terça-feira, 3 de março de 2015

Do perueiro escolar

Um incauto motorista que dirige nas ruas de seu bairro, próximo ao horário de entrada ou saída das escolas, inequivocamente, acaba por encontrar uma infinidade de espécimes de uma figura sui generis da fauna paulistana: o perueiro escolar. Em seu veículo com faixas amarelas e pretas, de zumbido característico, a imagem de um enxame de abelhas poderia facilmente ser evocada. Mas não se engane: nesse cenário, não há doce, não há néctar, não há mel.  

Antes de tudo, ponho-me a tratar sobre a difícil caracterização desse personagem,  começando pelo seu próprio meio de locomoção. O veículo de transporte de estudantes não pode ser chamado, em si, de um micro-ônibus ou ônibus escolar.  Embora por vezes o tamanho do carro possa confundir, sua incipiente regulamentação acaba por afastar a possibilidade enquadrá-lo como algum tipo de ônibus, ao menos algum oriundo de alguma viação devidamente organizada. O transporte escolar é, em essência, autônomo, irregular, aventureiro. Tampouco podemos chamá-lo de lotação escolar, justamente por ainda contar com uma pequena dose de regulamentação e por não haver, até a data desse escrito, qualquer comprovação de ligação de perueiros escolares com o crime organizado. Na dura vida dos veículos de faixa amarela na lateral, a prática de crimes, em geral, dá lugar ao constante e deliberado cometimento de inúmeras contravenções e infrações de trânsito.

Assim, mesmo em tempos de gourmetização da vida e de descontinuidade da produção da VW/Kombi, não existe definição com maior precisão do que a da “perua escolar”, inclusive pela própria ambiguidade do termo.  A perua escolar, no trânsito e na vida, é aquela que congrega as características de uma inofensiva madame semibrega com as características de um veículo automotor que, a exemplo da lenda urbana, se contasse com um palhaço ou bailarina em seu interior, poderia virar uma central itinerante do mercado negro de órgãos.

Elemento de suma importância na caracterização do indivíduo perueiro escolar é a sua voluntariedade em ser chamado “Tio”, condição esta ostensivamente demonstrada em adesivos colados na porta de seu veículo. "Tio Ivan", nome que segundo o IBGE pouco mais de 90% dos perueiros escolares receberam no batismo, é o que você lê quando recebe uma fechada de uma perua escolar, em meio aos gritos das crianças que se encontram em seu interior. A escolha pela figura do “tio” não é por acaso.  Toda família que se preza possui em seus quadros uma figura popularmente definida como "Tio tranqueira". De função importantíssima e indispensável, inclusive desempenhada por este autor no seu seio familiar, o tio tranqueira é um sujeito da borda, uma espécie de anti-herói familiar. É aquele que, vendo-se na ausência dos pais da criança, ensina lições de caráter duvidoso aos sobrinhos, mas de imensurável valor nas adversidades da vida: como revidar agressões injustas, como mascar chicletes de forma descolada, talvez até alguns palavrões, etc.

O tio perueiro, no âmbito interno de seu veículo, é também um educador, ainda que informal. Há entre esses profissionais aqueles que estabelecem uma rígida hierarquia, onde crianças mais velhas devem cuidar das menores, nomeando uma delas como responsável, inclusive, pela abertura e fechamento das portas do carro.  Assim, com mão e volante de ferro, o valor da disciplina e do trabalho é ensinado. Além disso, o perueiro escolar fornece uma enorme lição sobre adaptabilidade.  Quando se vê na ausência dos pais, o perueiro dirige imprudentemente e, em meio aos solavancos e saltos, ensina às crianças que a vida é, em realidade, dura e tormentosa. Por outro lado, na presença dos pais, ao entregar ou buscar as crianças, usa o freio de forma suave, usa linguagem polida e mostra que a vida também é feita de aparências: não basta (nem se deve, ao que parece) ser probo, deve-se parecer probo.

