quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Culpa o Carma?

Imagine-se como um chefe de uma seção qualquer, de uma empresa qualquer. Nesta pequena seção, você tem dois funcionários. Um deles, tem um grande apego ao seu trabalho, temente sobre as possíveis mudanças de mercado, sempre se esforça pra mostrar serviço, chegando no horário, fazendo horas extras, com uma atitude proativa e tudo mais.

Agora pense naquele outro funcionário, que nunca ligou pra qualquer projeção de futuro,não chega no horário, não faz horas extras, faz duas horas de almoço. Mas que consegue agradar a todos com seu jeito. Seu funcionário mesmo, acaba por se definir como um bom vivant.

Enquanto esta empresa encontra-se com um belo fluxo de caixa, tudo corria bem. Você até acha que os dois se contrabalançam, enquanto um trabalha, o outro canta.

E eis que no inverno, ops, na crise financeira, o que acontece? Você deve demitir um dos dois ou diminuir pela metade o salário de ambos. O que fazer, o que escolher: a cigarra, a formiga, ou as duas?

No fundo, no fundo, a gente não sabe como se portar. Pelo menos eu não sei. Ajudar a ambos, provavelmente demonstrando não ter nenhum problema de ter perdido parte do seu verão, ou melhor, lucro principalmente pela preguiça de um folgado inconsequente? Ou simplesmente virar a cara, escolher o bom funcionário, o que pode parecer justo, mas dói aos corações de qualquer ser humano com o mínimo de culpa ou teto de vidro?

Pra mim, ultimamente, tudo tem sido uma questão de ideologia. Ideologias, visões de mundo que ficam orbitando pelas duas possíveis formas de resolver a questão: A forma Católica e a forma Carmica.

( Mais uma teoria, ok!?)

Sobre a visão Católica, tenho que fazer um pequeno adendo: não é católica apenas, é uma visão de mundo da chamada culpa Católica. É que sempre fui criado em um mundo onde de tudo se tem pena, tudo se desculpa e no dos outros é sempre pior. É essa visão que me faz sempre achar estar errado, sempre tentar entender os motivos dos outros e sentir uma eterna dó de tudo que se move ou não.

E assim, como bom culpado, acho que despedir alguém dói demais, pobre do rapaz. E não para por aí, terminar com alguém, ser franco demais, devolver uma agressão justa, tudo, tem que ser pensado com base do seguinte preceito: “Ô, coitado...”

E cá entre nós, eu vivia bem com isso, até crescer um pouco e perceber que nem sempre há a segunda chance. Nem sempre a formiga dá comida à cigarra, nem sempre a dó surge no coração e a palavra de ordem muitas vezes é : “o que fizeste no verão? Cantaste? Então dance!”.

E como eu vi pessoas dançando, sendo presas no primeiro crime, apanhando na primeira folgada com alguém maior, sendo atropeladas na primeira desatenção no trânsito, morrendo na primeira troca de tiros como policial e por aí vai.

É aí que vem a visão Carmica, menos a derivada do hinduísmo e mais aquela do ditado: “aqui se faz aqui se paga”. Se há consequências por suas atitudes, não pense que você se livrará delas, é o que eu acabo ouvindo quase sempre. E ao invés das professoras condescendentes da escola, eu tenho as frias máquinas corretoras de vestibulares e concursos. Ao invés da minha mãe, que até quando me batia mantinha a cordialidade, o espírito maternal e, porque não, a camaradagem , eu agora tenho a polícia e a prisão aguardando qualquer deslize. É mais pesada a vida com o fardo de aguentar tanta responsabilidade.

O grande problema é que as duas visões de mundo são incompatíveis. É impossível ser Carmico se quando aquele amigo que te deixou de lado pela namorada te ligar você aceitá-lo de braços abertos. Assim como é difícil pra qualquer pessoa fazer com que alguém aprenda a pescar se todos os dias ele recebe os peixes de graça. “Ninguém compra a vaca se dão o leite de graça”, certo?

E hoje, confesso que tenho sido mais Carmico que Católico. Sem culpa, já devolvi algumas das coisas que me tacaram, com dor no coração, claro. E além de “rezar sobre a minha palavra para cumprí-la”, eu tento assumir responsabilidade pelo que faço. Mas é claro, às vezes tudo fica tão difícil, o fardo de ser responsável por si tão pesado que, confesso a todos, acabo procurando algum colo que ainda se ache responsável por afanar minha cabeça e dizer “tadinho...”.

sábado, 28 de novembro de 2009

Egoísmo, altruísmo...

Outro dia, na fila do Hospital, acabei por ver uma criança com imaginação fértil. O piso do Hospital era do tipo brega, daqueles que têm uma faixa bem grande de pisos diferentes no meio. Para aquela criança, aquela faixa se tornou um rio, e ela ficava pulando de um lado para o outro, tentando não pisar na faixa, o que significaria cair dentro do rio, claro! E ficou assim por muito tempo, em meio as pessoas que passavam no corredor, ignorando qualquer estimulo externo, desde as cadeiras de rodas que passavam à sua mãe gritando seu nome.

Vendo essa criança, outro guri acabou por se aproximar tentando chamar a sua atenção, quem sabe brincar em grupo. A outra criança consegue chamar a atenção da primeira, eles passam a brincar. Mas aqui vem a parte interessante: eles brincam, mas da brincadeira que a primeira criança, que a partir de agora será chamada de egoísta pra simplificar, decidiu.

