terça-feira, 13 de março de 2012

O Pródigo


Certo homem tinha dois filhos. O mais moço, em um rompante de auto confiança pede a sua parte na herança e sai pelo mundo. O mais velho continua com o pai, mostrando-se obediente, fiel seguidor.

O mais novo conhece o mundo e o que é ser mundano e vivendo sem qualquer limite, esbanja toda a sua herança. O mais velho, por outro lado, continuou a trabalhar na fazenda do pai, dia após dia, buscando a aprovação daquele que em tese era um severo homem.

Sobreveio a fome: para o mais novo, a fome literal, com sua nuances desoladoras; para o mais velho, a fome em meio à fartura da fazenda, afinal um bom filho não usufrui ou gasta nada, apenas obedece e trabalha.

O mais novo lembrando-se de como o pai é bom, cai em si, decide voltar e por um milagre é recebido por seu pai de braços abertos, um bezerro dos gordos e uma grande festa. O mais velho, ao ver tal milagre fica indignado, afinal nunca recebeu qualquer pão com carne, decide interrogar o pai sobre a suposta injustiça. E recebe a seguinte resposta:

“Filho,o que é meu é seu. Mais cumpre-nos nos alegrar pois seu irmão estava morto e reviveu. Estava perdido e foi achado.”

Início bíblico, hein!? Quem diria!? Mas o motivo de usar uma das histórias mais lindas já contadas é simples: é fácil identificar em cada um de nós um perdido, que decide pegar boa parte do que recebeu da vida e se aventurar por reinos estrangeiros e estranhos. Sempre concordei com o ditado que diz que a grama do vizinho é mais verde, o que explica grande parte das puladas de cerca, muros, fronteiras. Quantos que me lêem já não ignoraram seus limites em nome de um espírito aventureiro?

A vida com regras em demasia causa isso na gente, uma revolta, uma vontade de fugir, de ver os próprios limites quebrados. E aqui, falo de todos os tipos de limites, desde os morais até os físicos. Entendo ser fácil encontrar perdidos em bares, boates ou casas de swing, mas também os temos em locais inusitados, em delegacias, relacionamentos amorosos ou restaurantes Fast-Food. Pegar parte da sua herança, seja ela intelectual, emocional, espiritual ou física, e gastá-la é praticamente uma das definições do que é ser um humano: falho e imperfeito.

Não cabe aqui uma crítica ao ser/estar perdido. É bom se perder, sendo esse, sem dúvida,o primeiro passo pra ser achado. Foi com base nisso que aquele que vos escreve viveu grande parte dos últimos anos. Tomando parte da minha herança, o ex-jovem promissor decidiu se perder no mundo. Longe principalmente da universidade,  mas sem prejuízo se distanciar de outras coisas boas, testou seus limites, conhecendo o que era mundano, com o inevitável fim de, em dado momento, apascentar porcos e viver em meio à lama.

É nesse período que se tem grande chance de tomar rumo, olhar pra trás e lembrar de como era bom viver sem herança, mas na casa do pai. No meu caso, além de outros aspectos, recordar-me como era bom ser um estudante, estar em formação, em todos os sentidos, me livrando das opiniões formadas, das verdades absolutas em troca da riqueza de ser um eterno aprendiz. Mas não foi isso que aconteceu, ao menos a princípio.

Isso pois à duras penas, descobri que estar longe não diz respeito apenas ao geográfico, ao estar  matriculado ou aos vínculos. Pode-se estar perto mas com a mente longe, tal qual o irmão mais velho, que de tão perto não via a bondade do pai. Pelo contrário, o via como um homem severo, o qual não permite qualquer transgressão nem diversão. Decorre daí um endurecimento de coração, uma visão má sobre o mundo. Visão tão má que ao ver o irmão regressado não consegue se alegrar, antes pensa: porque ele tem isso e eu não?

Quando me vi perdido como o irmão mais velho, percebi que era mais do que hora de voltar. Olhar para todos com olhos maus, pensando sobre o que poderia ter sido, não é o que eu queria pra mim e percebendo que sem Amor não se vê beleza em nada, voltei.

Por sorte do destino, ou milagre, recebi do Criador a oportunidade de voltar à USP, em outro curso, bastante concorrido. Voltar à casa do pai, no meu caso, foi receber um ótimo bezerro cevado e sou grato a isso. Mas seria grato mesmo se ao invés de uma festa, recebesse a leve bronca do pai, que me explicasse que o que fosse dele era meu e que não era um tirano. Acolhido fisicamente ou na consciência, fica claro que estar com o pai é bem melhor, em qualquer hipótese.

