terça-feira, 30 de junho de 2009

Lei seca

Em tempos de Lei Seca, os butequeiros vêem-se acuados pela licença para barberagens que os motoristas não-alcoolizados adquiriram.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Segredos Internos

Não sou muito interado em política, embora o assunto me interesse. Isto porque curto as questões relativas ao poder, não gosto muito da politicagem. Mas uma dessas politicagens recentes me despertou interesse: A vida e morte de Protógenes Queiroz, de investigador à réu, de quase subornado a potencial oferecedor de propina. Todo o giro da Roda da Fortuna na vida do delegado, do auge ao declínio, ocorreu porque ele mexeu com um aspecto importante demais, de pessoas importantes demais: a privacidade.

Ao grampear todo mundo, do filho do Presidente aos Ministros do STF, o delegado exerceu um poder que eu desejaria que uma polícia séria e competente tivesse, mas a nossa polícia fanfarrã e ineficiente, não tem: a repressão por meio da observação. Não acho que um estado do "Big Brother" seja interessante, não me entenda mal. Mas sei que a Polícia repressiva (Federal ou Civil) tem como função a apuração de crime, o que, quando feito de forma satisfatória acaba por coibir novos crimes. Não é de senso comum que a certeza da impunidade é que cria o ladrão? Meu pensamento vai bem por aí.

Acontece que todo mundo tem segredos. Ainda mais quem é importante.

Em uma ocasião relatada a mim, fiquei sabendo de quatro amigos, em uma roda, bebendo destilados, fermentados e jogando conversa fora. Já passam dos 20 e poucos anos, sabem que aquele clichê de que para se ter uma vida completa basta “plantar uma parvore, escrever um livro e ter um filho” , deve ser relativizado. Na verdade, sabem que para uma vida completa, pelo menos uma vez na vida vai-se por brochar, ser corno, tomar um fora daqueles e dormir na sarjeta,

Em todo caso, lá estão os amigos levemente embriagados. Em certo momento, um deles admite: quando era mais novo, cheirava as calcinhas de suas primas. Um breve momento de silêncio. Todos se entreolham. Um deles, o mais embriagado, admite: “Eu também”, sendo logo sucedido por tapinhas nas costas e confissões de todos os outros sobre atos excusos com roupas íntimas de familiares.

O outro amigo, acaba por revelar, que passava horas espiando do alto de seu telhado a janela da vizinha, tendo visto no máximo um seio à mostra depois de 6 meses de campana. Todos o acompanham, o cumprimentam e falam suas versões da experiência de observadores-psicopatas-juvenis.

Eis que o mais tímido, empolgado com a sessão de descarrego, brada efusivamente: “e quando criança que a gente mijava na própria cara!!?”... silêncio... os sorrisos se cerram.... os olhos aflitos de cada um passam de um estado de relaxamento para a posição defensiva...todos se entreolham, praticamente mendigando para que não haja qualquer tipo de apoio à revelação bombástica... mais uma vez o mais embriagado irrompe o silêncio:

-Cê tá doido cara? Eu não fazia isso não!!! - Ri, com grande desespero temendo ser o único contrariando a confissão.

Mas logo ele é seguido por seus outros amigos, que o auxiliam a humilhar, escrachar e vilipendiar o corpo já sem vida ou alegria de viver daquele que confessou o que não devia.


Em outro relato, nada engraçado, fiquei sabendo de um cara que na véspera de seu casamento decidiu acreditar no amor incondicional e contar para amada seu passado homicida. Tentou ainda minorizar fato criminoso dizendo que tinha sido em meio a uma briga, na Praia Grande (o que transforma o homicídio em trabalho social!? será que foi isso que ele pensou?) e que nem tinha certeza se o tiro tinha acertado mesmo. Não teve jeito. Obviamente, a mulher não comprou a idéia e o relacionamento acabou.