Do ponto de vista externo, o perueiro escolar é aquilo que se vê. Ou se sente. Em meio às fechadas e freadas bruscas, você pensa em chamá-lo de imprudente e até xingá-lo, mas se cala. Ele é titular de um jeito de dirigir muito próprio, quase que hipnótico e admirável. Não se porta como dono da rua, como o faz um taxista da Guarucoop ou um nefasto motorista da Jangada Transportes. Não. O perueiro escolar é antes de tudo uma espécie de possuidor legítimo do logradouro público, ao menos em horários claros e definidos dos seus períodos de posse. Talvez por ser ciente de sua limitação jurídica, o perueiro não aliena nem dispõe de seu espaço: briga por ele, repele invasores, usucape pra si as normas de trânsito e a segurança viária.


O perueiro escolar é, em definitivo, o mais informal dos transportadores regulamentados. É, como visto acima, ao mesmo tempo, tio, educador, contraventor, zangão e posseiro. Pra finalizar em termos escolares, o perueiro escolar demonstra que não só de pontos cardeais ou colaterais é que se faz uma Rosa dos Ventos. Percebendo que não tinha talento pra ser um Norte, tampouco um Noroeste, o perueiro escolar, dirigindo inadvertidamente, fez com que todos aprendessem e respeitassem o valor que um nor-noroeste possui e merece. Tanto faz, nesse caso, se o aluno esteja na 4ª série ou já tenha colado grau, esteja dentro da perua ou dirigindo no trânsito dos bairros de São Paulo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A Nossa Casa

Não vou mentir: dói demais falar sobre a nossa antiga casa.  Também pudera, um lugar como aquele, que despertava tanta inveja dos vizinhos, haveria também de despertar algum sentimento muito intenso só por ser lembrado. Engraçado que embora de simplicidade em sua descrição, um sobrado na rua Catarina, com dois andares e um modesto quintal, a casa tinha algo de encantado, sempre admirada por quem a via ou visitava, elogiosos do seu ambiente aconchegante, do seu clima bucólico ou do seu charme .


Não a conheci, porém, na sua época áurea. Meu pai sempre dizia que, em um primeiro momento, quando não tinham filhos e haviam acabado de terminar a construção, ele e mamãe tiveram momentos incríveis naquele lugar.  O relato dele também sempre possuía certo tom de mágica e nostalgia. Meu pai tinha algum dom com as palavras e nunca me cansei de ouvi-lo descrever como naquela casa, ele e mamãe a sós, experimentavam o tempo correr de forma diferente, numa espécie de relatividade mística, onde tudo era possível e tudo acontecia. Meu pai me poupava de maiores detalhes, mas acho que ele e mamãe viviam agarrados em cada canto daquele lugar, numa eterna dança que é própria deles, afinal os dois realmente possuíam uma sincronia surpreendente, como mais tarde tive a oportunidade de contemplar e até hoje me impressiono.

Mesmo assim, em uma época de crise, os dois foram obrigados a se separarem e tomaram caminhos diferentes. Papai perdera o emprego, teve que trabalhar em outra cidade, e mamãe, jovem ainda, decidiu voltar pra casa de seus pais. Ouvi muito do meu pai sobre o quanto doeu ter que deixar minha mãe e nossa antiga casa.  Minha mãe também sempre demonstrou que foi um período difícil pra ela. Pra casa também não foi diferente: a crise que tirou o emprego de papai também atingira o mercado imobiliário, e o sobrado não foi vendido à época. Ficou, assim, às traças, abandonado, num quadro que me faz, mesmo nem nascida até então, ficar consternada. O que eles estavam pensando?  Como abandonar aquela casa tão querida assim? Será que outra solução não era possível?

