terça-feira, 23 de junho de 2009

Menina!!!

Já passava das dez da noite quando ele entrou na delegacia, parando em frente ao balcão de atendimento. "Ele", que a partir de agora será chamado de "ela", para que o autor não tenha confusão mental, com sua saia verde, combinando com um top de uma cor análoga. Pode-se dizer que ela tem um belo bronzeado e um corpo bem distribuído, mas seria mais ilustrativo dizer que ela na verdade é um negão de quase dois metros de altura. Sua presença traz consigo um odor desagradável, afinal ela deve tomar banho apenas em dias santos e não deve ter perfume francês. Ou qualquer perfume. Ela tem um cabelo curto, encaracolado e loiro, embora eu acredite que seu desejo seria ter uma peruca, daquelas pra Ronaldão nenhum botar defeito. Mas ela não tem. Ela é uma bicha pobre.

O sistema de revezamento do atendimento de uma delegacia, baseado no pateteado princípio do “se-vira-que-eu-não-quero-atender-e-vou-lá-pra-trás-agora!”, me obriga a permanecer em frente ao balcão. Sou eu que irei atendê-la, não dá pra evitar.

- Pois não? – Geralmente o protocolo de atendimento é o “Pois não, senhor?” ou “senhora”, mas convenhamos, não há motivos para ser polêmico às dez da noite de um dia frio.
- Moço, sabe o que que é... – ela fala de forma rápida- é que eu moro com uma moça aqui atrás, numa casa aí embaixo, e ela tem brigado comigo... eu não agüento mais moço, não sei mais o que fazer...

Pelo visto esqueci de mencionar que ela é um código treze, como falado no jargão policial. Ou seja, ela é completamente doida, e como boa parte dos loucos, tem uma queda por delegacias, batalhões da PM, aglomerações de pessoas e shows de rock. Eu já a conheço de longa data, mas na última ocasião o ocorrido criminoso era que ela tinha sido “estrupada”.

- Então – ela continua- ela é uma feia! E a casa também é minha, sabe!? Ela tem uma grande inveja de mim, eu não aguento mais. Ela só tem me dado a comida pra comer, nem tem me dado mais dinheiro... Eu preciso de algum policial pra resolver isso.

Aí vem a grande situação. Como um humanista, estudante das ciências humanas, democrático de esquerda e que, por sinal, não sabe nem o que faz direito na polícia lida com essa situação? Bem, ela é uma bicha louca, eu sei. Na verdade, o mais correto é sair correndo do balcão e esperar que ela se vá da mesma forma que veio. Mas não. Ela é uma grande vítima da sociedade. Eu imagino todas as formas de preconceito que uma bicha louca possa ter sofrido na vida. Decido falar de forma clara, tratá-la com urbanidade e civilidade, minha função como servidor público.

-Veja bem, a situação que você está me relatando não apresenta, até agora, um crime para ser apurado, que é a função da Polícia Civil. Eu entendo que é uma situação delicada - haha- mas acredito que você possa resolver isso de forma amigável com sua co-moradora. Caso alguma conduta criminosa ocorra, como ameaça, lesão corporal, etc. não se esqueça de ligar 190 e pode vir até a delegacia para a feitura de um B.O.

- Mas moço- ela fala brava, batendo com a palma da mão na mesa- eu preciso de um policial para ir até lá. Não tem como? Pra que serve a polícia então??? Não tem como aquele policial ir lá comigo?

Eu olho para a direção que ela aponta e vejo o vulto de Nestor, meu parceiro de plantão, que tava tirando sarro da minha cara. Uma luz no fim do túnel! Se a população pede o atendimento especial de um policial, quem sou eu para lhe recusar?
Depois de chamar o Nestor, convencendo-o a atendê-la usando toda a sorte de argumentos, ele entra na sala do plantão batendo palmas e grita para ela:

-Menina!!!!!!! Não acredito que você tá aqui de novo!! Ninguém ta te estuprando não, tá? – tudo isso enquanto bate palmas e se aproxima dela – Vai, me dá seu endereço que eu vou dar uma passada lá pra te visitar! Escreve aqui pra mim!

Ela, enquanto ri de forma tenra, mostrando que além do já relatado, um tratamento dentário também deve ser pedido ao Papai Noel, escreve o seu endereço no papel, agradece e vai embora. Toda a tratativa empreendida pelo Nestor demora 30 segundos e teve grande êxito.

