chefe ou namorado (a) está sendo muito mais gentil, cordial, amoroso, etc. Ou mesmo, a coisa se complica quando os sinais são meros reflexos fisiológicos: uma piscada, que na verdade é causada por um cisco; uma olhada de canto de olho, que na verdade é oriunda de um tique nervoso; uma jogada de cabelo causada por um xampu vencido usado no banho anterior...

É preciso sensibilidade para identificar os sinais. No meu caso, acho que fica difícil fazê-lo quando se tem a sutileza de uma bigorna e a delicadeza de um trator. São incontáveis as vezes em que recebi sinais claros e agindo com essa presunção me meti nas situações mais constrangedoras, desesperadoras e esdrúxulas. Isto, sem pensar nos tipos de pessoas cujo próximo passo é uma incógnita até para elas mesmas, e a gente acaba se relacionando na vida. Por isso, desisti de identificar os sinais e os ignoro com orgulho.

Não que eu não admire quem consegue ver o não-visto, perceber o que ninguém percebe, etc. Mas é que é tão chato saber todos os próximos passos e não se arriscar sem se ter 95% de chance de acertar, que eu tenho preferido a autonomia, autenticidade e independência de pular do abismo. Isto explica em grande parte a desistência de leituras de livros como “O Corpo Fala” e outras psicologias baratas.

Hoje, vejo filosofia naquele bêbado, que apostou seu corpo em um jogo de truco. Como ele diz profeticamente, “tem que arriscar”. Claro, outra lição que ele me ensinou é nunca apostar a sua própria defloração, em nenhuma hipótese, em nenhum lugar. Nunca!

Então, pra finalizar, parabenizo aqueles que identificam todos os sinais e jogam para ganhar, sempre. Tudo que houver de bom nesse mundo será de vocês. Mas para você, bem aventurado, que nunca acerta uma e só identifica os sinais quando o mal já é irremediável, saiba que será seu o reino dos céus. Se não, pelo menos você terá um pouco de dignidade em ter tentado às cegas, tentado por sua própria vontade e convicção. Se ainda assim não estiver satisfeito, apenas certifique-se de não criar um blog para não ser chamado de idiota e babaca pelos seus leitores.

Mas, ainda assim, um ditado popular deve ser colocado: “quem desdenha quer comprar”. A não ser que se receba um tapa na cara depois do beijo roubado.

Obs.: o autor, eu mesmo, sabe ter cometido aberrações conceituais em confundir o conceito semiológico de imagem com a questão dos sinais. Mas o autor, eu, reserva-se no direito a falar besteira que ser a encarnação do Schopenhauer no terceiro mundo pressupõe e garante.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Marshmellows

Imagine a seguinte situação: um grupo de crianças é escolhido para um teste. Cada criança por sua vez, receberá um marshmellow e ficará na sala por 15 minutos. No início, um adulto responsável pelo teste propõe o seguinte trato: as crianças que não comerem o marshmellow naqueles 15 minutos, receberão outro. Aquelas que não se aguentarem, podem comer o marshmellow, mas será o único que receberão.

Bem, pode-se imaginar o que ocorreu: algumas crianças comeram o marshmellow na primeira chance, outras crianças não comeram e receberam o segundo, algumas apenas lamberam, afinal lamber não estava no trato, outras comeram o recheio e fecharam o marshmellow novamente, mostrando um brilhante futuro como falsários, etc. Aproximadamente 15 anos depois, as mesmas crianças do teste foram procuradas pelos pesquisadores demonstrando o seguinte diagnóstico: as crianças que não comeram o marshmellow acabaram por ter os melhores empregos e estudado nas melhores universidades, sendo então chamadas de “bem sucedidas” ao passo que as que comeram o doce acabaram por não obter tanto “sucesso” na vida.

A situação narrada faz parte de um vídeo motivacional usado em vários cursos empresariais. Segundo apurado, o que tentava-se demonstrar era o conceito de maturidade, que segundo alguma definição é a capacidade de abrir mão de um benefício imediato frente a um benefício maior posterior.