O fato é que mesmo abandonada, a casa nunca foi esquecida.  Tanto que anos depois, quando meus pais se reaproximaram e decidiram tentar novamente, o lugar pra ambos não poderia ser outro que não o sobrado da rua Catarina.  A vida tem algumas surpresas sabe?  Ainda que o imóvel tenha permanecido fechado durante anos, não tendo sido visitado por nenhum dos dois - ambos confessaram que a simples lembrança que a casa existia e estava abandonada era, em sua maneira, devastadora, o que impossibilitou visitas durante esse tempo - poucos danos, além de infestações de cupins e algumas goteiras, haviam aparecido. Meu pai disse ter se surpreendido quando descobriu que, durante todos esses anos distantes minha mãe, secretamente, continuava pagando os impostos do imóvel, na esperança de vê-los juntos novamente.  O fato é que, por sorte minha, num ato de coragem de ambos, eles reataram e voltaram a morar na nossa casa, o que a essa altura do meu relato você já deva ter deduzido, significou minha chance de existir.

Foi nesse lar que vivi minha infância.  Em que pesem as resilientes goteiras, vivemos em um grande lar e fomos uma família muito feliz.  Tinha algo de muito mágico naquele lugar, sim, e agora não falo pelo relato de meu pai, mas pelo que vi e vivi. O seus tons em mogno e lilás.  Sua sala grande e espaçosa. O quarto dos meus pais e sua grande cama, no qual eu era terminantemente proibida de entrar sem aviso prévio.  Tudo nela tinha mágica e beleza. 

Já prevejo você pensando que é minha percepção da infância que romantiza tudo e todos, não sendo diferente com a casa em que vivi. Dessa acusação não me defenderei, no entanto, peço que me ouça: as coisas são mais do que só percepção, caro amigo, e existe, sim, uma verdade a ser encontrada. E a verdade da Casa da rua Catarina é uma só: mágica.

Você pode imaginar o quão terrível foi quando aquela grande tempestade veio. Ninguém soube até hoje me explicar os motivos daquela chuva gigante ter tomado conta do nosso canto da cidade. E mais: parecer ter escolhido a nossa casa pra desaguar quase que inteira. É claro que a chuva causou danos a toda uma série de imóveis da vizinhança, mas ela foi – será que por culpa de algum de nós? - especialmente destruidora com nossa casa.

Arruinada a casa, dessa vez não por abandono, mas por uma ação externa, meus pais se viram no dilema sobre reconstruir tudo ou vendê-la naquele estado, pra demolição.  Por falta de recursos, vi mamãe tentar convencer meu pai pra que ambos se afastassem, de forma parecida com aquela do passado, e reconstruíssem tudo, pouco a pouco, à medida que algum dinheiro voltasse a entrar.  E como se fosse ontem, lembro-me da negativa de papai, declarando que o tempo no qual a casa esteve abandonada fora o bastante, e que, pra ele, o sobrado precisava ir.

Foi o momento mais dramático da minha vida, a proposta de papai foi vencedora e de forma urgente  e repentina chegou a hora de dar o mais difícil adeus.

Hoje, acho que consigo entender papai.  Acredito que os anos em que esteve longe de mamãe e de nossa casa foram particularmente difíceis pra ele.  Ele nunca me falou abertamente sobre o que o levou àquela decisão tão drástica e terrível quanto à demolição que presenciamos.  Mas ele teve seus motivos, sem dúvida. O fato é que, com a casa vendida, meus pais se divorciaram de vez.  Fiquei com meu pai na separação, o que se mostrou uma decisão acertada: permitiu que minha mãe fosse viver sua sonhada vida na Itália, enquanto eu pude cuidar de meu pai por aqui mesmo.  Foi a grana da venda da casa que permitiu a realização do sonho de mamãe e isso foi bom.

Meu pai comprou uma casa menor, com sua metade, na qual viveu até o fim da vida comigo, minha madrasta e meu meio irmão. E seu sonho de ter um filho pôde ser realizado com a queda da casa da Rua Catarina.

Talvez fosse realmente hora da demolição. E nesse ato final, no ato de sua morte, a casa presenteou minha família com a realização, dolorosíssima, dos sonhos dos meus pais. 