Falo isso para ilustrar o poder que os segredos e, mais ainda, os segredos revelados têm.


Agora, se um cachaceiro e um homicida conseguem com suas revelações serem vítimas de humilhações, segregações e abandonos, imagine o que as revelações de um ministro de Estado podem trazer.

E não falo só das revelações criminosas, que obviamente pode complicar a vida de qualquer funcionário público ou pessoa. Falo de revelações sujas, tais como mijar na própria cara quando guri. Todos possuem essas experiências e é de bom grado pra sociedade e para nós mesmos mantê-las em segredo. Pense, imagine: sair na capa da Contigo desse mês uma matéria sobre a mania de comer catarro do Presidente? Ou mesmo, se entrarmos no quesito sexual, ler sobre as taras coprofílicas de um Ministro do STF? Isso pode afundar com a nação, com a república, seria um caos moral e cívico...

Por isso, não importa o quão importante você é, saiba que sempre haverá alguém tentando descobrir seus segredos mais íntimos, possivelmente um Delegado de Polícia te grampeando, um namorado ou namorada lendo seus emails e diários, algum amigo cretino tentando te zuar, etc. Mas, para o seu próprio bem, para o bem da nação e para o bem das pessoas amadas, proteja seus segredos com unhas e dentes. Principalmente se esses segredos envolverem coisas nojentas e repulsivas feitas com tuas unhas e dentes.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Um dia frio...

Dias frios e chuvosos são dias em que acidentes e incidentes ocorrem, por excelência. Tanto os de ordem automobilística quanto os de ordem sentimental. Por isso, dirija com cuidado, fique longe de seus discos da Adriana Calcanhoto e, definitivamente, fique longe do seu telefone celular.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

As reações

Como visto, adicionei um novo lance no Blog: as reações. Agora, depois de ler um post, os leitores podem falar suas reações com apenas um click. Como também pode ser visto, fiz uma opção em colocar quatro reações boas e só uma ruim. Até agora ninguém clicou em "bobisse" e isso é bom mesmo. Quem for o primeiro a clicar, terá uma supresa: um virus mortal, uma versão virtual do Ebola, adentará seu HD e destruirá tudo, tudo o que te define como ser humano!
Por isso um pedido, por favor sejam gentis! Ou a vida não será gentil com vocês, canalhas!

terça-feira, 23 de junho de 2009

Menina!!!

Já passava das dez da noite quando ele entrou na delegacia, parando em frente ao balcão de atendimento. "Ele", que a partir de agora será chamado de "ela", para que o autor não tenha confusão mental, com sua saia verde, combinando com um top de uma cor análoga. Pode-se dizer que ela tem um belo bronzeado e um corpo bem distribuído, mas seria mais ilustrativo dizer que ela na verdade é um negão de quase dois metros de altura. Sua presença traz consigo um odor desagradável, afinal ela deve tomar banho apenas em dias santos e não deve ter perfume francês. Ou qualquer perfume. Ela tem um cabelo curto, encaracolado e loiro, embora eu acredite que seu desejo seria ter uma peruca, daquelas pra Ronaldão nenhum botar defeito. Mas ela não tem. Ela é uma bicha pobre.

O sistema de revezamento do atendimento de uma delegacia, baseado no pateteado princípio do “se-vira-que-eu-não-quero-atender-e-vou-lá-pra-trás-agora!”, me obriga a permanecer em frente ao balcão. Sou eu que irei atendê-la, não dá pra evitar.

- Pois não? – Geralmente o protocolo de atendimento é o “Pois não, senhor?” ou “senhora”, mas convenhamos, não há motivos para ser polêmico às dez da noite de um dia frio.
- Moço, sabe o que que é... – ela fala de forma rápida- é que eu moro com uma moça aqui atrás, numa casa aí embaixo, e ela tem brigado comigo... eu não agüento mais moço, não sei mais o que fazer...