Grande coisa não? Bem eu sei que parece besteira, mas eu estava de mau humor, então não vou ficar achando bonitinho duas crianças correndo. E como a falta do que fazer movimenta o mundo, acabei pensando o seguinte: talvez ali, naquela cena, esteja delineada uma máxima da minha filosofia butequeira, a Teoria do Egoísmo/ Altruísmo.

Já ouviu falar? Talvez em partes, mas desde já adianto que qualquer semelhança com outras teorias deve-se a uma crença minha. Uma crença que me fez sobreviver academicamente e ideologicamente: quando vejo algo bem escrito, bem formulado, algo que eu ache realmente bom, eu o homenageio assinando como meu. E acredito que isto não é plágio!

Em todo caso, explico-me: Na minha opinião, todas as pessoas têm uma dose de egoismo e de altruísmo, em uma certa proporção. Por egosimo, eu entendo uma carência, uma necessidade de que alguém faça algo por ela. Enquanto por altruísmo, o inverso: uma necessidade de se doar, de fazer algo pelos outros.

Sabe aquela pessoa “independente”? É na verdade, um nome bonito pra egoísta, o que segundo minha teoria indica que a pessoa possua uma grande concentração de necessidade que façam algo por ela. Sim, sim, pra mim o independente é carente, não foi erro de lógica, mas isso fica pra outra crônica.

Já no caso daquele cara chiclete, também conhecido como ursinho carinhoso, que vive em volta de alguém, respirando o seu ar, orbitando como um pequeno satélite pateta, temos o contrário. O ursinho nada mais é do que uma pessoa que tem muito altruísmo em sí, uma necessidade de se doar. Não por acaso, esse tipo de pessoa, em nome da doação, larga amigos, família, tudo pela pessoa com quem está.

Estão me acompanhando? Agora vem a grande questão, a qual escreverei em termos bíblicos para tornar-se uma máxima:

“Bem aventurados aqueles homens e mulheres que conseguirem encontrar a sua tampa da panela, ou seja, aquele que for justamente o seu oposto, pois deles será o reino dos relacionamentos bem-sucedidos”.

Traduzindo: o chinelo pro pé cansado, a cereja do sundae, a alma-gêmea de alguém pode ser encontrada por um calculo quase matemático. Exemplo: se você for 3/4 egoísta, deve achar alguém 3/4 altruísta. Em outros termos, se você tem 67,53% de altruísmo, encontre seu parceiro com a mesma porcentagem de independencia/carência e tu serás feliz!

“Oh grande Fábio, mas o que fazer se não encontrar alguém com a minha porcentagem? Será que nunca gostarei de ninguém?”. Calma colega! Primeiro de tudo, eu hesitei em deixar a frase anterior ( essa entre aspas), mas estou no meio da crônica, estou sentindo a sinergia, por isso ela fica. Em segundo lugar, sim você se apaixonará. Mas não pela casinha dos seus botões, e sim pela melhor opção disponível (isso definitivamente é plágio).

Sim, se você tem 70% de altruísmo, uma pessoa com 65% de egoísmo não é o par perfeito, mas pode ser a melhor opção disponível. Por isso, você ficará, tentará ficar, etc. com ela até encontrar outra melhor opção.

Sei que pode parecer estranho, principalmente depois de minha última cronica criticando o método científico, eu apresentar um texto teórico e cheio de números. Mas a graça é que os números fazem apenas parte do discurso, não sou psicologo, nunca testarei a teoria e usarei apenas a retórica, a mãe das Ciências baratas e etílicas, pra provar meu ponto de vista!

Em outro sentido, voltando a teoria, acredito que na nossa sociedade atual, existe uma tendência a se diminuir os chamados altruístas. Em uma sociedade cada vez mais indivualista e competitiva, aqueles que têm prazer em se doar acabaram recebendo o estigma de perdedores ou ursinhos carinhosos (como já dito).

Olhando as crianças, tenho duas considerações a fazer: a primeira delas se remete ao parágrafo anterior, isso porque as duas crianças estavam felizes. Embora pareça que exista uma relação de poder nas brincadeiras, uma vez que só a criança “egoísta” as escolhia, as duas crianças conseguiam sem nenhuma culpa, se divertir. Ninguém se achava dominado nem dominador. Afinal, é só brincadeira, como grande parte do que consideramos um relacionamento ou consideramos como vida.

Em segundo lugar, todos temos porcentagens de egoísmo e altruísmo. Por isso, mesmo que não haja melhor opção, ou mesmo nenhuma opção disponível, é sempre possível suprir as necessidades consigo mesmo. Quanto que você já doou a si mesmo hoje? Talvez saber se doar a si mesmo, por mais confusa que a construção da frase fique, seja uma boa forma de adquirir equilíbrio. E se eu, agora estivesse conseguindo me equilibrar só com uma perna, com certeza eu estaria pulando do penhasco ou rio, que os remendos bregas do piso daqui de casa me fazem lembrar.

sábado, 21 de novembro de 2009

Probabilidades (ou aquele do método científico)

O mundo de hoje é controlado por método, um pensamento científico. Desde meados do séc. XVII, talvez, a humanidade passou a mensurar, controlar, subjugar, normatizar qualquer tipo de movimento, objeto, ser ou outra coisa abaixo ou acima do Sol. Tudo que é sólido desmancha no ar, tudo pode e deve entrar na dança das infinitas pesquisas, leis e experimentações.