Ainda assim, de vez em quando me pego pensando sobre tudo, e num misto de melancolia e resignação, semelhantes ao presente nas cartas de minha mãe ou no olhar distante de meu pai, me pergunto: como tudo teria sido se aquela casa, tão mágica, possuísse fundações mais firmes?

sexta-feira, 1 de março de 2013

Enquanto isso, na repartição

-Então senhora, você foi intimada aqui pra prestar esclarecimentos sobre uma suposta injúria contra a sua vizinha.

-Injúria? E o que seria isso?

-Sua vizinha alega que você a ofendeu com palavras de baixo calão.

-O quê? Eu nunca xinguei aquela vagabunda, pilantra, biscate, salafrária. É mentira dela.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Opressores

Baseado em fatos quase reais.

 Uma ambulante entra na repartição pública, com uma cesta com embrulhos coloridos nas mãos.
    -Vamos comprar uma trufa hoje? É só dois reais.
O funcionário atarefado olha para o lado e vê a moça em sua porta. Pensa na proposta da moça, que parece humilde e que provavelmente sobrevive da renda gerada pela venda das trufas. Por outro lado, pensa na dieta, mas enfim, ele merece um agrado dado a si mesmo, afinal vive sendo explorado por seu chefe. Analisa a situação, aproveita que é dia de pagamento e decide comprar uma trufa da moça:
    -Vê uma pra mim, por favor...
A ambulante entra em sua sala e vem até a sua mesa, sem desviar o olhar do nosso funcionário.
    -Nossa moço... quanto papel nessa sala – diz a ambulante, ainda sem tirar os olhos do funcionário.
O funcionário, imaginando que a moça quer puxar assunto, responde, pegando a carteira:
    -É, muito trabalho acumulado, acabei de voltar de férias. É assim mesmo.

    -Eu bem sei como é – a moça responde ainda sem piscar- É que eu sou atormentada por espíritos opressores e malignos o dia todo. O tempo todo ouço vozes, que me mandam fazer coisas, matar pessoas, mas eu não obedeço não.

Nos instantes de silêncio que se seguem, o funcionário cogita a possibilidade da moça ser, ela própria, um espírito opressor materializado, provavelmente de alguma funcionária que morreu na repartição. Pensa também que talvez seja uma pegadinha de algum colega. Faz sentido: nosso funcionário está ainda um pouco confuso com a montanha de papéis que recebeu do chefe quando voltou de férias, fato que um colega poderia usar como vantagem. Ou até mesmo uma pegadinha do próprio chefe, aquele canalha.

Por fim, pondera que talvez esteja exagerando, que a moça seja apenas esquizofrênica e que não havia motivo pra pânico. Pega a trufa, paga e se despede agradecido da moça, que sai da repartição com o mesmo andar levemente corcunda e claramente perturbado.

O funcionário ri da situação e volta a trabalhar. Mas a dieta se mantém e a trufa, cuja procedência e composição é desconhecida e oculta, é colocada na mesa do chefe, como presente. Afinal, algo lhe diz que o fogo amigo não atinge apenas aliados em uma guerra, podendo também atingir a opressores, de qualquer natureza, em tempos de paz.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O Flagra

“O telefone encontra-se indisponível, deixe sua mensagem após o sinal”. Era a trigésima vez que ela ouvia aquela mesma mensagem, ligando pro mesmo número nos últimos 20 minutos. Ela está claramente nervosa, grita impropérios olhando para o telefone entre uma ligação e outra, até que decide sair e ir até o trabalho do namorado pessoalmente. É sexta-feira, por volta das seis, e minutos antes havia recebido uma mensagem em que seu namorado dizia não poder encontra-la pois trabalharia até tarde, marcando um horário para pegá-la em sua casa no dia seguinte. Data, horário e mensagem suspeita, o que ensejou uma ligação não atendida, que aumentou a desconfiança, dando início a um círculo vicioso cujo placar já contava com trinta ligações, quatro mensagens de texto e dois recados na caixa postal, nada educados.

