sábado, 20 de junho de 2009

Eu não ligo!

O filme "Crash: no limite" termina com uma mensagem contundente: as relações humanas estão tão escassas, as pessoas se encontram tão carentes em relação umas as outras, que acabam por se chocar para sentir algo. Mensagem contundente, salvo engano anunciada pelo personagem de Don Cheadle, após ver o corpo de seu irmão mais novo morto com um tiro.

Acontece que ultimamente tenho conversado sozinho. Não do modo patológico-psicopático-doentio, em voz alta, mas do normalíssimo-charmoso modo de construir um enredo com vários personagens (ego 1, ego2, ego 3 são os nomes de batismo carinhosos que os dei), os quais interagem de forma tão profunda e intrínseca que me fizeram escrever o presente. Isso porque percebi que além de roteirizar meu diálogo interno, a situação atingiu o grau derradeiro. Tenho mentido descardamente para mim mesmo.

Vou explicar a situação. Quase sempre essas tramas que ocorrem no meu consciente baseiam-se em fatos da vida real. Ultimamente, por acaso, tem se baseado sobre as minhas investidas, bem sucedidas ou não, junto às mulheres. E, deve-se dizer, que tais investidas têm sido semelhantes à investimentos na BOVESPA em tempos de crise... fracassos...

O caso é o seguinte, tentando dormir, pensando em uma mensagem de texto não respondida pela Mariazinha (chamemos-a assim, para protegê-la de qualquer coisa que posse acontecer e não consigo declinar agora), surge um palco, um roteiro, Ego1 e Ego2 no centro. Em um diálogo rápido, Ego1, assumindo o papel de Mariazinha afirma que não responderá mensagem de texto nenhuma, afinal não liga pro que seu interlocutor faz ou deixa de fazer, tampouco se fica que nem um besta esperando o celular fazer um barulho de mensagem, o que acontece ás vezes, mas são seus amigos cachaceiros. Entra Ego2, dando de ombros, revela pela vestimenta encarnar no palco o autor que vos escreve e de forma terapeutica, quase num tom de auto-ajuda afirma:

- Escute Mariazinha, você responde a mensagem se quiser: Eu não ligo!

Tudo correria na maior normalidade, a encenação prolongaria-se de forma confusa pela madrugada, se não tivesse-me assombrado a idéia de que havia acabado de contar uma mentira das grandes para mim mesmo! Não se trata aqui de afirmar ter sido tal situação a primeira em que minto pra mim mesmo. Assim como todos os seres humanos, pelo menos os que conheço, as mentiras que se deve contar a si mesmo, ao lado das que os outros devem contar para você, são formas indíspensáveis de suportar a cretinice que se mostra, por vezes, na vida. O que me impressionou foi que tal mentira se revelava duplamente falaciosa, diante das conotações que a expressão “eu não ligo” possui.

A primeira dessas conotações é a de que eu não me importaria com a não resposta de qualquer demonstração de afeto, interessse, ou sei lá o que. Ainda mais uma SMS curta, simpática, falando sobre o interlocutor ao invés de falar sobre si mesmo, ou seja, de acordo com todos os protocolos internacionais de “Como mandar SMS para uma mulher com sucesso”. Claro que me importa a resposta da tal mensagem, nem que seja com uma análise ortográfica, dizendo se atingiu o tal padrão internacional almejado ou não.

Em outro sentido, mais literal: é claro que eu ligo. Ligo, porque com ou sem diálogos internos, peças e novelas, eu acabo pensando se Mariazinha não respondeu pelos famigerados “motivos de força maior”. Entre eles: acabaram-se os créditos, ela passa por uma fase difícil, não possui dois minutos sequer para responder a mensagem pois foi abduzida por extraterrestres e por aí vai. Na real, acho que enquanto o motivo não for ela arranjou um namorado que luta Jiu Jitsu e tem uma coleção de armas brancas em casa, os homens continuam ligando.

Não se trata aqui de eu estar subcomunicando ser “necessitado emocionalmente”. Conheço o manual, na verdade, os manuais, entre eles o Best-Seller “Como não ser um mané”, ótimo manual com conteúdo de auto-ajuda e amenidades. Sei que tal subcomunicação resultaria em um pecado e em um crime, na Sociedade Sagrada dos Homens Brutos, que se encontra toda terça a noite, no buteco da esquina. Pelo contrário, não há nenhuma subcomunicação aqui: estou comunicando nos canais comuns e diretos, pode ler aí em cima, tá na cara. Assim como todos os seres-humanos, sou “necessitado”.

Tal revelação deve-se a uma tese já consagrada que defendi por aí, nos butecos, que todos os seres-humanos têm sua dose certa de carência afetiva. Não trata-se aqui de demonstrar os procedimentos metodógicos usados, premissas teóricas, etc.. Talvez em outra cronica. O que se passa aqui é a seguinte mensagem: acreditem em mim, eu sei o que falo. Na hora de escrever esse conto, no meu trabalho, às 2h00 da matina, acreditei que teria bastante tempo para refletir sobre o que escrever, etc. mas, para minha surpresa meus colegas de trabalho insistem em falar comigo, acho que um deles levantou até de sua tumba para falar que a “Hipnose é coisa séria”. Assim, desse jeito que vos escrevi, sem sentido algum. O que pensar disso? É a mais pura carência afetiva!