Pelo visto esqueci de mencionar que ela é um código treze, como falado no jargão policial. Ou seja, ela é completamente doida, e como boa parte dos loucos, tem uma queda por delegacias, batalhões da PM, aglomerações de pessoas e shows de rock. Eu já a conheço de longa data, mas na última ocasião o ocorrido criminoso era que ela tinha sido “estrupada”.

- Então – ela continua- ela é uma feia! E a casa também é minha, sabe!? Ela tem uma grande inveja de mim, eu não aguento mais. Ela só tem me dado a comida pra comer, nem tem me dado mais dinheiro... Eu preciso de algum policial pra resolver isso.

Aí vem a grande situação. Como um humanista, estudante das ciências humanas, democrático de esquerda e que, por sinal, não sabe nem o que faz direito na polícia lida com essa situação? Bem, ela é uma bicha louca, eu sei. Na verdade, o mais correto é sair correndo do balcão e esperar que ela se vá da mesma forma que veio. Mas não. Ela é uma grande vítima da sociedade. Eu imagino todas as formas de preconceito que uma bicha louca possa ter sofrido na vida. Decido falar de forma clara, tratá-la com urbanidade e civilidade, minha função como servidor público.

-Veja bem, a situação que você está me relatando não apresenta, até agora, um crime para ser apurado, que é a função da Polícia Civil. Eu entendo que é uma situação delicada - haha- mas acredito que você possa resolver isso de forma amigável com sua co-moradora. Caso alguma conduta criminosa ocorra, como ameaça, lesão corporal, etc. não se esqueça de ligar 190 e pode vir até a delegacia para a feitura de um B.O.

- Mas moço- ela fala brava, batendo com a palma da mão na mesa- eu preciso de um policial para ir até lá. Não tem como? Pra que serve a polícia então??? Não tem como aquele policial ir lá comigo?

Eu olho para a direção que ela aponta e vejo o vulto de Nestor, meu parceiro de plantão, que tava tirando sarro da minha cara. Uma luz no fim do túnel! Se a população pede o atendimento especial de um policial, quem sou eu para lhe recusar?
Depois de chamar o Nestor, convencendo-o a atendê-la usando toda a sorte de argumentos, ele entra na sala do plantão batendo palmas e grita para ela:

-Menina!!!!!!! Não acredito que você tá aqui de novo!! Ninguém ta te estuprando não, tá? – tudo isso enquanto bate palmas e se aproxima dela – Vai, me dá seu endereço que eu vou dar uma passada lá pra te visitar! Escreve aqui pra mim!

Ela, enquanto ri de forma tenra, mostrando que além do já relatado, um tratamento dentário também deve ser pedido ao Papai Noel, escreve o seu endereço no papel, agradece e vai embora. Toda a tratativa empreendida pelo Nestor demora 30 segundos e teve grande êxito.

Eu fico impressionado. Como aquele momento foi mágico! Um grande negociador esse Nestor. Conseguiu dar o que ela queria, de forma rápida e indolor. Afinal, ela não queria um B.O., tampouco uma viatura policial na sua casa. No confuso mapa mental dela provavelmente tais coisas estejam associadas a elementos de poder, que deve causar uma espécie de fascinação. Além do que, policiais tem como função obrigatória ouvir toda a sorte de impropérios da população e ainda assim dar alguma resposta. Ela precisava de um pouco de atenção, quem sabe algumas palminhas para sossegar sua alma. Na sua realidade, pouco importa a função da polícia. O significado palavra co-moradora menos ainda.

Percebi que eu havia sido um mau policial. Mais tarde entendi que ao nivelar todos, seja por cima ou por baixo, a gente acaba adotando uma espécie de atendimento, pensamento ou relacionamento padrão. Uma vez que a eficácia de tais ações se mostra nula, a gente diz pra si mesmo “bem... minha parte eu fiz”. No fundo, o problema continua, deixando porém de ser seu, afinal você fez o que o que seria de bom grado à qualquer um. É uma atitude preguiçosa, bem comum ao indivíduo do meio acadêmico, do meio do funcionalismo público e de outros tantos meios.