Escrevi esse texto para reflexão e agradecimento. Mas se ele puder ser um pouco, ao menos um pouco, inspirador, que ele inspirasse o leitor para um auto exame, tentando responder à pergunta-câncer: “será que é hora de voltar pra onde se deveria estar?” Afinal, toma tempo, mas cedo ou tarde se percebe que a quantidade de caminho percorrido perde toda a importância a partir do momento que se decide tomar a direção certa.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sim, todo carnaval tem seu fim

Pra começar, eu sei que ao ler o título da minha carta, você pensará: "tanto clichê, deve não ser”. Eu sei, a temática do carnaval é complicada para um cara estranho como eu, que decidiu com seu sapato novo  passear sozinho, sem máscara negra pra se lembrar que era na verdade sentimental.

Veja bem meu bem, eu sei das suas lágrimas sofridas. Eu zanguei numa cisma, eu sei, quando disse precisar andar um caminho só. Eu, que gostava tanto do estrago, acabei por juntar duas palavras tão caras: adeus, você. Eu também me lembro de ter dito que iria pra não voltar, ainda mais se alguém numa curva me convidasse. Eu me entrego e não nego: quis dançar com outro par pra variar, amor.

Naquela época, querida, eu achava que estava sendo um cara valente, um vencedor, que controlaria o meu guidão. Eu não fecharia a mão pro que há de vir, então era hora de viver, ao menos um tempo, sem ter você. Eu não queria saber de cor, pelo contrário: feito passarinho, queria ver o vento me levar e ver horizonte distante. 

Mal sabia que ao sair para o lado oposto, eu me encontraria tão sem gosto de viver e o que era feito pra rir, mas me fez chorar. Quantas vezes ao longe eu via você e minha alma dizia: “ligue para mim e diga que me ama”. Mas minha decisão havia sido tomada, eu tinha aceitado a condição de te deixar. A vontade de voltar veio logo que eu saí mas, por aqui estar, tão longe de você pra te dizer, eu guardei pra mim e disse: deixa estar. O que me cabia agora era fingir na hora rir, acreditar que nada iria mudar entre nós e que você estaria a me esperar.

Acontece que não te dizer o que eu penso já é pensar em dizer e então, Aline, foi assim que hoje eu me atirei e vim te encontrar. Não quero mais ser no papel e não no viver. Cansei de viver tão sozinho e repito, meu carnaval teve um fim. Juro, tudo o que passei nesse tempo longe de ti pode ser resumido em: eu, aflito e só, confuso, sem você por aqui. Nesses onze dias, saiba que eu não manchei nós dois: não estive com outro alguém.

Em minha defesa, eu te lembro que é bom às vezes se perder, sem ter por quê, sem ter razão. Eu que pensei que seria coroado rei de mim, aprendi que não sei nem pra onde ir se você não aponta a direção. Os dias em que me vi só, foram dias em que me encontrei mais e neles eu descobri que não posso viver sem ti. Hoje prefiro levar a vida devagar, pois eu sei que meu coração só pensa em ti. Deixa ser como será, que tenho certeza que no nosso samba a dois está reservado todo amor do mundo. E pra quem disser que é tarde demais ou que é tão diferente assim, diz que a gente sempre foi um par. Afinal, quem é maior que o amor?

Sei não merecer a mão que um dia deste pra mim. Talvez você não queira mais, queira paz e sei ser um direito seu não aceitar minha flor. Entendo que nem tudo vai permanecer igual, afinal e mesmo assim te peço: pense bem ou não pense assim. Nessa minha volta, vai ver o acaso entregou um novo ou velho amor, que só representa o começo do fim das nossas vidas.

Ainda assim, pode ser que você não responda a minha carta, que a maré não vire e que a gente já não saiba mais rir um do outro, meu bem. O seu silêncio falará alto no meu peito e entenderei que aquilo que eu temia aconteceu. Se assim for, entendo que isso é coisa pouca perto do que você passou e, sem ressentimentos, te aconselho: procure dividir-se em alguém e seja capaz de se entregar. A vida é curta pra ver por si só, por isso aprenda comigo: não fique achando que sofrer é amar demais.

Diante de tudo que ocorreu, fica bem que eu sofra um pouco mais. Sofrerei, sei que na esquina me matarei a beber pra esquecer, afinal o que me resta é chorar e só em um bar acharei quem entenda meu penar.

Nesse processo, que eu possa ser confortado, deixando tudo assim como está, sereno. Não fique recordando do tempo em que tinha algum amor, em que era bem melhor e perceba que a estrada vai além do que se vê. E que essa saudade que levo, morena, não se aloje no meu peito devagar.

Ao menos isto você me deu: hoje poderei responder que sei o que é ter e perder alguém.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

À mais doce das interioranas paulistas

Oh doce e querida interiorana! Sua a beleza e a simplicidade não cabem em uma só cidade e, por isso, se espalham por todo o estado.