Em minha defesa frente a bombástica revelação, tenho a dizer o seguinte: são duas da manhã. Isso é defesa, pois também compartilho a idéia, pra quem quiser ouvir, que o homem é um dependendo do horário, da circunstância, etc. Não se trata aqui de uma dualidade simplificada; É na verdade a forma mais aleatória de comportamento humano. Vai dizer que você já não percebeu a enorme diferença? Você, por volta das 7h00 da manhã no Domingo, assistindo Globo Rural, aumentando seu conhecimento sobre as codornas, com o dia todo pela frente, com possibilidades de tomar uma com os amigos, almoçar aquela feijoada da sua mãe ou mesmo, por que não, receber a resposta daquela mensagem que você mandou para a Mariazinha. Nestes momentos, você é dono de si mesmo, enfrenta o mundo de peito aberto, não tá nem aí praquela ex-namorada que te deu um pé na bunda, tampouco aquele canalha do seu amigo que lhe deve uma grana. Você é um Homem Bruto.

Agora neste mesmo dia, por volta das 22h00. Você está assistindo Fantástico, sozinho, olhando pra Patrícia Poeta. Seus amigos saíram com as respectivas namoradas, a feijoada te rendeu uma bela dor de barriga e a Mariazinha deve estar com o celular quebrado, só pode. Neste momento, acabou a blindagem da felicidade que você tinha. Você liga para a ex ou para o amigo, pra cobrar seu coração de volta ou os duzentos Reais. No caso deste último, para o qual você realmente ligará se não estiver bêbado, você precisa do dinheiro, pois bateram no seu carro e fugiram, você acabou de lembrar. No outro dia você terá de trabalhar, aguentar trânsito, chefe, tudo por um salário de miséria. Você é um infeliz. E mais ainda: é um mané!

Sabemos que esse lance de divisão do homem é críticado por correntes da psicologia, filosofia e por alguns intérpretes de “Como não se tornar um mané”. Porém, contrariando qualquer idéia holística, as mudanças de horário talvez sejam as formas mais elementares de divisão da realidade. Ora, se o homem é um em cada horário, quem dirá em cada ambiente, grupo social, situação... As possibilidades são infinitas.

É com base nisso que minha defesa se sustenta. Se sou muitos, posso falar comigo mesmo, jogar xadrez mental, xingar meus colegas de trabalho mentalmente e achar graça sozinho... Tenho percebido até que a dose de carência faz com que eu bata em mim mesmo, bem do modo que o filme Crash coloca. Talvez agora vejo algum sentido na tal situação desesperadora em que alguém se encontra, situação criada por essa própria pessoa e cedo ou tarde gera a dicotomia do “tudo ou nada”(All or None), cantada pelo Pearl Jam.

Definitivamente, é tudo ou nada: vou mandar mais uma mensagem pra Mariazinha!

5 comentários:

  1. Ual! Que crônica!
    Lembrei de um trecho de uma música:

    "Eu não sei viver sem ter carinho
    É a minha condição
    Eu não sei viver triste sozinho
    É a minha condição
    Eu não sei viver preso fugindo
    É a minha condição"

    Beijos

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  2. Muito interessante falar sobre diálogos de você, e os seus egos. Todos temos essas “conversas”, principalmente quando estamos entrando em momentos onde algo novo esta por vir. Mudanças podem ocorrer, e por mais que você já tenha vivido outras experiencias parecidas, sempre há algo nova a ser explorado. E nada melhor que essa busca por possíveis caminhos de um desenrolar amoroso galanteador seja desenhado dentro de nossa pro pia mente. Muitas vezes (para não dizer todas) esses personagens que criamos mostra o que realmente queremos. Tudo parece maravilhoso porem, chega o momento em que essa pesa teatral cerebral deixa de ser um romance perfeito e vira um filme onde todos os caminhos a serem pensados são baseados no mais real possível.

    Acho que as vezes fico surpreso com meu ego. Como ele se empresa bem como ele é inteligente – me pergunto? Ai me lembro que ele faz parte de mim. E que juntando-se ao me Id e super ego, formão minhas características psicológicas.
    Mais uma vez me pergunto – como posso ser tão calmo e reflexivo diante de coisas cotidianas em meus pensamentos, e não os coloco em pratica?

    Talvez eu tenha duvidas que ninguém possa responder, ou sera que você pode? Ou melhor, talvez meu super ego saiba mais eu não o deixo expressar! Como você mesmo disse, “assim como todos os seres-humanos, sou necessitado”. Necessidade que na minha interpretação foi além de investidas bem sucedidas ou não em mulheres.

    To viajando ?

    Talvez essa pergunta faça parte de uma de minhas carências. A de compreender e ter minha opinião bem aceita e quem sabe um dia elogiada. Pois fora de meu quarto “craniano” tenho muito receio de dizer besteiras.

    Eu fui lendo o seu blog e escrevendo aos poucos. Conforme escrevia, vi que minha viajem foi além do que você expressou, pois lendo novamente o que ambos escrevamos percebe-se que minha linha de raciocínio fugiu muito. Tudo bem o importante foi fazer um cabeça dura como eu ler e tentar compreender a mente alheia.

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  3. mariazinha é uma menina muito má , ela tambem não responde minhas msg de domingo anoite heheh
    muito bom hilario ,e realista !! boa fabião

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  4. Fala rapaziada!
    Valeu pelos comentários!
    Lele: Sempre um prazer, ainda mais com poesias!
    Rodrigo: Belo comentário, mas acho que vc tá doidão! Mas valeu!
    Bruno: Fuck you! Vá achar sua própria Mariazinha!
    hahahahahhahahaha

    abraços a todos

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  5. A gente nem se conhece direito...
    Mas já que vc expoe suas viagens, acho que nem precisamos para que eu comente o que escreveu.

    Se for necessário me avise!

    Penso ser muito bacana esse reconhecimento de necessidade...
    Quando acontece comigo... Me faz sair de mim mesma para cultivar no outro o que faria o "Joaozinho" responder meu torpedo...
    Tarefa ardua!

    Bjo

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