Enquanto entrava no carro, ela pensava sobre como não seria passada mais uma vez pra trás. Não, ao contrário do que ocorrera em outros namoros, dessa vez ela constataria a mentira de seu namorado pessoalmente, primeiro sobre o trabalho, e, com sorte, descobrindo pra onde ele havia ido e dar o flagra. Como descobriria o seu paradeiro pareceu-lhe uma questão a ser trabalhada mais tarde, improvisada, afinal a vontade de dar um flagrante naquele canalha traidor era mais forte que qualquer obstáculo. No mesmo espírito, ignorou o fato de que uma tempestade se aproximava e que sua habilidade para dirigir à noite e com mau tempo não era das melhores.


No caminho, nossa amiga furou dois sinais vermelhos, sabendo que devia ser rápida, tendo de chegar antes do namorado ligar o celular e ouvir as suas mensagens, a última mensagem em especial, revelava o plano de desmascará-lo. Quando a chuva torrencial começou, ela ignorou a recomendação de diminuir a velocidade, mantendo-se firme ao seu objetivo. Minutos depois, desviando de um carro que vinha no cruzamento, acabou perdendo o controle, que derrapando e subindo na calçada. Pequeno acidente, ninguém se machucou, a não ser três dos pneus do seu carro e as respectivas rodas. Ficou claro que ela não poderia seguir viagem e, resignada, ligou para o seguro.

Nas três horas em que aguardou o guincho chegar, chorou um choro raivoso, chegou a planejar a morte de seu namorado, mas voltou atrás, percebeu que estava sendo irracional e que deveria ter frieza. Concluiu que embora não tivesse dado o flagrante, deveria agir de forma calculada pra desmascarar aquele canalha. Durante toda noite, passada em claro, arquitetou uma série confusa de vinganças “sutis”, que incluía provocações passivo-agressivas e flertes com desconhecidos. Terminaria com uma conversa cheia do falso espírito de perdão, onde com uma fala mansa, baixa, quase hipnótica, ela prometeria que o perdoaria se ele fosse sincero quanto ao que havia feito. Depois da confissão, aí sim, partiria pra ignorância.

No dia seguinte, recebeu uma sms de um telefone desconhecido, assinada por seu namorado e que confirmava o horário do encontro. Pontualmente, ele chegou até o portão de sua casa e buzinou três vezes, como de costume. Quase que prontamente, ela saiu toda arrumada, entrou no carro, fechou a porta. Estava linda, disse ele, sendo respondido com uma explosão de xingamentos e com uma tentativa de tapa na cara. Para ela, o elogio vindo daquele cafajeste havia sido a gota d’agua, que, numa tempestade semelhante à da noite anterior, colocou todo o seu plano por água abaixo.

A princípio assustado, depois impassivo, ele ouviu todas as ofensas, ameaças, choros que partiram de sua namorada naquela meia hora seguinte. Perguntou se ela havia terminado, ao que ela consentiu de cabeça baixa. Sem dizer nada, ele saiu do carro, foi até o porta-malas, pegou um embrulho e, sentando novamente no banco do motorista, jogou no colo dela.

- Tá aqui o presente que eu fui comprar ontem pra você. Era uma surpresa, por isso menti quando falei que trabalharia até mais tarde. Inclusive, fui assaltado quando saí do shopping, levaram meu celular e por isso não vi nenhuma das suas ligações ou mensagens. Não iremos sair hoje, pode pegar seu presente e ir pra casa.

Ela não sabia o que fazer. Parou por quase um minuto, ensaiou um pedido de desculpas, mas foi logo interrompida por ele, que, ainda impassivo, disse firmemente pra que ela descesse do carro e que depois conversariam. Quando ela fechou a porta, ele saiu lentamente, provavelmente podendo ver o seu semblante desolado abrir o portão e entrar em casa.