Meu primeiro contato com você não foi direto. Acabei te conhecendo por meio de amigos em comum, que ora apenas te conheciam, ora estavam contigo. Tínhamos, você, eu e nossos amigos, tanto em comum, que, querida interiorana, talvez tenha sido assim que surgiu a primeira chama do que hoje posso chamar, sem exagero, de amor. Tão bem acompanhada, tão bem recomendada, você só poderia ser mesmo muito legal. Eu, já tinha te visto por fotos, achei você bonitinha, com ares de rústica, comedida, tímida. Mas no princípio era só isso: uma admiração. 

Em meio ás provas que você me fizera passar, passou a surgir algo mais profundo. Talvez tenha sido no seu português, tão hermético e bem elaborado que faz qualquer metido a besta como eu, suspirar. Ou suas geográficas preocupações ambientalistas, tão descaradas e moderadas, que me fez te ver como uma combinação celestial e perfeita entre alguém ousado e razoável. Ou na sua histórica exibição da Iracema: naquele dia, percebi que você era muito mais bela que a nossa heroína indígena, minha virgem dos lábios de mel. 

Quando acabou a última de suas provas, tive a confirmação: eu te desejava. Você me fez retornar pra casa tendo que dividir minha atenção com o trânsito dessa capital caótica e com sonhos da nossa vida interiorana. Nessa vida, ficaríamos juntos pela eternidade ou até que o jubilamento nos separasse. Ainda que o prazo expirasse, a verdadeira felicidade já estaria em nossos corações: estivemos juntos por no mínimo 8 anos. Por você eu enfrentaria a lenda urbana de que os jubilados transformam-se em cachorros, saiba sempre disso. 

Mas não podemos ficar juntos, você sabe e eu sei. Ainda que em meio a suas listas você tenha dito que me quer, que eu sou especial, não vai dar. Sou um homem de pouca coragem e fé, vivendo na capital e compromissado com uma família numerosa e amigos valiosos. Pior ainda: confesso o pecado de estar flertando com duas iguais a você, mas que não chegam aos seus pés. Uma delas faz parte da tradicional elite paulista e a outra da classe média reacionária. É com grande vergonha que eu admito minha fraqueza. Em minha defesa eu invocaria até o art. V da Constituição, mas em noma da cidade que eu nunca ocuparei contigo, serei franco, ainda que soe como cafajeste: as duas estavam tão perto e você tão longe. 

Se tu soubesses o quanto de amor e carinho tenho por ti, você se instalaria inteiramente na capital paulista. 

Mas sei que a sabedoria bíblica é a que melhor se aplica neste caso.Foi dito que os covardes não herdarão o reino dos céus e que os de pouca fé não fazem montanhas se jogarem ao mar. Tirar alguém da sua envergadura do interior necessitaria de muita fé, mas admito: sou fraco. Mas aceito a condição e espero que você seja bem feliz junto de seu novo rapaz, com classificação menor que a minha, mas com coragem muito maior.

Nosso destino, distante, decepcionante, deprimente e desgostoso já está decidido. Prometo, porém, nunca esquecê-la, assim como nunca esquecerei a linda, decidida, atraente e doce moça que conheci em uma viagem, e que o simples ato de ouvir o seu nome me evoca as mais profundas reminiscências. É em nome delas, afinal não são poucas as mulheres lindas e doces que deixamos na estrada, que eu te escrevo e declaro o meu amor, doce Unesp.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Otimista

Tudo é uma questão de ponto de vista. Uma frase bem New Age, ele sabe. Mas Jonas não consegue deixar de pensar assim. Talvez tenha sido um excesso de meditação mal feita, leituras de artigos sobre a lei da atrção ou escutar Enigma demais, mas uma coisa é certa: Jonas se tornou um otimista. A frase colocada no início do conto tem sido a base da sua existência, sem exagero. Pelo menos achava-se.

Enquanto toma banho, se preparando para ir ao trabalho, Jonas dá risada vendo mais uma vez a confirmação da sua máxima. Na noite anterior, ele esteve sem nenhum sono e acontece que lá pelas duas ou três da manhã é que conseguiu dormir. Tendo que acordar às cinco e meia, meia hora mais cedo do que o usual, Jonas tinha tanto sono que quase não levantou. E estava no seu banho, tentando despertar, quando lhe ocorreu o pensamento: “o sono tão esperado às onze horas da noite é muito inconveniente às cinco da manhã”. E ainda segundo ele: “é tudo uma questão de ponto de vista”.

Devo ter esquecido de falar, mas tudo bem, não tem problema: o motivo de Jonas acordar mais cedo é que hoje ele vai pra trabalho de ônibus. Seu carro está quebrado, arrumando ou sei lá o quê: as vezes que Jonas fica sem seu carro já são corriqueiras. Mas hoje é diferente e ao contrário das outras vezes, ele vai ter que trabalhar sem carro.