Até aí, sabemos como num ambiente empresarial a questão do abrir mão de um beneficio imediato tem bastante efeito, principalmente quando seu salário tá um droga, estão te fazendo trabalhar nos fins de semana, cobrando um curso de pós-graduação nas noites de sexta e um curso de inglês avançado no sabadão. É bastante claro que a retórica é muito útil para os patrões, principalmente nos momentos em que as contas mensais são tão avassaladoras que decide-se pedir ou cobrar um aumento já prometido.

O que me ponho a pensar é o quanto que abrir mão de algo no agora significa diretamente um benefício posterior. Será que esse futuro benefício é mensurável? Ou mesmo, se ele realmente ocorrer, até que ponto isso é interessante? Os marshmellows e as várias coisas que acabamos acumulando na vida tem valores intrínsecos? Na minha visão um marshmellow só tem valor uma vez que for comido e o dinheiro, geralmente o que as crianças crescidas escolheram para guardar, só tem valor quando gasto. Por isso me pergunto, até que ponto vale a pena a acumulação?

Não se trata aqui de propor uma visão de mundo epicurista, onde o prazer, em todas as suas conotações, deva ser perseguido o tempo todo. Sei como é importante ser previdente e que várias coisas importantes na vida são conseguidas com uma certa dose de abnegação. Acontece que até quando essa abnegação não vira uma obsessão pelo suposto prazer posterior, pelo bem vindouro, pela vida feliz que terá lugar no porvir? Quando foi que viver, já desde crianças, virou uma atividade de investimento?

Algo muito estranho está ocorrendo. Comer um doce, fazer amizades, estudar, namorar e se apaixonar viraram investimento, onde o que se coloca de si depende invariavelmente do risco e do retorno envolvido. Ao pensar em algo, nos perguntamos o quanto vale a pena. Tudo é contado e contabilizado, ao ponto de que não poucas vezes ouvi de algumas pessoas as previsões de se apaixonar e se casar em alguns anos sem mesmo ter um namorado ou namorada.

Será que essa mudança de perspectiva ajudou naquilo que todos humanos se assemelham, a busca pela felicidade?

Acredito que não. A geração das crianças marshmellows criou adultos bastante perturbados. Temos uma massa de jovens adultos, na casa dos seus 25 anos, com uma leve e crônica depressão, vivendo em meio a problemas familiares e desilusões amorosas. Mais especificamente, esperando viver. Isto porque são esses mesmos jovens, que em grande maioria são pós-graduados ou estão na sua segunda ou terceira graduação, que ocupam todo o seu tempo com a atividades supostamente benéficas para o futuro e para a vida vindoura. Pra essa geração, nossa geração, a vida é um lugar a se chegar, as custas do sacrifício no presente. A vida é um destino em uma viagem, assim como a Paságarda narrada pelo Manuel Bandeira.


A meu ver, esse tipo de atitude não deixa de ser uma forma de fuga. Uma fuga de si mesmo, onde é mais fácil ocupar-se o tempo todo do que encarar-se de frente e entender o que se é e onde se está. É justamente a negação de qualquer maturidade, onde a vida se torna um lugar a ser alcançado hipoteticamente porém nunca efetivamente.


Engraçado como o não-fruir o presente pode ser uma atitude ligada tanto com a afirmação da maturidade quanto com a sua negação. Contraditório, não!?

Em todo caso, penso que talvez viver não seja um destino. Talvez esteja muito mais pra uma jornada. Uma jornada que não tem tempo certo pra se comer ou guardar os marshmellows. Tampouco ficar com aquela pessoa que te desperta sentimentos bons, ou ler aquele livro que você tem vontade, fazer aquela viagem turística que se sonha. Uma jornada que no final representará uma soma de todas essas experiências, boas e ruins e não os lucros advindos do não-viver.

Por isso tudo, talvez não haja sentido em guardar os doces pra posteridade, afinal com o passar do tempo o sabor não fica igual. E se a questão for acumular, doce demais dá dor de barriga, como já dizia mamãe. Mas se guardar o doce pra depois é uma necessidade, por medo de descobrir seu gosto real ou das intempéries que a vida pode apresentar, desencane! E lembre-se que fugir pra frente pode não parecer, mas também é fuga.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

(A)tentado contra a vida

Tentar viver é tarefa difícil e trabalhosa. Tente não fazer isso o resto da sua vida