No caminho, ele pensou sobre como pressentira que a noitada de bebedeira com os amigos não sairia impune. Tinha ficado bêbado o bastante, inclusive, para perder o celular no tortuoso e desconhecido caminho pra casa. Mas entre toda a sorte e proteção divina, agradeceu em especial por ter seguido o conselho de um colega, que também vivia esquecendo datas importantes, e de ter, meses antes, comprado um estoque de presentes e deixado no porta-malas do carro. 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sim, todo carnaval tem seu fim

Pra começar, eu sei que ao ler o título da minha carta, você pensará: "tanto clichê, deve não ser”. Eu sei, a temática do carnaval é complicada para um cara estranho como eu, que decidiu com seu sapato novo  passear sozinho, sem máscara negra pra se lembrar que era na verdade sentimental.

Veja bem meu bem, eu sei das suas lágrimas sofridas. Eu zanguei numa cisma, eu sei, quando disse precisar andar um caminho só. Eu, que gostava tanto do estrago, acabei por juntar duas palavras tão caras: adeus, você. Eu também me lembro de ter dito que iria pra não voltar, ainda mais se alguém numa curva me convidasse. Eu me entrego e não nego: quis dançar com outro par pra variar, amor.

Naquela época, querida, eu achava que estava sendo um cara valente, um vencedor, que controlaria o meu guidão. Eu não fecharia a mão pro que há de vir, então era hora de viver, ao menos um tempo, sem ter você. Eu não queria saber de cor, pelo contrário: feito passarinho, queria ver o vento me levar e ver horizonte distante. 

Mal sabia que ao sair para o lado oposto, eu me encontraria tão sem gosto de viver e o que era feito pra rir, mas me fez chorar. Quantas vezes ao longe eu via você e minha alma dizia: “ligue para mim e diga que me ama”. Mas minha decisão havia sido tomada, eu tinha aceitado a condição de te deixar. A vontade de voltar veio logo que eu saí mas, por aqui estar, tão longe de você pra te dizer, eu guardei pra mim e disse: deixa estar. O que me cabia agora era fingir na hora rir, acreditar que nada iria mudar entre nós e que você estaria a me esperar.

Acontece que não te dizer o que eu penso já é pensar em dizer e então, Aline, foi assim que hoje eu me atirei e vim te encontrar. Não quero mais ser no papel e não no viver. Cansei de viver tão sozinho e repito, meu carnaval teve um fim. Juro, tudo o que passei nesse tempo longe de ti pode ser resumido em: eu, aflito e só, confuso, sem você por aqui. Nesses onze dias, saiba que eu não manchei nós dois: não estive com outro alguém.

Em minha defesa, eu te lembro que é bom às vezes se perder, sem ter por quê, sem ter razão. Eu que pensei que seria coroado rei de mim, aprendi que não sei nem pra onde ir se você não aponta a direção. Os dias em que me vi só, foram dias em que me encontrei mais e neles eu descobri que não posso viver sem ti. Hoje prefiro levar a vida devagar, pois eu sei que meu coração só pensa em ti. Deixa ser como será, que tenho certeza que no nosso samba a dois está reservado todo amor do mundo. E pra quem disser que é tarde demais ou que é tão diferente assim, diz que a gente sempre foi um par. Afinal, quem é maior que o amor?

Sei não merecer a mão que um dia deste pra mim. Talvez você não queira mais, queira paz e sei ser um direito seu não aceitar minha flor. Entendo que nem tudo vai permanecer igual, afinal, e mesmo assim te peço: pense bem ou não pense assim. Nessa minha volta, vai ver o acaso entregou um novo ou velho amor, que só representa o começo do fim das nossas vidas.

Ainda assim, pode ser que você não responda a minha carta, que a maré não vire e que a gente já não saiba mais rir um do outro, meu bem. O seu silêncio falará alto no meu peito e entenderei que aquilo que eu temia aconteceu. Se assim for, estou ciente  de que isso é coisa pouca perto do que você passou e, sem ressentimentos, te aconselho: procure dividir-se em alguém e seja capaz de se entregar. A vida é curta pra ver por si só, por isso aprenda comigo: não fique achando que sofrer é amar demais.

Diante de tudo que ocorreu, fica bem que eu sofra um pouco mais. Sofrerei, sei que na esquina me matarei a beber pra esquecer, afinal o que me resta é chorar e só em um bar acharei quem entenda meu penar.