Já o Nestor mostrou que há outra forma de agir. A que pensa a realidade específica de cada situação e se posiciona levando tal realidade em conta. Não é uma atitude preguiçosa, pois subentende um maior tato e uma maior sensibilidade pra cada situação, o que é bem mais trabalhoso.

Diante disso, me ponho a pensar nas diversas formas de relações, instituições, organizações, que se vê por aí. Cheguei a uma conclusão triste: é extensivo o uso da atitude preguiçosa em nosso país.

Um país no qual cada vez mais a população é acuada pela bandidagem tem uma das leis de execuções penais (que regulamenta lances como a progressão de pena, os indultos e as saídas temporárias) mais brandas do mundo.

Um país assolado por escândalos como mensalão, mensalinho, mau uso das passagens aéreas, etc. têm um Congresso Nacional numeroso e que ainda entitula-se alicerce da democracia.

O bairro de Parelheiros, carente, carente, que receberia um grande afluxo de empresas com a construção do Rodoanel acabou por ficar ilhado e não terá alça de acesso à rodovia, pois deve-se proteger os macaquinhos e passarinhos do avanço do desenvolvimento. E eu também não poderei farofar na praia em 40 minutos.

Os exemplos são muitos.

Não se trata aqui de propor qualquer posicionamento político, mas eu pergunto: não seria mais eficaz pensar as leis e instituições dentro da realidade cultural e social brasileira? Algumas leis criminais, por exemplo, que levem em conta o atual status que um traficante ou ladrão possui na periferia, o que obviamente cria toda uma sorte de potenciais bandidos? Ou mesmo, uma democracia que não comprasse o discurso setecentista de Montesquieu ou de tantos outros e pensasse uma divisão de poderes mais ligada ao “mapa mental” do brasileiros?

Acredito que sim. Mas tudo o que vejo são mobilizações enérgicas de todos os tipos de ONG’s , pastorais, OAB’s, CREA’s, etc. gritando palavras de ordem como “Direitos Humanos” e “Salvem o mundo”. Acho tudo legal. Mas que são um tipo genuíno de Mobilização Enérgica e Preguiçosa, são.

Hoje, prefiro as atitudes Nestorianas. Mas tais atitudes têm seu preço. Dias depois ele me contou que andava no Shopping quando encontrou a “Menina!” de novo. Ela, além de reconhecê-lo, o cumprimentou com gritos e brados, tais como “Oi lindo!”, “Nossa você por aqui”. É... Definitivamente, pra cada ação há sempre uma reação. E esta reação nem sempre é uma forma de recompensa... Ossos do ofício.

O vício

Um verdadeiro viciado é aquele que sente saudades até da Bad Trip.

domingo, 21 de junho de 2009

Notas pra uma viagem

Para chegar , você deve tirar a bunda do so. Um bom conselho: MIre-se no seu objetivo. Caso se surpreenda com o que vê, não sinta de SI. Lembre-se que o SOL nasce pra todos, até para os que não merecem. Se ainda assim a impressão continuar ruim, caro amigo, é hora da marcha á .

sábado, 20 de junho de 2009

Eu não ligo!

O filme "Crash: no limite" termina com uma mensagem contundente: as relações humanas estão tão escassas, as pessoas se encontram tão carentes em relação umas as outras, que acabam por se chocar para sentir algo. Mensagem contundente, salvo engano anunciada pelo personagem de Don Cheadle, após ver o corpo de seu irmão mais novo morto com um tiro.