Convém falar sobre a relação que Jonas tem com seu carro. Aquele seu golzinho, velhinho, velhinho, é o grande companheiro de Jonas desde a sua compra, anos antes. Mas isso não significa que o carro é bem tratado, longe disso. Na verdade, o modo que Jonas lida com o carro mostra muito da sua personalidade: Ele nutre grande afeto pelas coisas, mas nem por isso as trata bem. Foi assim com seu cachorro, com suas ex-namoradas, com vários dos seus amigos e é assim com seu carro.

Depois de se arrumar, Jonas coloca os fones de ouvido do seu tocador de mp3 e sai de casa. Chuva.

Nada que desanime o nosso amigo otimista, que vê na chuva a chance de relembrar sua infância. “Qual foi a ultima vez que eu tomei chuva? Ele tenta achar na sua mente, mas não se lembra. E dá risada quando pensa na resposta: “Hoje”. Que grande homem, não!?

Como o ponto é longe de sua casa e a lotação de bairro que o levaria até mais perto já passou ele decide ir a pé, na chuva. Mas não desanima, uma boa andada sempre que faz bem, ele tem sido muito sedentário essas épocas, sabe!?

Depois de uns quinze minutos andando, chega ao ponto de ônibus finalmente. E se surpreende. São tantas as pessoas no ponto de ônibus que, de longe, ele tinha achado que rolava uma passeata. Mas não, eram todos usuários de ônibus, um com mais mau-humor que o outro, um tipo de mau humor que não parece ser exceção e sim regra em todos os dias.

“Quanta cara feia! Que pessoas mais pessimistas e negativas” Jonas pensa, enquanto procura um lugar no ponto de ônibus. Acaba ficando bem longe do ponto efetivo, aquele lugar coberto com as cadeirinhas, logo é mais chuva na sua cabeça. As pessoas do ponto podem ser pessimistas e negativas, mas de certo modo, isso as fazem serem mais prevenidas e a situação de Jonas fica pior por ser um dos únicos sem guarda-chuva, o que faz grande parte dos respingos de chuva caírem nele. E só nele.

Acostumado a andar de carro, Jonas estranha a demora pra que o ônibus passe. Mas acaba lembrando que ansiedade é um dos grandes problemas psicológicos da modernidade. Aprender a esperar pode salvá-lo de uma futura síncope e ele já ouviu falar que a melhor forma de aprender é na prática. E fica poético, fazendo joguinhos em sua mente com a palavra “esperar' e outras como “esperança”, “esperançoso” e “esperado”. Um otimista poético, quem diria!?

Quando o ônibus finalmente chega, Jonas se surpreende por não conseguir ver qualquer espaço em seu interior que não estivesse preenchido com algum ser humano. Gente sentada, por cima dos bancos, nos corredores, gente pendurada na porta e até mesmo sentada no vão entre bancos que fica em cima das rodas.

Quando ia começar a pensar uma saída poética pra situação, Jonas é tragado pela multidão, que numa especie de arrastão disputa um lugar no coletivo. Jonas não controla suas pernas, deixa a onda humanóide o levar e acaba ficando de frente à porta. Agora é inevitável, mesmo que aquele não fosse o seu ônibus, ele teria que entrar. Mas por sorte, era exatamente o que ele esperava.

“E não é que deixando a situação me levar e consegui entrar no meu ônibus” Ele pensa.

Seu pensamento otimista, no entanto, é interrompido pela dor. Jonas leva uma cotovelada de uma passageira que quase o nocauteia. Nada de propósito, ela até pediu desculpas. Jonas até riria e pensaria algo positivo, mas a dor era grande. Não podendo ser otimista, escolheu então ser poético, lembrando de uma letra de uma música: “Na noite de frio é melhor nem nascer/ nas de calor se escolhe, é matar ou morrer”.

Jonas sentiu vontade de ouvir Cazuza, até colocaria se conseguisse mexer as mãos, colocá-la no bolso e escolher a música em seu mp3. Mas não, ele está imóvel, indefeso, a mercê de qualquer eventual cotovelada, chute e brecada brusca.

Momentos depois, Jonas percebe um odor desagradável que antes, pela recente cotovelada no nariz, não tinha percebido. Um cheiro de cachorro molhado, mas diferente... Como se ao invés de cachorros tivéssemos pessoas molhadas e suadas...

Durante a viagem de aproximadamente quarenta minutos com o trânsito incluso, o ônibus esvaziou é bem verdade. A ponto de Jonas inclusive conseguir colocar suas duas pernas no chão, fato que já não foi recebido com todo o otimismo devido ou, pelo menos, esperado. Jonas não tem mais aquele sorriso no rosto.