Nesse processo, que eu possa ser confortado, deixando tudo assim como está, sereno. Não fique recordando do tempo em que tinha algum amor, em que era bem melhor e perceba que a estrada vai além do que se vê. E que essa saudade que levo, morena, não se aloje no meu peito devagar.

Ao menos isto você me deu: hoje poderei responder que sei o que é ter e perder alguém.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

À mais doce das interioranas paulistas

Oh doce e querida interiorana! Sua beleza e simplicidade não cabem em uma só cidade e se espalham por todo o estado.

Meu primeiro contato contigo não foi direto. Acabei te conhecendo por meio de amigos em comum, uns que apenas te conheciam, outros que estavam contigo. Tínhamos, você, eu e nossos amigos, tanto em comum, querida interiorana, que talvez tenha sido assim que surgiu a primeira chama do que hoje posso chamar, sem exagero, de amor. Tão bem acompanhada, tão bem recomendada, você só poderia ser mesmo muito legal. Curioso, acabei te vendo retratada em fotos e te achei bonitinha, com ares de rústica, comedida, tímida... Mas no princípio foi só isso: uma admiração...

Foi meio ás provas que você me fez passar que passou a surgir algo mais profundo. Talvez tenha sido no seu português, tão hermético e bem elaborado que fez qualquer metido a besta, como eu, suspirar. Ou suas geográficas preocupações ambientalistas, tão descaradas e moderadas, que me fez te ver como uma combinação celestial e perfeita entre alguém ousado e, ao mesmo tempo, razoável. Ou na sua histórica exibição da Iracema: naquele dia, percebi que você era muito mais bela que a nossa heroína indígena.

Quando acabou a última de suas provas, tive a confirmação: eu te desejava. Você me fez retornar pra casa tendo que dividir minha atenção entre o trânsito dessa capital caótica e os sonhos da nossa vida interiorana. Nessa vida, ficaríamos juntos pela eternidade ou até que o jubilamento nos separasse. Ainda que o prazo expirasse, a verdadeira felicidade já estaria em nossos corações: estivemos juntos por no mínimo 8 anos. Por você eu enfrentaria a lenda urbana de que os jubilados transformam-se em cachorros, saiba sempre disso. 

Mas não podemos ficar juntos, você sabe e eu sei. Ainda que em meio a suas listas você tenha dito que me quer, que eu sou especial, não vai dar. Sou um homem de pouca coragem e fé, vivendo na capital e compromissado com uma família numerosa e amigos valiosos. Pior ainda: confesso o pecado de estar flertando com duas iguais a você, mas que não chegam aos seus pés. Talvez eu tenha diminuído meus padrões, talvez você o tenha aumentado. É com vergonha que admito minha fraqueza. Em minha defesa eu invocaria até o art. V da Constituição, mas em nome da cidade que eu nunca ocuparei contigo, serei franco, ainda que soe como cafajeste: as duas estavam tão perto e você tão longe. 

Se tu soubesses o quanto de amor e carinho tenho por ti, se instalaria inteiramente na minha cidade. 

Mas sei que a sabedoria bíblica é a que melhor se aplica neste caso. Foi dito que os covardes não herdarão o reino dos céus e que os de pouca fé não fazem montanhas se jogarem ao mar. Pra tirar alguém que tem a envergadura do interior é necessária muita fé, e admito: sou fraco. Mas aceito a condição e espero que você seja bem feliz junto de seu novo rapaz, com classificação menor que a minha, mas com coragem muito maior.

Nosso destino, distante, decepcionante, deprimente e desgostoso já está decidido. Prometo, porém, nunca esquecê-la, assim como nunca esquecerei a linda, decidida e doce moça que conheci em meio à estrada, e que o simples ato de ouvir o seu nome me evoca as mais profundas reminiscências. É em nome delas, afinal não são poucas as mulheres lindas e doces que deixamos no caminho, que eu te escrevo e declaro o meu amor, querida Unesp.