Acontece que ultimamente tenho conversado sozinho. Não do modo patológico-psicopático-doentio, em voz alta, mas do normalíssimo-charmoso modo de construir um enredo com vários personagens (ego 1, ego2, ego 3 são os nomes de batismo carinhosos que os dei), os quais interagem de forma tão profunda e intrínseca que me fizeram escrever o presente. Isso porque percebi que além de roteirizar meu diálogo interno, a situação atingiu o grau derradeiro. Tenho mentido descardamente para mim mesmo.

Vou explicar a situação. Quase sempre essas tramas que ocorrem no meu consciente baseiam-se em fatos da vida real. Ultimamente, por acaso, tem se baseado sobre as minhas investidas, bem sucedidas ou não, junto às mulheres. E, deve-se dizer, que tais investidas têm sido semelhantes à investimentos na BOVESPA em tempos de crise... fracassos...

O caso é o seguinte, tentando dormir, pensando em uma mensagem de texto não respondida pela Mariazinha (chamemos-a assim, para protegê-la de qualquer coisa que posse acontecer e não consigo declinar agora), surge um palco, um roteiro, Ego1 e Ego2 no centro. Em um diálogo rápido, Ego1, assumindo o papel de Mariazinha afirma que não responderá mensagem de texto nenhuma, afinal não liga pro que seu interlocutor faz ou deixa de fazer, tampouco se fica que nem um besta esperando o celular fazer um barulho de mensagem, o que acontece ás vezes, mas são seus amigos cachaceiros. Entra Ego2, dando de ombros, revela pela vestimenta encarnar no palco o autor que vos escreve e de forma terapeutica, quase num tom de auto-ajuda afirma:

- Escute Mariazinha, você responde a mensagem se quiser: Eu não ligo!

Tudo correria na maior normalidade, a encenação prolongaria-se de forma confusa pela madrugada, se não tivesse-me assombrado a idéia de que havia acabado de contar uma mentira das grandes para mim mesmo! Não se trata aqui de afirmar ter sido tal situação a primeira em que minto pra mim mesmo. Assim como todos os seres humanos, pelo menos os que conheço, as mentiras que se deve contar a si mesmo, ao lado das que os outros devem contar para você, são formas indíspensáveis de suportar a cretinice que se mostra, por vezes, na vida. O que me impressionou foi que tal mentira se revelava duplamente falaciosa, diante das conotações que a expressão “eu não ligo” possui.

A primeira dessas conotações é a de que eu não me importaria com a não resposta de qualquer demonstração de afeto, interessse, ou sei lá o que. Ainda mais uma SMS curta, simpática, falando sobre o interlocutor ao invés de falar sobre si mesmo, ou seja, de acordo com todos os protocolos internacionais de “Como mandar SMS para uma mulher com sucesso”. Claro que me importa a resposta da tal mensagem, nem que seja com uma análise ortográfica, dizendo se atingiu o tal padrão internacional almejado ou não.

Em outro sentido, mais literal: é claro que eu ligo. Ligo, porque com ou sem diálogos internos, peças e novelas, eu acabo pensando se Mariazinha não respondeu pelos famigerados “motivos de força maior”. Entre eles: acabaram-se os créditos, ela passa por uma fase difícil, não possui dois minutos sequer para responder a mensagem pois foi abduzida por extraterrestres e por aí vai. Na real, acho que enquanto o motivo não for ela arranjou um namorado que luta Jiu Jitsu e tem uma coleção de armas brancas em casa, os homens continuam ligando.

Não se trata aqui de eu estar subcomunicando ser “necessitado emocionalmente”. Conheço o manual, na verdade, os manuais, entre eles o Best-Seller “Como não ser um mané”, ótimo manual com conteúdo de auto-ajuda e amenidades. Sei que tal subcomunicação resultaria em um pecado e em um crime, na Sociedade Sagrada dos Homens Brutos, que se encontra toda terça a noite, no buteco da esquina. Pelo contrário, não há nenhuma subcomunicação aqui: estou comunicando nos canais comuns e diretos, pode ler aí em cima, tá na cara. Assim como todos os seres-humanos, sou “necessitado”.