A situação piora quando ele percebe que o ônibus não faz o caminho esperado, o que no mínimo vai significar mais vinte minutos a pé. Isso se ele conseguir descer agora. Enquanto empurra as pessoas no corredor, Jonas pensa como nesses seus anos sem pegar ônibus, alguns trajetos deveriam realmente ter mudado. E que era pouco inteligente da sua parte não ter pensado nisso.

Não foi o único pensamento negativo que ele teve até chegar ao seu trabalho. O trajeto a pé foi uma constante acusação, lamentação e, por que não, choramento mental. Tanto que ao chegar na empresa, Jonas encontra com a recepcionista, moça bonita, que solta um belo bom dia, abrindo um lindo sorriso. Jonas responde por educação e com um sorriso cínico diz “bom dia” à moça.

É no elevador, porém, o que acontece de mais interessante. Sozinho, molhado, com o nariz doendo, Jonas subia para o décimo segundo andar. Pensa consigo em tudo o que ocorreu em seu trajeto. Mas aquém da chuva, da cotovelada ou do mal cheiro, uma coisa realmente irrita nosso amigo: o sorriso, possivelmente sincero, possivelmente dissimulado, dado pela recepcionista.

E conclui que não há motivos para ser otimista em um dia chuvoso, com trânsito recorde, tendo o seu carro quebrado, por exemplo. E mais: é extremamente irritante ver alguém otimista, sorrindo, em uma situação dessa. Segundo ele “comendo merda e dando risada”.

Como é possível ser pessimista e poético ele conclui que ao contrário de qualquer ditado popular há males que vem para o mal mesmo.

domingo, 21 de março de 2010

Entendimento

E mais uma vez Jonas sai de sua casa para uma cidade da Grande São Paulo. Ele é acostumado a andar grandes distâncias por uma mulher. Ainda mais quando é bonita, ele nem liga. E esta é. Definitivamente, ela está no seu Top Five, lista que não significa muita coisa, ele bem sabe. Mas Patrícia é uma gata, acreditem!

E lá vai o Jonas. Chega na casa da moça, espera uma eternidade, mas quando ela chega abre o sorriso como se nada tivesse acontecido. Ela pede desculpas pela demora. Típica coisa de segundo encontro, onde os dois envolvidos ainda mascaram muito do que sentem. Nesse caso, a raiva por ter esperado, no caso dele, e a completa falta de preocupação com a espera, no caso dela.

Saem os dois no carro, conversando sobre amenidades quando algo de mais grave ocorre. Patrícia, que se auto definiu como confusa desde sempre, diz para Jonas que os dois precisam conversar. E o frio corre pela espinha de Jonas. Ele temia esse momento, embora já o esperasse. Tinha percebido, sem qualquer auto definição da moça, que Patrícia era confusa, mas achava que o inevitável “pé-na-bunda” ocorreria depois de mais alguns encontros. No segundo encontro, ele pensa, é muito azar.

E Patrícia se põe a falar e falar. Fala que não é acostumada a sair com pessoas como o Jonas, que parecia ser muito apressado. Fala também que tem medo de se machucar. Disse também que tem medo de Jonas se machucar o que deveria ser evitado a qualquer custo. Mas também que Jonas lembra um ex-namorado dela, triste coincidência. Ela ainda diz que gosta de Jonas, não tanto quanto daquele ex-namorado, mas lembra que o Jonas é uma pessoa muito legal. Na verdade, ela se recorda que nem gosta tanto desse ex-namorado, apenas se sentia confortável com ele, coisa de acomodação, entende!? Pensando bem, a pressa do Jonas era coisa boa, se você pensar bem. Mas a pressa poderia atrapalhar, afinal ela pensa de novo e conclui que nem gosta tanto assim do nosso amigo. Gosta mesmo do Ex. Ela diz que tá confusa, tem medo de se machucar, definitivamente.

-Você entende, Jonas?

Jonas que havia ficado hipnotizado na primeira jogada de cabelo e se perdido na primeira contradição de Patrícia, se vê num impasse. O que falar? Ele não entendeu bulhufas do falado, mas decide que diante de tudo, o melhor era fingir que entendia. E diz:

-Eu te entendo sim, perfeitamente.

-Como você pode entender se nem eu entendo – ela respondeu.

E pra desespero de Jonas, covardemente emendou:

-O que eu disse então?

E a batatinha quente voltou pra mão de Jonas. “Fodeu de vez” ele pensa. Após um breve momento calculando e calculando ele decide jogar a toalha, desiste de vez. Alegria de pobre dura pouco, ele sabia que cedo ou tarde a Patrícia ia ficar confusa se queria sair com ele. Ele enche o peito e diz:

-Pelo que eu entendi você não quer mais sair comigo, certo!? - Ele fala em tom de choro.

