Antes de começar, é digno de nota que eu realmente plagiei o título dessa crônica de uma música do Moveis Coloniais de Acaju. Minha opinião: esse novo Cd (Complete) é um dos melhores cd’s lançados em 2009, e pode ser baixado de graça aqui.
Nesse exato momento, encontro-me aterrorizado pela possibilidade de várias mudanças, principalmente no meio profissional. Engraçado como a gente vive reclamando sobre como está miserável mas quando aparece uma mudança cria um temor absurdo, fica ressabiado e cabisbaixo.
Isso me leva a pensar a carga negativa que existe em volta de uma mudança. Isso porque ninguém quer realmente mudar. Fato. Um bom exemplo é o de um colega de trabalho reclamão, inerte e chato. Ninguém gosta muito de trabalhar com ele, suas reclamações fazem qualquer plantão de 12 horas se transformar na nova temporada de “24 horas”, menos pela emoção, mais pela tensão que se cria em volta das reclamações. Ainda por cima é preguiçoso, do tipo que quer que “o mundo acabe em barranco para morrer encostado”, frase proferida pelo líder dos Homens Brutos, Marreta, em uma conferência.
Em todo caso, esse homem inerte é surpreendido por um mudança, por exemplo uma demissão, uma mudança de cargo, uma mudança de local de trabalho. Já não é mais hora de reclamar, não há mais tempo para isso. Eis o que impressionantemente ocorre: ele começa uma grande mobilização para que as mudanças sejam canceladas. Liga pra um, fala com outro, chega até a ser gentil com a chefe e com seus colegas, pedindo apoio para sua mobilização pró-situação. O incrível é que não são raras as vezes em que o cara chega a prometer mudar, deixar de ser chato e preguiçoso para continuar onde está. Mudar para não mudar.
Talvez todas as mobilizações e mudanças da vida ocorrem justamente com o intuito de não haver mudanças. Chego a pensar como era difícil para um nômade viver mudando, deixando um local com o qual eventualmente tinha laços afetivos, para viver em outro, quase sempre desconhecido, que poderia abrigar vários perigos, etc. Um belo dia a vontade de não mudar foi mais forte do que a necessidade de mudar e eis que surge o sedentarismo. O homem passa a criar animais, plantar alimentos, construir casas mais sólidas, etc. Interessante que essa mudança de atitude, de nômade a sedentário, é tida como grande responsável pela formação da civilização. A vontade não mudar movimenta o mundo.
O problema de não querer mudar é que o ser humano consegue se acostumar com qualquer coisa, tanto ruins quanto boas. Ser demitido é quase tão doloroso quanto mudar para um emprego melhor. Os laços são cortados, a sensação de não saber o que vem pela frente é parecida, a sádica saudade floresce no peito (mais uma vez, Móveis).
Terminar um namoro com algum cretino traz quase tanta dor quanto perder o amor da sua vida.
Embora eu tenha vários exemplos na manga, vou acabar usando um meu. Sempre fui um cara desprendido de coisas materiais e adepto da “Lei do Mínimo Esforço”. Para quem não conhece, essa libertadora lei tem como princípio único a seguinte máxima: “se uma coisa precisa de mais de dez passos para ser feita, essa coisa não merece ser feita em hipótese alguma”. Por isso, há tempos ando com meu carrinho velho, sem crises. Na verdade, só o lavo e conserto os seus problemas mecânicos quando representa algum perigo não fazê-lo, por exemplo, ficar parado na Imigrantes, com o pneu furado em um dia nebuloso. Como dificilmente a sujeira do carro o impede de andar, eu acabo não lavando nada, nunca. Ele só parou até hoje uma vez por causa da sujeira e foram precisas várias lavagens para que ele votasse a andar. Acho que ele tinha ficado em depressão pelo visual rústico que eu lhe incutia.
Em passado recente fiz uma viagem para a grande Bertioga e eis que meu motor e meu pneu vão pro saco no meio da Rodovia dos Imigrantes como acima relatado. Com muito esforço, após trocar o pneu, faço-nos chegar ao Guarujá onde um mecânico conserta as velas do carro e me cobra R$ 20,00 pelo serviço. Acontece que de forma xamânica, o mecânico-benzedeiro coloca a mão sobre o motor do meu carro e após alguns segundos recebendo as vibrações, diz categoricamente:
- Esse motor está no bico do urubu! – e olha pra mim, com grande espanto e gravidade, praticamente em transe.
- É!?..... que coisa...tá no bico do corvo, então!? – eu tento amenizar a situação, com um sorriso amarelo.
-Não, está no bico do urubu! – ele encerra a questão, voltando logo depois ao seu estado normal de consciência.
Bem, eu saio da oficina humilhado. A simbologia por trás das palavras do mecânico-xamã me atordoava. Meu motor estava só a carniça, nem um corvo, ave nobre e bela, o queria. Só um urubu eventualmente poderia querê-lo. É isso, tenho que trocar de carro. Prometo pra mim mesmo que trocarei de carro, ainda mais em meio às zuações dos meus amigos que presenciaram o diagnóstico do motor.