Então, pouco a pouco, ao passo que essa visão do mundo se proliferava, os jargões do tipo “não temos elemento para concluir positivamente sobre a existência disso ou daquilo", ou então “as probabilidades de tal coisa ocorrer são grandes” ou mesmo, “com base nisso, podemos inferir que” também eram usados por mais e mais pessoas.


A pouco, eu caí nas garras do método científico. Depois de sofrer uma queda, acabei fraturando minha fíbula (um osso que eu orgulhosamente desconhecia a existência). Assim, tive que recorrer a uma profissão mestra do método científicos, na qual a truculência e a frieza características, só podem ser comparadas a de economistas em tempos de inflação, políticos em eleição ou patrões em tempos de recessão. Os médicos, ao analizar a fratura chegaram ao diagnóstico cirúrgico pois “as probabilidades de sequelas eram consideráveis” e “não havia elementos que pudessem impedir que um jovem de 24 anos fizesse uma dessas cirurgias”.


O discurso foi comprado. E andando eu cheguei ao Hospital para ser internado. Por alguns dias eu fiquei num regime de enclausuramento, com várias formas de tortura, que não deve nada à uma prisão. A própria prisão é outro local claramente criado pelo método científico, pois é preciso evitar que algum criminoso, indivíduo com fortes indícios de peversão moral, possa cometer mais crimes se solto.


Ao retornar,eu tinha alguns quilos a menos, dois pinos colocados em ossos diferentes, uma terrível dor nas costas com um hematoma causado pela anestesia e, mais importante,um pé cortado em três lugares, dolorido, dilacerado e não-funcional. É engraçado o fato de se chegar ao Hospital andando e sair com muletas e cadeira de rodas, ainda mais pensando que a cirurgia foi um sucesso. O interessante é que essa dor que sentirei nos próximos meses, somada ao fato de ter de ficar de molho em casa, afastado do trabalho, dos amigos, das namoradas, da faculdade e da vida, tudo isso, diante das probabilidades da sequela posterior deve ser minimizados.Os médicos “fizeram aquilo que devia ser feito”, máxima do método científico e de políticos tucanos.


Mas ponho-me a pensar: as probabilidades são tão poderosas assim? Quanto que havia de probabilidade, de início, que eu pudesse cair e quebrar a perna? Um por cento, dois? E ainda assim, eu caí, não?


Acho que o que mais me dói hoje não foi o que o método científico fez com meu pé. Não, cedo ou tarde eu melhoro, não há indícios que isso não ocorra. O que foi bem pior, foi o corte feito na minha alma, na minha visão de mundo. Isto porque eu acabei por ver um mundo pelas probabilidades também.


Há pouco tempo, ao aconselhar um amigo que terminou o namoro, eu usei os jargões, afinal ele “vai ficar um pouco mal agora, mas diante das pequenas possibilidades de que sua namorada mude, no futuro vai ser melhor”. É fato que as possibilidades são pequenas de alguém mudar, mas tal qual as possibilidades que existiam da minha queda, ela não pode se realizar!?


Eu tenho procurado indícios pra tudo, eu tenho calculado grande parte das minhas ações, votando os prós e contras de qualquer atitude... Eu virei um médico, um político, um economista, um engenheiro, um diretor de presídio. Mas, caros amigos, existem fortes indícios que milagres médicos acontecem, as estatísticas de intenção de voto se enganam, economias se recuperam sem aumento da taxa de juros, pontes e viadutos caem e pessoas se arrependem de seus crimes. O que fazer, então? Simples. É só ignorar aquilo que não encaixa no meu modelo de pensamento. Posso até chamar estes indícios contrários de “fatos residuais”.


Embora tenha nascido depois que o método científico já tomou conta do mundo, eu tenho saudade daquilo que não vi: um mundo onde tudo podia acontecer. O amor acontecia, as pessoas podiam mudar, Deus controlava aquilo que Lhe é de direito, a cada esquina um milagre ou uma desgraça podia acontecer. Concordo que “o céu de Icaro tem mais poesia que o de Galileu” . E neste mundo, nesse passado distante e idílico, eu estaria com minha perna inteira, claro! Pois onde tudo pode acontecer, “provavelmente haveriam mais chances” de eu ser um pessoa cautelosa.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Deja Vu

Ultimamente tenho me sentido um pouco estranho. Algumas voltas na vida, alguns breves momentos de incerteza e as grandes dúvidas sobre o futuro, fiéis atormentadoras, reaparecem. Não que se trata de um momento pessimista: trata-se de uma constatação pessimista. Isto porque, depois de ver as várias situações em que a gente se coloca, cheguei a uma conclusão: o índice de depreciação da vida humana é muito alto.

Por depreciação, eu entendo aquele lance que faz o valor das mercadorias caírem á medida que a sua data de fabricação de torna mais distante. Esse processo tem uma evolução de certa forma linear, sendo no entanto acelerado por descontos no IPI ou crises internacionais.

Até aí, tudo bem. Mas o complicado é que, ao meu ver, ela também existe nos seres humanos. A medida que o tempo passa as responsabilidades são maiores, o que acaba fazendo as opções menores.