-Não é nada disso, acho que é justamente o contrário. Eu acho que to gostando de você...

A conversa continua. Mas Jonas ficou com o pé atrás, sua intuição dizia o contrário, ele bem sabe. Mas ser elogiado pela Patrícia era bom demais pra ser verdade, ele pensa. “Porque não aproveitar!?”

E o que se seguiu, parafraseando Machado de Assis, foi o “eterno” diálogo de Adão e Eva.

Acontece que na ocasião do terceiro encontro, Jonas já se preparava pra sair de casa quando recebeu uma mensagem de Patrícia. A confusa mensagem, em meio a frases dispersas tinha um recado quase claro: ela não queria mais sair com ele.

“Eu estava certo desde o início!” Ele pensou.

Mesmo assim, como todo homem bobo que se preza pensou duas vezes, talvez pudesse ter feito algo de errado. Quando se preparava para ligar pra Patrícia, um rompante de lucidez e auto-estima bateu em si. Talvez fosse a intuição, talvez fosse a racionalidade. Na verdade, talvez tenha sido qualquer coisa que faz alguém pensar melhor. Mas uma coisa era clara para Jonas:

Os dois não se entendiam muito bem. Definitivamente.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Na cara, não!

Bem é chegado o Carnaval e pra não passa-lo em branco decidi viajar pra qualquer cidade do interior. Acabei escolhendo a cidade de Itu, que por incrível que pareça não tem um carnaval tão gigante assim. Mas a cidade é bonitinha, tem um centrinho histórico divertido, um trio elétrico de responsa, mulheres bonitas, cerveja Nova Schin barata, etc. No carnaval de rua só faltou uma coisa: banheiros. Não havia sequer um banheiro público, gigante ou não, para ser usado.


Mas a viagem foi ótima. Confesso que eu estava precisando de uma folga, um descanso, um lugar que pudesse me livrar das responsabilidades e problemas, pelo menos temporariamente.Talvez com isso, ficar mais firme na resolução daquilo que me aflige, sei lá.

Acho normal pensar assim, principalmente no Carnaval. Afinal, sabemos de certo modo que desde as festas do entrudo às fantasias de diabinhos, uma palavra de ordem permeia a festa mais popular do Brasil: liberar geral. O carnaval, historica, metafísica e, porque não, etílicamente é um momento de pausa nas regras, no superego da sociedade. Coincidindo com um momento de comemoração pagão, em cinco dias do ano Deus deixa de ver aquele pecado capital que você quer cometer. Não só Deus, seu chefe te dá folga, afinal ele precisa também de folga da função de chefe. Claro, ele também é filho de Deus, e também quer um passe livre pra desobedecer aos Céus, nem que seja só por alguns dias.

Nas cidades do interior, como acho que você leitor sabe, o poder de um policial é muito maior do que na capital ou na cidade grande. Deve ser um lance com o número reduzido de policiais, afinal a divisão de poder fica menor, mas é certo que um PM do interior equivale quase um delegado da capital. O delegado então que o diga. Acredito até que é interiorana a anedota de que a única diferença entre delegado e Deus é que Deus não se acha delegado.

Quanto ao problema do banheiro, em Itu, as esquinas se transformaram no maior banheiro a céu aberto, garantindo mais um título gigantesco à cidade.Como sou um meio intelectual, meio de esquerda, meio cristão e meio civilizado, decidi perguntar pra um dos policiais militares onde ficava o banheiro público mais próximo. A resposta foi emblemática. O policial me disse que eu deveria mijar em qualquer esquina, mas advertiu: "Só não vai me mijar na cara do PM!”.

Eu bem sei o que ele quis dizer. Lembro de uma vez que um cara chegou às duas da manhã na delegacia, dirigindo, bêbado querendo fazer um B.O. qualquer. Não sou fã da Lei Seca, mas ter o cara dirigindo bêbado na minha cara fez com que os rigores da lei fossem cumpridos.

Enquanto isso em Itu, procurei um lugar distante e fiz minhas necessidades fisiológicas. Mas toda a questão do carnaval, da autoridade e do “não mijar na cara do pm”, ficaram na minha cabeça, sem trocadilhos.

E comecei a perceber que a maioria dos caras que estavam com uma namorada bonitona, daquelas que não dá pra não olhar, pouco se importavam com os olhares dos marmanjos de plantão. Até a exibiam como troféu, desde que respeitadas as mínimas regras de convivência e que ninguém mexesse ou tocasse.

Interessante essa relação, tão brasileira com as transgressões. Parece que a gente nasce pra não ver algumas coisas a não ser que a situação seja gritante. E quem tem alguma autoridade ou poder não se envergonha em deixar de usá-la quando a desgraça é pouca. Nós adoramos o “deixa pra lá” em uma relação diretamente proporcional com o “agora isso já foi longe demais”. Será esse o motivo que faz a festa de libertação e liberação que é o Carnaval ser a maior em nosso país?