Eu fico impressionado. Como aquele momento foi mágico! Um grande negociador esse Nestor. Conseguiu dar o que ela queria, de forma rápida e indolor. Afinal, ela não queria um B.O., tampouco uma viatura policial na sua casa. No confuso mapa mental dela provavelmente tais coisas estejam associadas a elementos de poder, que deve causar uma espécie de fascinação. Além do que, policiais tem como função obrigatória ouvir toda a sorte de impropérios da população e ainda assim dar alguma resposta. Ela precisava de um pouco de atenção, quem sabe algumas palminhas para sossegar sua alma. Na sua realidade, pouco importa a função da polícia. O significado palavra co-moradora menos ainda.

Percebi que eu havia sido um mau policial. Mais tarde entendi que ao nivelar todos, seja por cima ou por baixo, a gente acaba adotando uma espécie de atendimento, pensamento ou relacionamento padrão. Uma vez que a eficácia de tais ações se mostra nula, a gente diz pra si mesmo “bem... minha parte eu fiz”. No fundo, o problema continua, deixando porém de ser seu, afinal você fez o que o que seria de bom grado à qualquer um. É uma atitude preguiçosa, bem comum ao indivíduo do meio acadêmico, do meio do funcionalismo público e de outros tantos meios.

Já o Nestor mostrou que há outra forma de agir. A que pensa a realidade específica de cada situação e se posiciona levando tal realidade em conta. Não é uma atitude preguiçosa, pois subentende um maior tato e uma maior sensibilidade pra cada situação, o que é bem mais trabalhoso.

Diante disso, me ponho a pensar nas diversas formas de relações, instituições, organizações, que se vê por aí. Cheguei a uma conclusão triste: é extensivo o uso da atitude preguiçosa em nosso país.

Um país no qual cada vez mais a população é acuada pela bandidagem tem uma das leis de execuções penais (que regulamenta lances como a progressão de pena, os indultos e as saídas temporárias) mais brandas do mundo.

Um país assolado por escândalos como mensalão, mensalinho, mau uso das passagens aéreas, etc. têm um Congresso Nacional numeroso e que ainda entitula-se alicerce da democracia.

O bairro de Parelheiros, carente, carente, que receberia um grande afluxo de empresas com a construção do Rodoanel acabou por ficar ilhado e não terá alça de acesso à rodovia, pois deve-se proteger os macaquinhos e passarinhos do avanço do desenvolvimento. E eu também não poderei farofar na praia em 40 minutos.

Os exemplos são muitos.

Não se trata aqui de propor qualquer posicionamento político, mas eu pergunto: não seria mais eficaz pensar as leis e instituições dentro da realidade cultural e social brasileira? Algumas leis criminais, por exemplo, que levem em conta o atual status que um traficante ou ladrão possui na periferia, o que obviamente cria toda uma sorte de potenciais bandidos? Ou mesmo, uma democracia que não comprasse o discurso setecentista de Montesquieu ou de tantos outros e pensasse uma divisão de poderes mais ligada ao “mapa mental” do brasileiros?

Acredito que sim. Mas tudo o que vejo são mobilizações enérgicas de todos os tipos de ONG’s , pastorais, OAB’s, CREA’s, etc. gritando palavras de ordem como “Direitos Humanos” e “Salvem o mundo”. Acho tudo legal. Mas que são um tipo genuíno de Mobilização Enérgica e Preguiçosa, são.

Hoje, prefiro as atitudes Nestorianas. Mas tais atitudes têm seu preço. Dias depois ele me contou que andava no Shopping quando encontrou a “Menina!” de novo. Ela, além de reconhecê-lo, o cumprimentou com gritos e brados, tais como “Oi lindo!”, “Nossa você por aqui”. É... Definitivamente, pra cada ação há sempre uma reação. E esta reação nem sempre é uma forma de recompensa... Ossos do ofício.

3 comentários:

  1. Admiro muito essa maneira sua de escrever!
    Gosto do seu sacarsmo!
    Bjs
    =)

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  2. Olá! Digo-lhe que adorei tudo que apresentou até agora. Deveria publicar um livro, sem dúvida alguma. Todas as formas de "arte" fazem parte da vida dos piscianos. Vc encontrou a sua!!! Só não gostei muito quando fala dos "macaquinhos" de Parelheiros. Apesar da sua ironia, eu digo que eles devem ser protegidos sim!!! hehehe Beijos

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  3. Pessoal, valeu pelos comentários!
    Lelê: Muito obrigado pelo elogio!
    Thaís: Prazer vê-la por aqui. O bom da escrita é que pode ser facilmente combinada com fanfarronices e alcoól, minha cara! hehe
    quanto à discussão cívica e moral do texto, sei que é meio polêmica, principalmente pros meus colegas uspianos. Mas que fique claro que eu adoro os macaquinhos e acho que devem ser protegidos sim! Só acho que talvez eles poderiam perder um round ou outro, principalmente pra ajudar pessoas miseráveis. Sei lá!
    Beijos meninas!

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