Quando falo de responsabilidade, não falo só daquela responsabilidade objetiva, como pagar contas, prover a casa, criar filhos, etc. Falo também das respostas que temos que dar a nós mesmos que com o passar do tempo ficamos muito mais críticos e chatos. Existe uma idade que os porres deixam de ser engraçados e começam a ser coisa feia, idade esta que espero não ter alcançado ainda. Ou mesmo, aquele emprego que te dava uma grana boa até dois anos atrás, hoje já não é tudo aquilo. Os foras são mais doloridos, a recuperação mais difícil, as brigas são mais banais e ao mesmo tempo mais intensas. Tudo ganha um ar de mais grave, a ponto que uma viagem deve ser totalmente preparada. Parece que até os dias passam mais rápido depois que se passa dos 20 anos.

Analisando a expressão “homem de meia idade” que seria alguém com 50 anos aproximadamente, me pergunto: será que aos 50 estamos na “meia idade”? Sei não, viu!? Não só porque não acho que viverei 50 anos. Pensando na vida como uma parábola, tô começando a achar que o ápice está bem ali na casa dos 20 anos. O resto é só uma lenta e dolorosa descida. Exemplo: quando mais jovem, há longínquos 6 anos, a gente praticava esporte a qualquer hora, com qualquer traje, etc. E ainda tirava o sarro dos idosos de trinta anos, que dias após a prática esportiva ainda sentiam na pele (e nos músculos) as consequências atléticas. Hoje, considero que a prática de esportes deva ser banida da humanidade e não jogo nem palitinho sem aquecimento.

O verdadeiro rito de passagem provavelmente seja a compra de um colchão inflável. para acampar. A partir do momento que se assume ter dor nas costas, chegamos a vida adulta e ao início da decadência.

Que fique claro que tudo isso possa ser só pessimismo passageiro, causado por uma combinação explosiva de várias drogas, entre elas cerveja, pinga e músicas do Lulu Santos. Ou mesmo, talvez a depreciação venha desde o nascimento, por existis em várias outras situações. Mas é que chego a lembrar saudosamente de uma época da juventude onde qualquer R$ 100,00 era motivo de viagens aos finais de semana para vários locais paradisíacos como as praias de Ocian, Boqueirão ou Aviação. Lembro que sempre começávamos a viagem tomando Smirnoff e Sprite, ouvindo Zeca Baleiro, rindo de situações corriqueiras e dormindo em colchões ortopédicos. Mas como o dinheiro era curto e a loucura grande, dias depois, com o indice de depreciação na carteira, estávamos tomando Dolly Limão com Vodca Balalaika ouvindo Bruno e Marrone, chorando nossas amarguras e dormindo na privada.

E lembrando de tudo isso, ainda acho que aquele tempo era melhor que hoje.

Uma vez recebi um email que falava sobre como até na música, tudo tinha uma tendência pra piorar. Não era bem esse o tema, era mais sobre como pra cada acidente, morte e desgraça que ocorre com algum artista de qualidade (por exemplo, Herbert Vianna, Chico Science, Renato Russo) uma infinidade de coisas boas acontecem aos pagodeiros e outros “músicos” (Belo escolhendo entre a Gracianne Barbosa e Viviane Araujo, Daniel fazendo novela e por aí vai). Até os Los Hermanos estão de férias indeterminadas hoje em dia.

E enquanto isso, nas paradas de sucesso de todo o Brasil estão várias músicas da grande banda Deja vu. Essa banda, com seu estilo inigualável e sua vocalista de voz excêntrica, conquistou o coração de todos aqueles que alguma vez já frequentou algum bordel, foi ao Patativa, Centro de Tradições Nordestinas, etc. E se você não fez nada disso mas já dormiu na rua, assistiu pornanchanchada ou já sentiu uma pulsação estranha em dias de lua cheia, esse também é o seu som.

Lembro-me que jurei nunca ir a um dos lugares que tocavam e nunca dançar ao som dessas músicas demoníacas.

E acho interessante como as pessoas são parecidas. Na última festa que fui, escutei um garoto de uns 15 anos dizer a mesma coisa, jurar do mesmo modo que jurei a anos atrás. Foi quase um Deja Vu!

Mas a bem da verdade é que era Deja Vu mesmo, rolando a toda altura, enquanto eu me engalfinhava como uma dona chamando-a de “princesa” e “coração”. Eu tinha me embebedado com cerveja Bavaria quente, sabe como é né... Resultado: dormi na rua.

Decadência, decadência...

Obs.: este é um texto fictício, qualquer semelhança com qualquer coisa que o autor tenha feito é mera coincidência. Ou seja, eu não dormi na rua...Nem tomei Bavaria... ainda.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Timing

Luiz chega a sua casa depois da bebedeira. É sábado à noite. É uma da madrugada. Temendo a ressaca iminente toma um Engov e o gosto amargo do santo remédio o faz ter vontade de vomitar. Seus vômitos são experiências transcendentais, ele bem sabe. Por várias vezes, só continuou vivo porque ele seguiu conselhos e não correu para a luz. Voltou para a escuridão nas experiências quase morte, continuou vivo em seu banheiro, mas acredita que só está ainda nesse mundo porque tinha alguém pra segurar sua cabeça. Ah! Esqueci de mencionar, Luiz está sozinho. Mais do que sozinho momentaneamente, Luiz se sente sozinho em toda a sua existência, estado piorado pelo alto teor de álcool em seu sangue. Decide dormir, afinal não tinha mais o que fazer, sem contar que a bebedeira o fará dormir tranquilamente, sem ficar revirando-se na cama como têm feito nas noites passadas.