Admito, eu não sei. Mas sei do seguinte: quando voltava da grande Itu, acabei tendo que pegar ônibus, fiquei sem carona e tal. Em todo caso, quando estava na linha que cobre o trajeto até a minha casa, entraram alguns moradores de rua, sendo que a principal do grupo ficou contando toda a sua vida pro seu parceiro. E em alto e bom som, eu fui ouvindo as aventuras amorosas que ela teve sendo que todos seus parceiros eram moradores de rua ao que parece. Mas notei o seguinte: a todo momento era reiterado um ciúme doentio dos parceiros. Entre as histórias narradas a que me chamou a atenção foi a seguinte: a moça, moradora de rua, estava com um vestidinho preto, andando com seu ex-amasio pelas ruas de São Paulo, quando o amante se invocou com um individuo, transeunte, com residência fixa e tudo, que supostamente estava olhando pra bunda de sua parceira. E ao contrário daqueles que andavam com os mulherões em Itu, o nosso sacripanta fez com que a história tivesse um fim trágico: uma tijolada, sem mais nem menos, na cabeça do suposto voyeur adúltero, que foi parar no Hospital.

Claro: fiquei barbarizado com a história. Mas convenhamos, em uma situação em que não se tem quase nada, o pouco que se perde é muito. Praquele cara, sem residência fixa, dinheiro ou qualquer noção, o olhar pra bunda de sua parceira é uma afronta direta àquele pouco que ele tem.

E realmente acho que existe uma relação inversamente proporcional entre o montante de poder e a vontade de usá-lo. Vejamos teologicamente: Deus é onipresente e onipotente, não? E não foi ele mesmo que deu o perdão de antemão pra todos os humanos? Ainda, desde que não fosse "na sua cara” (tá, eu gosto de frisar a frase!), a cidade de Itu era um grande banheiro com autorização dos Pm’s.

Grande poder, grande perdão. Nenhum poder, nenhum perdão. Talvez essa seja a chave da construção da autoridade.

E se alguma moral há nessa história é que benevolência é pra quem pode. Tema aquele que perdoa, assim como desdenhe quem lhe taque pedras. Ou mesmo, perdoe-os, afinal “eles não sabem o que fazem”. Em tempo, já que toda teoria tem sua aplicação: não mije na cara de um PM e sempre fuja de um mendigo com um tijolo.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Verdade?

Ando meio cabreiro com as dualidades do Universo. Tenho chamado essa dualidade de “sociologização” das minha elucubrações. Falo isso, principalmente quando percebo os títulos das últimas crônicas, que a exemplo das pesquisas acadêmicas sociológicas tem no título dois conceitos amplos, muitas vezes antitéticos e contraditórios.


A única diferença entre as crônicas das teses sociológicas era a falta de subtítulos que pipocam nas capas das pesquisas da última como por exemplo: “Industrialização e Socialismo: relações políticas e economicas na sociedade planificada”, “Religião, Meio Ambiente e Cinema: Um debate crítico”, ou mesmo “Música, Barulho, Cidadania e Urbanidade: possíveis aproximações” etc. etc.


E hoje, ainda dentro deste movimento, a elucubração mensal seria sobre os conceitos expostos no título “Verdade ou Mentira: O que preferimos?”. Assim, com direito a subtítulo mesmo.


Pode parecer uma viagem clichê demais, mas tenho percebido que a verdade nem sempre, ou mesmo quase nunca, é bem vinda. Pobre daquele que um dia achou que conquistaria o mundo sendo fiel a suas ideias e convicções, sendo franco e honesto em todas as ocasiões. Na primeira esquina, ele acaba encontrando algum pedinte, que pede dinheiro e estando aquele com o único dinheiro pra condução e se vê no dilema: mentir dizendo que não tem grana ou dá-la?


Mas isso é digressão, o que quero falar aqui é sobre a mentira associada à carência afetiva, à solidão. Porque é na música a “Dança da Solidão”, que eu acabei pensando o meu argumento principal: as pessoas em geral preferem a mentira à verdade, principalmente quando a primeira delas significa ter alguém pra massagear os pés de vez em quando.


Vamos a música: a letra vai fazendo mençao a solidão, a tristeza, até que irrompe o refrão: “desilusão/ desilusão/ danço eu dança você/ na dança da solidão”. Bem, é uma boa música. Mas o que me pega foi a semântica da palavra “desilusão”. Isto porque ilusão (engano dos sentidos ou pensamento, segundo um dicionário online qualquer) era a meu ver uma coisa ruim, negativa. Logo, ser desiludido seria uma coisa boa, voltar à realidade, encara a vida como ela é. Me parece que não é esse o sentido na música, onde a palavra é empregada de forma negativa e é ainda associada a “solidão”. Aquém de qualquer discussão aprofundada, ao menos a primeira impressão que a musica me passou foi a seguinte: talvez seja bem melhor continuar iludido, desde que não sozinho.