Bem, aqui em São Paulo, após ter subido a serra com urubus me seguindo o tempo todo, acabei comprando um novo pneu, um jogo de velas sobressalente e o mais importante, uma chave para trocar as velas. Qualquer problema, antes que aves cheguem ao meu redor, posso fazer a troca das velas sem embargo. Sem contar que acho coisa de Homem Bruto parar na estrada, abrir o capô do carro, pegar uma ferramenta, se sujar de graxa e aparecer assim em um casamento, por exemplo. É sexy!
Em resumo, a promessa de trocar de carro virou letra morta.
Repito, nós seres humanos temos a predisposição de nos acostumar a qualquer coisa, seja ela boa ou ruim. E o pior, mesmo em uma situação ruim lutamos para que não haja mudanças em nossas vidas. Seja você que não quer um relacionamento e prefere ficar sozinho, seja você que cria sentimentos pelo seu carro que sempre te deixa na mão, seja você que trabalha longe de casa em um emprego de merda e não procura outro.
Na grande maioria de palestras motivacionais, livros de auto-ajuda, etc, não é a ordem “mude” citada incessantemente?
As mudanças ocorrem queiramos ou não. As coisas terminam, começam, se adiam, se suspendem, viram pó. Por isso, é bom se acostumar com a mudança, com o fim e com o começo das coisas, embora seja tarefa bastante difícil. Saiba, nessa vida todos teremos agonias constantes, tudo por causa da própria inconstância. Um conselho, usando mais uma vez Móveis, é que “se a vida lhe propõe certas agonias, melhor se prevenir e não ser sadomasoquista”.
Em todo caso, não sei qual circulação que essa crônica tem, mas gostaria de deixar um anuncio:
Vende-se carro com o motor no bico do urubu. Ele tem todos os anos, todos os quilômetros, mas a chave para trocar a vela vai inclusa no pacote.
Nesse exato momento, encontro-me aterrorizado pela possibilidade de várias mudanças, principalmente no meio profissional. Engraçado como a gente vive reclamando sobre como está miserável mas quando aparece uma mudança cria um temor absurdo, fica ressabiado e cabisbaixo.
Isso me leva a pensar a carga negativa que existe em volta de uma mudança. Isso porque ninguém quer realmente mudar. Fato. Um bom exemplo é o de um colega de trabalho reclamão, inerte e chato. Ninguém gosta muito de trabalhar com ele, suas reclamações fazem qualquer plantão de 12 horas se transformar na nova temporada de “24 horas”, menos pela emoção, mais pela tensão que se cria em volta das reclamações. Ainda por cima é preguiçoso, do tipo que quer que “o mundo acabe em barranco para morrer encostado”, frase proferida pelo líder dos Homens Brutos, Marreta, em uma conferência.
Em todo caso, esse homem inerte é surpreendido por um mudança, por exemplo uma demissão, uma mudança de cargo, uma mudança de local de trabalho. Já não é mais hora de reclamar, não há mais tempo para isso. Eis o que impressionantemente ocorre: ele começa uma grande mobilização para que as mudanças sejam canceladas. Liga pra um, fala com outro, chega até a ser gentil com a chefe e com seus colegas, pedindo apoio para sua mobilização pró-situação. O incrível é que não são raras as vezes em que o cara chega a prometer mudar, deixar de ser chato e preguiçoso para continuar onde está. Mudar para não mudar.
Talvez todas as mobilizações e mudanças da vida ocorrem justamente com o intuito de não haver mudanças. Chego a pensar como era difícil para um nômade viver mudando, deixando um local com o qual eventualmente tinha laços afetivos, para viver em outro, quase sempre desconhecido, que poderia abrigar vários perigos, etc. Um belo dia a vontade de não mudar foi mais forte do que a necessidade de mudar e eis que surge o sedentarismo. O homem passa a criar animais, plantar alimentos, construir casas mais sólidas, etc. Interessante que essa mudança de atitude, de nômade a sedentário, é tida como grande responsável pela formação da civilização. A vontade não mudar movimenta o mundo.
O problema de não querer mudar é que o ser humano consegue se acostumar com qualquer coisa, tanto ruins quanto boas. Ser demitido é quase tão doloroso quanto mudar para um emprego melhor. Os laços são cortados, a sensação de não saber o que vem pela frente é parecida, a sádica saudade floresce no peito (mais uma vez, Móveis).
Terminar um namoro com algum cretino traz quase tanta dor quanto perder o amor da sua vida.