Enquanto se aconchega no seu colchão ralo, tentando uma posição que no eventual vômito involuntário não provoque um sufocamento, Luiz recebe uma ligação. A música ridícula de seu telefone chama sua atenção para o visor, que brilha no quarto escuro, e que indica que Cássia, um antigo rolo queria falar com ele. Ele atende o telefone, com voz enrolada e pastosa:


-Alô, Cássia?


-Oi Gatinho! Onde você ta? – Luiz estranha a voz enrolada e pastosa de Cássia, mas acredita que talvez sua audição é que tenha ficado cremosa demais, talvez por um cérebro derretido com o Etanol.


- Oi, estou em casa. Como você tá? Tudo bem?


- Tudo bem sim. Mas você sabe como eu realmente estou? Estou nua, doidinha pra te ver, gostoso. Vem aqui em casa, que eu to louca de tesão por você!


Luiz sente como se tivessem injetado glicose em seu sangue. Como um milagre, levanta-se da cama, sentando em sua beirada e após duas gaguejadas, responde com uma voz firme e interrogativa:


-O quê que deu em você? Ficou com vontade de me ver do nada?


-Não interessa. Eu quero te ver! Vai me deixar aqui desse jeito, seu cachorro – Ela fala com voz extremamente sensual.


Luiz pensa como a sorte lhe sorriu. Mas estava bêbado de mais para dirigir até a casa de Cássia, podia também acabar ser pego pela PM. Ele diz no telefone:


-Claro que eu vou te ver, mas hoje não dá. Mas amanhã sem falta eu vou te ver. Pode ser?


- Tá bom, você vai me deixar sozinha hoje, mas amanhã você vai ser meu.


A conversa se desenvolve um pouco mais, até que desligam. Luiz está agora um bêbado radiante.


No dia seguinte, porém, ao chegar na casa de Cássia, a moça parece nem lembrar do que havia sido combinado na noite passada. Encontra Luiz de pijamas em plena 20h00 e após ser cientificada do que trazia Luiz até sua casa, ela responde sem graça:


- Vixe, ontem eu estava muito bêbada. Deixa isso pra lá.


Embora Luiz insista, Cássia é irredutível e não sai com ele.


Após culpar até Deus pela situação inusitada, Luiz decide ir pra casa e aproveitar seu ralo, porém confiável, colchão.


Uma semana depois, sem estar bêbado dessa vez, Luiz recebe outra ligação de Cássia,também em horário bandeira 2. Cássia, mais uma vez levemente embriagada, tenta convencer Luiz a ir até sua casa na hora. Mas o carro de Luiz está no conserto e ele argumenta com Cássia sobre sua ida de ônibus, num primeiro horário no dia seguinte. Também afirma que a mesma deveria anotar tudo que estava dizendo, pra não esquecer na primeira ressaca. Cássia concorda com todas as claúsulas.


Mais uma vez, no dia seguinte, agora às 15h00, Cássia afirma não se lembrar de nada. E adverte:


- A partir de hoje não leve mais a sério o que eu falo bêbada. São pensamentos e vontades efêmeros, que passam na primeira visão de sobriedade.


O que Luiz aprendeu nessa questão? Mais ainda, o que essa história tem a ver com você, Leitor(a) que me acompanhou até agora. Na verdade, pouco ou nada. Mas uma coisa ela tem de importante: Tudo tem alguma duração.


Como a inscrição para uma prova, um curso ou qualquer outra coisa, vários aspectos da vida têm prazo certo. Uma vez que você não exerceu seu direito no tempo estipulado desista. Não tem mais jeito.


O Direito Penal tem uma categoria especial que demonstra esta teoria: o prazo decadencial. O lance é mais ou menos o seguinte: alguns crimes por sua natureza transitória são condicionados à representação (o processo só corre pela vontade da vítima), que por sua vez tem um prazo de 6 meses para ser exercida. Decorrido o prazo, adeus processo. Por isso, para não tornar esse exemplo no mais inútil do mundo, caso você seja barraqueiro o bastante e planeje processar alguém por ameaça, lesão corporal, injúria, calunia, preste atenção nos prazos.


O lance dos prazos também está presente em outras questões das relações humanas. É como um namoro que terminou que aproximadamente tem dois meses para ser reatado. Passado este tempo, provavelmente a coisa esfriou e o reatar pode significar danos irreversíveis de alguma das partes. Mesmo a ligação que se faz bêbado ao término de qualquer relacionamento tem um mês contado para ocorrer. Se este prazo se esgotar, o “volta pra mim” ganha conotações tão humilhantes e pedantes, que nunca vai ser respondido com um “sim”, mesmo que as partes sejam almas gêmeas.


Um feliz aniversário atrasado só até uma semana depois da data correta, por favor!


Pra quem depende de transporte público: existem vários aspectos importantes da Filosofia e Psicologia levantados quando se corre atrás do ônibus! Afinal, perder o seu horário de passar é perder qualquer chance de pegá-lo. O que nos resta, pobres envoltos no Rodo Cotidiano: praguejar e reclamar, sem nenhum alvo especifico.