Tal revelação deve-se a uma tese já consagrada que defendi por aí, nos butecos, que todos os seres-humanos têm sua dose certa de carência afetiva. Não trata-se aqui de demonstrar os procedimentos metodógicos usados, premissas teóricas, etc.. Talvez em outra cronica. O que se passa aqui é a seguinte mensagem: acreditem em mim, eu sei o que falo. Na hora de escrever esse conto, no meu trabalho, às 2h00 da matina, acreditei que teria bastante tempo para refletir sobre o que escrever, etc. mas, para minha surpresa meus colegas de trabalho insistem em falar comigo, acho que um deles levantou até de sua tumba para falar que a “Hipnose é coisa séria”. Assim, desse jeito que vos escrevi, sem sentido algum. O que pensar disso? É a mais pura carência afetiva!

Em minha defesa frente a bombástica revelação, tenho a dizer o seguinte: são duas da manhã. Isso é defesa, pois também compartilho a idéia, pra quem quiser ouvir, que o homem é um dependendo do horário, da circunstância, etc. Não se trata aqui de uma dualidade simplificada; É na verdade a forma mais aleatória de comportamento humano. Vai dizer que você já não percebeu a enorme diferença? Você, por volta das 7h00 da manhã no Domingo, assistindo Globo Rural, aumentando seu conhecimento sobre as codornas, com o dia todo pela frente, com possibilidades de tomar uma com os amigos, almoçar aquela feijoada da sua mãe ou mesmo, por que não, receber a resposta daquela mensagem que você mandou para a Mariazinha. Nestes momentos, você é dono de si mesmo, enfrenta o mundo de peito aberto, não tá nem aí praquela ex-namorada que te deu um pé na bunda, tampouco aquele canalha do seu amigo que lhe deve uma grana. Você é um Homem Bruto.

Agora neste mesmo dia, por volta das 22h00. Você está assistindo Fantástico, sozinho, olhando pra Patrícia Poeta. Seus amigos saíram com as respectivas namoradas, a feijoada te rendeu uma bela dor de barriga e a Mariazinha deve estar com o celular quebrado, só pode. Neste momento, acabou a blindagem da felicidade que você tinha. Você liga para a ex ou para o amigo, pra cobrar seu coração de volta ou os duzentos Reais. No caso deste último, para o qual você realmente ligará se não estiver bêbado, você precisa do dinheiro, pois bateram no seu carro e fugiram, você acabou de lembrar. No outro dia você terá de trabalhar, aguentar trânsito, chefe, tudo por um salário de miséria. Você é um infeliz. E mais ainda: é um mané!

Sabemos que esse lance de divisão do homem é críticado por correntes da psicologia, filosofia e por alguns intérpretes de “Como não se tornar um mané”. Porém, contrariando qualquer idéia holística, as mudanças de horário talvez sejam as formas mais elementares de divisão da realidade. Ora, se o homem é um em cada horário, quem dirá em cada ambiente, grupo social, situação... As possibilidades são infinitas.

É com base nisso que minha defesa se sustenta. Se sou muitos, posso falar comigo mesmo, jogar xadrez mental, xingar meus colegas de trabalho mentalmente e achar graça sozinho... Tenho percebido até que a dose de carência faz com que eu bata em mim mesmo, bem do modo que o filme Crash coloca. Talvez agora vejo algum sentido na tal situação desesperadora em que alguém se encontra, situação criada por essa própria pessoa e cedo ou tarde gera a dicotomia do “tudo ou nada”(All or None), cantada pelo Pearl Jam.

Definitivamente, é tudo ou nada: vou mandar mais uma mensagem pra Mariazinha!

Post inicial - Pensamentos refletidos

Andar com a cabeça erguida eleva a alma e o espírito e te livra de vários males. Entre eles, o complexo de inferioridade e o torcicolo.