Bem, isso me levou a pensar sobre outras palavras, um exemplo a palavra “desenganar”. Ora, aprendi com minha mãe que enganar os outros era feio. Desenganar, logo é uma coisa boa. Mas uma pessoa desenganada por algum médico é uma pessoa que tá com seu pé na cova. Nessa situação, antes fosse provavelmente continuar enganado.


Ponho-me a pensar até que ponto as pessoas querem a verdade. Seja falar da dos problemas que atrapalham uma relação, seja contar que aquele fora que você deu em alguém é porque tem outra pessoa na jogada, etc. Quem já foi eleito o porta-voz da verdade sabe: as pessoas odeiam quem conta a dura verdade. E fazem biquinho, ficam bravinhos e ficam com os olhinhos lacrimejados, implorando por uma mentirinha branca.


Tudo bem, eu, você e todos gostamos de uma mentira... e?


O lance todo é que como todas as funções que existem debaixo do sol, houve uma profissionalização da mentira. Um exemplo de profissional, o estelionatário. Além de levar o dinheiro da vítima, usando truques como o golpe do bilhete premiado, da máquina de fazer nota, do empréstimo milionário no BNDES, o estelionatário leva sua honra, seu coração e sua alma. Isto porque ele faz da ambição da vítima a sua forma de barganha. Alguém que dá R$ 3.000,00 por uma máquina que produziria dinheiro falso tem alguma moral à delegacia reclamar? Ou aquele que tenta se aproveitar da ingenuidade de um interiorano com um bilhete da loteria premiado e perde a sua bolsa? É celebre a frase de um juiz que escreveu em uma sentença que não se deveria prender o estelionatário e sim o otário que caiu no golpe. O que, particularmente, me deixa intrigado é a perseverança do estelionatário pra conseguir o que quer. Ele mente, atua, vira seu amigo, toma chá na sua casa, tudo pra conseguir aquele dinheiro que você tem na bolsa ou no banco. O estelionatário é brasileiro e não desiste nunca! E acho que nós torcemos secretamente por ele.


E o já aclamado e adorado estelionatário social: o malandro. O malandro já virou símbolo do brasileiro. Ele supera as barreiras que sua condição de nascimento lhe impõe e usando toda a sorte de traquinagens, consegue freqüentar festas na alta sociedade, ser citado nos cd’s de artistas famosos, etc. Foi até tema de albuns do Chico Buarque, olha só! Todos nós queremos ter um pouco de malandragem a flor da pele.


Mas acho que verdadeira paixão nacional é o estelionatário emocional, também conhecido como cafajeste, cafa ou José Mayer. Talvez uma mulher pudesse nos explicar melhor sobre o estranho fascínio que um cafajeste tem sobre o sexo feminino. Em todo caso, é um fato: a grande maioria das mulheres querem um cafajeste pra chamar de seu.


Ora, vivermos em uma sociedade em que cada vez as relações são mais escassas. O cafajeste tem um desejo muito grande por alguma mulher, tanto quanto o malandro tem de ascender socialmente e o estelionatário tem pelo seu dinheiro. E de tão grande o seu desejo, ele é capaz de jurar amor eterno, fazer vozinha de retardado ao telefone, mentir descaradamente sobre onde esteve na noite passada, etc. Acho que no fundo todos sabem que se tratam de mentiras, mas são as que atingem uma parte complicada da psiquê humana: o ego. Quem não quer se sentir desejado?


Imagino eu que pra uma mulher deva ser inconscientemente lisonjeiro imaginar que aquele cara é capaz de fazer para tê-la e afirmo: não são poucas as referencias que tenho pra afirmar isso. São inúmeras as vezes que já presenciei mulheres dizerem que não importava a fidelidade de seus homens, o que importava era a lealdade. Não deixa de ser lealdade sair com sua melhor amiga e mentir, negar até a morte que o fez.


Enquanto isso, como está quem fala a verdade ou pelo menos a quer? Está só, duro e sem prestígio social!? Não sei... mas talvez realmente “seja mais forte quem sabe mentir” e muitas das coisas terrenas estão reservadas pra aquele contador de histórias, xavequeiro e galanteador.


E agora, nunca por falta de criatividade e sim por um recurso técnico sociologizador, não haverá nenhuma lição de moral neste texto. Porque, convenhamos, falemos a verdade e deixemos de ilusão: as mentiras, como essa da criatividade, são as formadoras da realidade.