Embora eu tenha vários exemplos na manga, vou acabar usando um meu. Sempre fui um cara desprendido de coisas materiais e adepto da “Lei do Mínimo Esforço”. Para quem não conhece, essa libertadora lei tem como princípio único a seguinte máxima: “se uma coisa precisa de mais de dez passos para ser feita, essa coisa não merece ser feita em hipótese alguma”. Por isso, há tempos ando com meu carrinho velho, sem crises. Na verdade, só o lavo e conserto os seus problemas mecânicos quando representa algum perigo não fazê-lo, por exemplo, ficar parado na Imigrantes, com o pneu furado em um dia nebuloso. Como dificilmente a sujeira do carro o impede de andar, eu acabo não lavando nada, nunca. Ele só parou até hoje uma vez por causa da sujeira e foram precisas várias lavagens para que ele votasse a andar. Acho que ele tinha ficado em depressão pelo visual rústico que eu lhe incutia.
Em passado recente fiz uma viagem para a grande Bertioga e eis que meu motor e meu pneu vão pro saco no meio da Rodovia dos Imigrantes como acima relatado. Com muito esforço, após trocar o pneu, faço-nos chegar ao Guarujá onde um mecânico conserta as velas do carro e me cobra R$ 20,00 pelo serviço. Acontece que de forma xamânica, o mecânico-benzedeiro coloca a mão sobre o motor do meu carro e após alguns segundos recebendo as vibrações, diz categoricamente:
- Esse motor está no bico do urubu! – e olha pra mim, com grande espanto e gravidade, praticamente em transe.
- É!?..... que coisa...tá no bico do corvo, então!? – eu tento amenizar a situação, com um sorriso amarelo.
-Não, está no bico do urubu! – ele encerra a questão, voltando logo depois ao seu estado normal de consciência.
Bem, eu saio da oficina humilhado. A simbologia por trás das palavras do mecânico-xamã me atordoava. Meu motor estava só a carniça, nem um corvo, ave nobre e bela, o queria. Só um urubu eventualmente poderia querê-lo. É isso, tenho que trocar de carro. Prometo pra mim mesmo que trocarei de carro, ainda mais em meio às zuações dos meus amigos que presenciaram o diagnóstico do motor.
Bem, aqui em São Paulo, após ter subido a serra com urubus me seguindo o tempo todo, acabei comprando um novo pneu, um jogo de velas sobressalente e o mais importante, uma chave para trocar as velas. Qualquer problema, antes que aves cheguem ao meu redor, posso fazer a troca das velas sem embargo. Sem contar que acho coisa de Homem Bruto parar na estrada, abrir o capô do carro, pegar uma ferramenta, se sujar de graxa e aparecer assim em um casamento, por exemplo. É sexy!
Em resumo, a promessa de trocar de carro virou letra morta.
Repito, nós seres humanos temos a predisposição de nos acostumar a qualquer coisa, seja ela boa ou ruim. E o pior, mesmo em uma situação ruim lutamos para que não haja mudanças em nossas vidas. Seja você que não quer um relacionamento e prefere ficar sozinho, seja você que cria sentimentos pelo seu carro que sempre te deixa na mão, seja você que trabalha longe de casa em um emprego de merda e não procura outro.
Na grande maioria de palestras motivacionais, livros de auto-ajuda, etc, não é a ordem “mude” citada incessantemente?
As mudanças ocorrem queiramos ou não. As coisas terminam, começam, se adiam, se suspendem, viram pó. Por isso, é bom se acostumar com a mudança, com o fim e com o começo das coisas, embora seja tarefa bastante difícil. Saiba, nessa vida todos teremos agonias constantes, tudo por causa da própria inconstância. Um conselho, usando mais uma vez Móveis, é que “se a vida lhe propõe certas agonias, melhor se prevenir e não ser sadomasoquista”.
Em todo caso, não sei qual circulação que essa crônica tem, mas gostaria de deixar um anuncio:
Vende-se carro com o motor no bico do urubu. Ele tem todos os anos, todos os quilômetros, mas a chave para trocar a vela vai inclusa no pacote.
Quanto mais mudamos, mais continuamos os mesmos... ou Quanto mais tentamos continuar os mesmos, mais mudamos?
ResponderExcluirSuas reflexões, são sempre extremamente reflexivas, em mais de um sentido...
Abraços!
Mudanças...Inevitáveis.
ResponderExcluirAdorei a idéia de colocar links no meio da crônica!
Beijos
Cara sensacional!
ResponderExcluirSó quem viveu lembrará.
Mudanças realmente nunca são fáceis,
ainda mais quando envolvem perdas, despedidas.
Assim se vai o Turtle,
que esteve conosco em tantos momentos!
Momentos de alegria,
momentos de tristeza,
viagens para longe, viagens para perto.
No mato na praia na estrada na terra! (assim mesmo sem virgula)
Acampando...
Celebrando!
Ensinado...
Que o verde às vezes pode ser mais verde,
Que o sol pode ser mais quente, sempre.
Que Skol pode parecer xá...
Que castelos de areia podem ser construídos com a luz do luar.
Que submarinos nem sempre estão escondidos embaixo do mar.
E que motoqueiros nem sempre sabem guiar...
Ensinando que por trás do barro, da lama, do amassado, do pneu furado, da pintura degradada, existem memórias.
Só quem viveu lembrará!
Haha
ResponderExcluirO Turtle continua!
e vai nos levar além, de novo e pela primeira vez!