Por isso, nada como o Timing perfeito. Fazer aquilo que deve ser feito, no momento certo e do jeito certo. A exemplo de Luiz, meu amigo imaginário, que nesta noite abasteceu seu carro, tomou banho, colocou sua melhor roupa, calçou um sapato, se perfumou, etc. Não, ele não vai sair. Vai dormir. É que ele não quer perder mais nenhuma chance e afinal ligações tardias e os desejos são quase sempre imprevisíveis.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Contatos mediados e imediatos

Ana está entediada, jogando paciência em seu computador enquanto suas unhas dos pés secam após ter passado um novo esmalte rosa. Pensa sobre amenidades e sobre coisas importantíssimas, simultaneamente, tendo para cada início de pensamento um desfecho melodramático e depressivo. Pensa no seu ex, no teto de seu quarto que está mofando, na sua carreira como aeromoça, se deveria jantar agora ou mais tarde... Definitivamente, a única conclusão a que ela chega é que está entediada. A sua meditação só é interrompida por uma mensagem recebida no celular, onde o remetente, um número estranho com prefixo 86, afirma ser do SBT e que Ana tinha sido contemplada com um prêmio. Após ligar para o número que solicitaram, Ana vem a saber que havia ganhado uma casa e um carro 0 km, os quais receberia tão logo fizesse a compra de alguns cartões de recarga para celular e passasse esses números ao atendente.
Ana não pode esconder a empolgação, tanto que se esquece de suas unhas pintadas, coloca um tênis e corre para a lotérica mais próxima. No caminho, pensa como dessa vez ela faz parte de algo, como talvez toda a tristeza que sentia tenha sido um crédito com Deus, que agora lhe dera uma casa. Ela sente algo que não sentia há tempos, essa mistura de felicidade e excitação que acredita ter havido no início do namoro com o “Ex”, mas que tinha se perdido no meio do caminho. Talvez agora com essa casa e esse carro ela seja capaz de superar o que ocorrera e partir pra outra. Quiçá tripudiar de seu “ex” passando em frente à sua casa com seu novo carro e um novo paquera. Ana se sente excitada.
Acontece que após passar os números de recarga Ana descobre que tudo se tratava de um golpe e o atendente e o remetente da mensagem estava baseado em algum presídio Piauiense.

*************************************************************************************

César está carente, assistindo Zorra Total no sábado à noite, após ter comido pizza em excesso com seus pais. Fica sentado, esparramado, com o controle-remoto nas mãos, pensando sobre como precisa assinar uma TV a cabo ou arrumar uma namorada. Pensa, como sempre, em uma gatinha que tem paquerado mas que parece não querê-lo. Será que valeria a pena ligar pra ela? Ou é melhor se fingir forte e resistir? Definitivamente, a única coisa que ele sabe é estar carente. Sua auto-lamentação é interrompida com a vibração do celular. Uma mensagem! César sente um aperto no coração que se torna mais forte quando vê o remetente: é ela! Põe-se a ler a mensagem, que em tons libidinosos revela aquilo que César sonhava: ela o quer. Ela o quer maliciosamente.
César estranha levemente o conteúdo da mensagem, mas sente um misto de espanto e felicidade. Uma combinação de sentimentos que o remete a um episódio de sua infância, quando ganhou uma bicicleta nova de seu pai sem mais nem menos, um presente fora de época. É essa alegria que sente agora, decidindo levantar-se daquele sofá e caçar o que fazer. Não responderá nenhuma mensagem hoje, promete a si mesmo, e por isso decidi ir estudar pro concurso que vai prestar em breve. É hora de pensar no futuro, diz ele. Acaba estudando por duas horas e logo depois vai dormir, com um sorriso no rosto. César se sente completo.
No dia seguinte, responde a mensagem recebendo em seguida a resposta, onde a moça pedia desculpas pelo escrito no dia anterior, foi tudo uma questão de erro na escolha do destinatário. Era tudo um engano.

*************************************************************************************
Carlos está triste, navegando em páginas da internet enquanto faz seu login no MSN. Seu time perde há cinco rodadas, sua mulher o deixou e seu emprego cobra muito e paga pouco. Enquanto procura algo para distraí-lo, espera ansiosamente encontrar alguém on-line para desabafar. Não encontra ninguém, o que aumenta a sua amargura.
Carlos se lamenta, praguejando contra a vida e Deus, quando se surpreende com uma mensagem instantânea de Lucas, seu amigo, mandando-o clicar em um link para ver algumas fotos. Carlos recusa-se a clicar no link, dizendo que na verdade precisava desabafar, passando a escrever desenfreadamente sobre suas situações complicadas na vida financeira, esportiva e, principalmente, amorosa. Toda a conversa se assemelha a um monólogo, que acaba minutos depois, quando Carlos já se sente bem o bastante para agradecer Lucas por tê-lo ouvido e ir embora. Decide que não vale a pena sentir pena de si mesmo. Despede-se de Lucas, fecha seu MSN, e se põe a pensar em coisas boas que tem em sua vida, como sua saúde, família e amigos, que como Lucas, podia contar sempre. Carlos se sente feliz.
Uma coisa que Carlos não sabe é que Lucas não estava no MSN naquela noite. Encontrava-se a dezenas de metros de um computador, em uma piscina, numa festa temática havaiana. A mensagem on-line mandada a Carlos não passava de um vírus, o qual ele não clicou por achar-se depressivo demais para ver fotos de mulheres nuas.

*************************************************************************************

Três histórias fictícias? Ou não? Até que ponto somos já fomos um pouco Ana, César ou Carlos e ficamos esperando sinais pra mudar a nossa vida como sabemos que precisamos.?Será que realmente tem algo a ver ganhar uma casa pra superar aquele fim de relacionamento? Ou supostamente ganhar uma gatinha e estudar praquele concurso? Ainda, uma vez que tudo pode ser ilusão e pulsos eletrônicos traduzidos em palavras podem revelar mensagens tão ocas e falsas é mesmo de bom grado basear decisões importantes nessas coisas?
Muitas vezes os sinais só revelam aquilo que já sabemos e talvez, sem eles, saibamos que seja hora de superar aquele término, estudar para aquele concurso ou ter um pouco de auto-estima. Mas se ainda assim precisarmos de algum empurrão ou sinal, uma boa olhada no espelho pode ser mais eficaz que uma bela mensagem de amor.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Mea culpa

Bem pessoal, esse blog foi criado pra publicar textos meus, que como pode-se deduzir vendo-se a minha descrição, não sou uma pessoa lá muito regular. Por isso, tenho me policiado para publicar um texto ao menos uma vez por semana, nos dias de quarta-feira. Tudo por questões místicas e cabalisticas, embora eu não saiba apontar nenhuma.
Além disso, o texto que publiquei hoje é um conto, pelo menos acho eu acho que podemos chamá-lo disso. Tenho grande dificuldade em escrever esse tipo de texto. Por isso, peço um desconto e quero que saibam que pelo menos em um aspecto eu sou igual ao Luis Fernando Veríssimo: eu li na Capricho dessa semana que nós dois temos 85 kg, ou seja o mesmo peso!
Sobre bons contos, gostaria de recomendar um blog de um grande amigo meu, que é cinza, mas também revela algumas cores belas como azul-turquesa ou amarelo-canário: http://bluesliterario.wordpress.com/
E por último e muito mais importante, gostaria de agradecer a todos que lêem as eloucubrações desse blog! E deixar claro que se as vezes não retribuo a altura e sou relapso é que em certa medida eu sou parecido com o Einstein: ele é gênio e eu não, mas nascemos no mesmo dia do ano!
Grande abraços a todos!

Herman

Trata-se do IV Congresso de Ciência de Borda. Por definição, essa é uma área das ciências que estuda aquilo que ao mesmo tempo é mais esdrúxulo e moderno. Combinando diversas áreas, desde a Metafísica à Sociologia, essa área das ciências é tida como o grande ninho para cientistas malucos e geniais, idéias esquisitas e originais, usuários de drogas sintéticas ou nerds. Talvez por isso, esses congressos sempre despertaram a curiosidade de Jonas. Ele, talvez por possuir algumas idéias malucas e secretas, acabou por ir escondido nesse congresso. Seria motivo de chacota se algum amigo seu viesse a saber de seu interesse, por isso com bastante discrição ele sentou-se na primeira fileira, bem no canto, como se quisesse estabelecer uma rota segura de fuga, coisa tão necessária para tantas coisas na vida.

Mesmo sendo um congresso para poucos, o auditório encontra-se razoavelmente cheio, muito pela figura da próxima explanação, um tal Dr. Herman, também conhecido pela alcunha de Dr. Cuco por suas idéias estranhas e insanas. Trata-se de um congresso para loucos, em grande maioria são eles que povoam o auditório, mas mesmo assim o Dr. Cuco é uma figura considerada "acima da média". Suas idéias têm pouca ou quase nenhuma aceitação, e segundo os fofoqueiros ao lado de Jonas, essa situação só tem piorado, quiçá por uma demência adquirida pelo Dr. Herman ao longo do tempo. Sabe-se de seu passado brilhante, mas esse aspecto perde importância quando o desejo de um grupo, o das aproximadamente de quarenta pessoas que se esparramam pelo auditório, é simplesmente criticar e tirar sarro de alguém, no caso o Dr. Herman, ou Dr. Cuco, como preferem.

Jonas sente-se um pouco nervoso pois está sentado ao lado de dois senhores falantes, que se divertem infantilmente com o apelido do Dr. Herman, seus trejeitos, seu atual descrédito, etc. Pessoas entranhas, pensa Jonas, talvez não tenha sido uma boa idéia ter vindo. Mas Jonas está acuado, sua rota de fuga foi tomada por um cientista obeso com cara de boçal, tornando complicada a sua eventual passagem pelo estreito corredor entre as cadeiras. Jonas começa a pensar sobre outro rota de fuga auxiliar, mas é tarde. Entra no auditório o Dr. Herman.

Dr. Herman é uma figura sui generis. Com um cabelo desgrenhado, um rosto germânico fino, um pequeno bigode, um porte físico magro e um jaleco branco que vai quase até os seus pés, ele parece fazer jus ao apelido que lhe deram. A platéia já contribui com vários sussurros e risos baixos, sem mesmo o doutor dizer uma palavra. Ele chega ao púlpito com vários livros, os coloca em cima do balcão de forma desengonçada e arrumando seus óculos, fala de forma rápida, baixa e sem pausas:

- Bem, hoje eu estou aqui para apresentar minha nova teoria. Nos últimos anos, tenho dedicado meus estudos às questões medicas e metafísicas. Em meio as minhas pesquisas, que se concentraram sobre a questão dos pontos vitais de um ser vivo, pude chegar à conclusão de que os pontos vitais de um ser humano estão concentrados em grande parte nos membros, nas extremidades do corpo. Consegui identificar ao todo sete pontos, tendo sido dois deles no tórax e outros cinco nos membros e na cabeça.

Os “doutores” ao lado de Jonas vão ao delírio com a explanação. Não tentam mais esconder os risos, chegando inclusive a falar em voz alta que o Dr. Cuco havia enlouquecido de vez. A platéia como um todo tem reação parecida, algumas pessoas menos discretas que as outras. Jonas sente-se desconfortável com a situação e se irrita com a falta de respeito para com o palestrante. No entanto, prefere ficar quieto, talvez prestando atenção na explanação do Dr. Herman, os outros se toquem e sigam seu exemplo.

- Os resultados a que cheguei são baseados em grande parte a teorias orientais, onde a questão dos pontos vitais encontra maior importância, como no caso da Acupuntura, por exemplo. Em todo caso, minha pesquisa prenuncia a possível descoberta dos motivos da eventual morte por ferimento à bala em determinada parte do membro, frente à vida em casos de ferimento à bala em membro igual, em local distinto.

A platéia foi à loucura. A questão do exemplo que Jonas queria dar não funcionou. Pelo contrário. Os presentes já não prestam mais atenção na palestra, como se protestassem contra tamanho impropério falado pelo Dr. Herman. Intocável, assim como uma pessoa com problemas psiquiátricos, o Dr. Cuco permanece igual e continua mono tônico e sem pausas:

- O que nos leva a concluir que os pontos vitais localizados nas extremidades têm maior importância do que os localizados no centro. Aquilo que se encontra na ponta, nas extremidades, nos cantos, quase é aquilo que carrega a essência, em termos filosóficos, metafísicos, ocultos e, agora, científicos.

Jonas tem um insight com a ultima frase do Dr. Herman. Lembra-se da noite passada, aquele sábado, em que encontrou com a moça que se encontra apaixonado. Mariana é o seu nome, sendo que as circunstâncias do encontro não eram ideais: foi em meio a uma festa, com música alta, pouca iluminação, homens a azarando e mulheres tirando Jonas pra dançar. Em todo caso, enquanto estava na festa, pouco Jonas conseguiu retirar de Mariana. Apenas os sorrisos de sempre, muitas vezes um pouco amarelos talvez porque a moça não entendia grande coisa que ele falava, em grande parte pelo som alto, em menor parte pelos outros que se intrometiam o tempo todo nos assuntos. Mas uma coisa em particular fez com que Jonas tivesse a certeza das intenções da garota. Foi em meio a uma dança de Jonas com outra garota, coisa de milésimos de segundo: um olhar, de canto de olho, demonstrando que toda afeição e consideração que Jonas nutria pela moça eram recíprocas. Um daqueles olhares que duram pouco, não deve ser percebido, mas quando é acaba por entregar em um segundo o que vêm se escondendo há tempos.

Foi a lembrança desse olhar “de canto de olho” que o fez sorrir de alegria, não no meio dos flashs da festa, mas na sua cama, em sua casa, mais precisamente no canto de seu quarto.

Ele passa a pensar nos sinais do canto, enferrujados, que existiam em sua vida, sempre preteridos frente aqueles sinais em néon, do tipo, “compre”, “case-se”, “viaje”, “corra”, "faça". Refletindo sobre os erros advindos das infinitas vezes que seguiu os tais sinais brilhantes, Jonas começa a pensar sobre os eventuais destinos que os sinais enferrujados, tais como as placas que indicam as direções em uma rodovia, podiam levar. Será que se ele tivesse seguido a placa escondida do "perdõe", ao invés da rosa púrpura "brigue" ele teria se afastado de tantos amigos? Ou mesmo, a placa do "pense" ao invés do "compre" provavelmente o faria ter espaço em seu quarto, tomado por bugigangas que ele nunca usou ou usará.

Na parapsicologia, não é a visão periférica a responsável por captar toda uma série de fenômenos, como as aparições de fantasmas? Ou em meio aos ruídos da estática televisiva o contato com os mortos?

Jonas se lembra da sua sala de aula, quando uma parte dos alunos vivia buscando o holofote, enquanto outros preferiam o anonimato e sombra. Lembra de ter contabilizado e descoberto que a grande parte daquelas estrelas virou adultos fracassados, enquanto os que ficavam nos cantos, nas sombras, tiveram um fim diferente e mais feliz.

"Deus está nos detalhes", pensou Jonas, jurando ter lido essa frase em algum lugar.

Enquanto se perdia pensando sentado em sua cadeira, a palestra do Dr. Herman terminava. Os ouvintes aproveitaram para sarcasticamente bater palmas para Herman, gritando "Dr. Cuco gênio", na intenção de humilhá-lo. Claramente conseguiram. O esguio Herman prepara-se para sair do púlpito quando de repente, vira seu rosto para Jonas e com satisfação dá um leve sorriso. Jonas, da mesma forma instantânea olha para o Doutor e retribui o olhar, agradecidamente, revelando ter entendido o que o Doutor queria dizer. Ainda mais, mostrando com um breve olhar, quase de canto de olho por estar no final da primeira fila, que concorda e compactua com as idéias do Dr. Herman ou Dr. Cuco, que importa.

Doutor Herman saiu do auditório com sorriso no canto da boca, com grande satisfação. Nunca foi sua intenção fazer com que todos da palestra entendessem o que ele propunha e teorizava. Talvez, todos estavam centrais demais, tendo reações pouco pessoais quando o holofote está em cima de si. Não, Dr. Herman sabia que o seu trabalho não seria compreendido por todos. Mas ficou feliz em saber que ao menos uma pessoa, aquela que estava no canto e prestou atenção no que ele disse e achou tudo interessante.

"Deus está nos detalhes", pensou Doutor Herman.